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Falta de fiscalização transforma o trânsito no Rio em teste de paciência

VEJA RIO levou quase uma hora em travessia entre Leblon e Copacabana

Por Lucas Vieira
12 dez 2025, 06h27 • Atualizado em 12 dez 2025, 18h16
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Purgatório da beleza e do caos: no Rio, um breve percurso pode se transformar em dor de cabeça para os motoristas (Buda-Mendes-GettyImages/Divulgação)
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  • Para muitos cariocas, infelizmente aquela sensação de “sextou” não começa logo após o fim do expediente, regado a um chope com os amigos ou ao lazer em família.

    Antes da festa, grande parte das pessoas que moram e trabalham no Rio tem de enfrentar os engarrafamentos e os problemas que vêm a reboque — incluindo aí a falta de educação de motoristas e a escassa fiscalização das autoridades.

    Para obter uma amostra dos desafios impostos a quem precisa encarar o trânsito no horário de rush, VEJA RIO cruzou, justamente em um fim de tarde de uma sexta-feira, os bairros de Copacabana, Ipanema e Leblon, áreas nobres da Zona Sul.

    A corrida ocorreu em 28 de novembro e levou 55 minutos, embora a aferição da CET-Rio estime o tempo gasto em 38 minutos. Para finalizar o curto percurso de 7,1 quilômetros foi preciso paciência, sangue frio e elevados graus de atenção para evitar acidentes.

    Além do congestionamento, a reportagem flagrou infrações de diversas naturezas, não só de motoristas, mas de motociclistas e ciclistas. Com a chegada do verão e dos turistas, a tendência é que esse deslocamento se torne ainda mais lento.

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    A travessia começou na Avenida Ataulfo de Paiva, na altura da Dias Ferreira, no Leblon, às 16h58. Alunos saíam da escola e muita gente passeava pela calçada.

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    Foram seis minutos até Ipanema, com fluxo tranquilo, mas várias ocorrências de uma mesma irregularidade, a mais repetida em todo o trajeto: carros parados em fila dupla.

    Além de atrapalhar a fluidez, a prática é considerada infração grave, que pode levar o condutor a acumular 5 pontos na carteira nacional de habilitação e pagar multa de 195,23 reais.

    Às 17h04, quando a equipe chegou à Visconde de Pirajá, a confusão aumentou. Motociclistas desrespeitavam a sinalização e até mesmo subiam nas calçadas para fazer entregas.

    O perigo era ainda maior para as crianças: responsáveis transportavam os pequenos em suas bikes na contramão — alguns sem capacete —, e uma van escolar chegou a fechar o cruzamento com a Vinicius de Moraes.

    Em Copacabana, o caos se instaurou por completo. Após dezoito minutos cortando o bairro de Ipanema, o trânsito estava completamente parado na Francisco Sá.

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    Foram oito longos minutos para o carro conseguir percorrer 350 metros e dobrar a esquina com a Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Na pista exclusiva para ônibus e táxis, um furgão de uma plataforma de entrega sob demanda estava estacionado, isso mesmo, descarregando móveis.

    Mais adiante, um veículo parou na frente da garagem de um prédio residencial, impedindo um morador de sair de casa. Os estacionamentos em fila dupla persistiam, e muita gente a pé costurava os carros para chegar ao outro lado.

    Motocicletas e bikes elétricas se locomoviam à vontade, invadindo calçadas, ultrapassando pelo lado errado e surgindo na frente dos carros para trocar de pista.

    Na altura da Miguel Lemos, um ônibus fechou o cruzamento e, na calçada, avistava-se uma viatura do programa Segurança Presente, com dois policiais alheios ao caos, entretidos com seus celulares — um dentro e um fora do carro.

    Não é atribuição deles cuidar do fluxo de veículos, verdade, mas a cena mostra a naturalidade com que irregularidades como essa ocorrem. Por nota, a CET-Rio afirmou que a Guarda Municipal atua no ordenamento e na fiscalização do trânsito, e as infrações são coibidas mediante flagrante.

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    A prefeitura chegou a lançar em outubro o Programa de Monitoramento de Direção Segura de Condutores, com o objetivo de promover mais segurança no trânsito e reduzir comportamentos de risco entre motociclistas que prestam serviços de transporte de passageiros e de entrega por plataformas digitais.

    “Aquela empresa que não aderir a essas regras da prefeitura, que é basicamente respeitar os limites de velocidade, a mão da rua, não andar na calçada, vamos fiscalizar com muito vigor a ação dessas plataformas”, disse, à época, o prefeito Eduardo Paes.

    Mas, ao que tudo indica, os planos ainda não saíram do papel. Ao longo de todo o trajeto, que levou quase uma hora, a equipe de VEJA RIO não topou com nenhum agente de trânsito da prefeitura nem orientando os motoristas nem coibindo as infrações.

    O mesmo percurso entre os bairros do Leblon e Copacabana feito de metrô leva 27 minutos, a metade do tempo do périplo de carro. Embarcando na Estação Antero de Quental, com entrada na Ataulfo de Paiva, e saltando na Cardeal Arcoverde, os transeuntes economizam tempo.

    O horário de pico, porém, traz desvantagens: os trens circulam lotados e, por isso, a refrigeração não dá conta. A opção também apresenta empecilhos para pessoas carregando peso, idosos, gestantes e aqueles com dificuldades de locomoção, porque os poucos assentos estão sempre ocupados.

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    “Não tenho dúvidas de que a solução para a questão do trânsito no Rio de Janeiro é a melhoria do transporte público”, afirma Rômulo Orrico, professor do programa de engenharia de transportes da Coppe/UFRJ.

    “Ampliar o serviço não tem um custo exorbitante e reduz os congestionamentos”, explica ele, acrescentando que não adianta investir em obras que aumentem o espaço viário. Assim, o número de veículos nas ruas também cresce.

    “É preciso conscientizar a população e os governantes de que a quantidade de transportes individuais é uma das principais causas do engarrafamento”, afirma.

    Um levantamento divulgado pelo Detran em outubro de 2025 revela que o Rio de Janeiro possui uma frota de 2,1 milhões de automóveis. Considerando a população atual da cidade — 6,7 milhões, segundo o IBGE —, a média é de um carro a cada três pessoas, o que revela a alta dependência do carioca por esse tipo de transporte.

    Em relação às principais capitais brasileiras, apenas São Paulo tem um número maior, com mais de 6 milhões de veículos. Outras metrópoles, como Curitiba e Belo Horizonte, não chegam à marca de 2 milhões.

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    “A opção pelos transportes individuais gera um impacto negativo em toda a dinâmica da cidade”, explica o engenheiro de trânsito Gladyston Ribeiro. “O planejamento urbano não acompanhou o crescimento populacional da capital. Ainda há muitos bairros e comunidades sem transporte público de qualidade e, como as pessoas precisam se deslocar, acabam investindo em carro ou até mesmo em moto para trabalhar, levar os filhos para escola e passear”, diz.

    Com tantos problemas diários no transporte urbano, o número de multas emitidas na cidade é expressivo. Segundo a CET-Rio, de 1º de janeiro a 5 de dezembro de 2025 foram aplicadas 704 penalidades por irregularidades de trânsito na Ataulfo de Paiva, 2 525 na Rua Visconde de Pirajá e 3 391 na Nossa Senhora de Copacabana — um total de 6 620.

    Em relação às invasões de faixas exclusivas, a média mensal no município foi de 42 000 em 2025. Até outubro, houve registro de 640 mortes no trânsito — 83 a menos na comparação com o mesmo período de 2024, apesar do número ainda lamentável.

    O secretário das Cidades do governo do estado, Douglas Ruas, destaca a tecnologia como aliada. “A implantação de câmeras é uma grande saída para melhorar o monitoramento. O poder público pode intervir rapidamente no caso de acidentes e incêndios, por exemplo.”

    O Centro de Operações (COR) da prefeitura afirma que fechará o ano com 5 500 câmeras e radares instalados, mas a fiscalização e a consequente penalização não estão previstas dessa forma nem a curto nem tampouco a longo prazo.

    Procurados por VEJA RIO, o COR e os aplicativos Waze e Google Maps não forneceram o ranking de engarrafamentos na cidade.

    A falta de educação no trânsito é um problema que aparece não só na capital, mas em todo o estado. Agressões verbais e físicas, gestos obscenos, falta de gentileza, uso inadequado e excessivo da buzina, desrespeito à sinalização e outras práticas reprováveis fizeram com que, em 2024, o Rio ocupasse a segunda posição na lista de unidades federativas com motoristas mais grosseiros do Brasil, perdendo apenas para São Paulo, de acordo com estudo da Preply.

    Já os bons exemplos vêm da Região Sul, principalmente de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. “A educação sobre o trânsito deveria começar já na infância, nas escolas, além de ser preciso intensificar as campanhas de conscientização”, afirma o professor Rômulo Orrico.

    “Ensinar e fiscalizar são ações que precisam ser feitas lado a lado e já vimos resultados eficazes. É só observar como o brasileiro aprendeu a usar cinto de segurança e a respeitar a Lei Seca”, enfatiza.

    Embora não pareça haver saída à vista para a questão, outras grandes cidades ao redor do mundo conseguiram resolver, ou ao menos aliviar, o caos no trânsito.

    Em Los Angeles, as faixas de carona solidária recebem por dia mais de 1 300 veículos com no mínimo dois passageiros a bordo em horários de pico.

    Em Londres, o sistema de semáforos inteligentes, aliado às vias exclusivas, ajusta o tempo de duração do sinal vermelho de acordo com a presença dos ônibus.

    Com a implementação do pedágio urbano, Estocolmo conseguiu reduzir em cerca de 20% o fluxo em sua região central.

    Em debate no congresso Rio de Transportes, no início de dezembro, a Linha 3 do MetrôRio, em fase de estudos pela concessionária, foi apontada como uma possibilidade para desafogar o tráfego.

    “Uma solução como esta que liga o Rio a municípios da região metropolitana, como São Gonçalo e Itaboraí, reduziria muito o número de engarrafamentos. Mas é preciso oferecer um deslocamento de massa com qualidade para a população aderir”, diz Douglas Ruas.

    Enquanto a iniciativa não sai do papel, os cariocas seguem aguardando melhorias — muitas vezes, engolidos pelo congestionamento e pacientemente esperando para “sextar”.

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    Apagão: a Guarda Municipal é responsável por fiscalizar infrações, mas VEJA RIO não encontrou nenhum agente ao longo do percurso. (prefeitura do rio de janeiro/Divulgação)

    Trânsito selvagem

    Irregularidades flagradas no trajeto Leblon-Copacabana

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    Furgão na faixa exclusiva de ônibus para descarga de encomendas (./Veja Rio)
    transito caotico na zona sul. Rio de Janeiro RJ. fotos de Daniela Dacorso
    Carros parados em fila dupla (./Veja Rio)
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    Crianças sem capacete transportadas em bicicletas na contramão (./Veja Rio)
    transito caotico na zona sul. Rio de Janeiro RJ. fotos de Daniela Dacorso
    Ciclistas trafegando no meio dos carros sem capacete (./Veja Rio)
    transito caotico na zona sul. Rio de Janeiro RJ. fotos de Daniela Dacorso
    Ciclomotores entre dois ônibus (./Veja Rio)
    transito caotico na zona sul. Rio de Janeiro RJ. fotos de Daniela Dacorso
    Veículo estacionado em frente a garagem de prédio residencial em Copacabana (./Veja Rio)
    transito caotico na zona sul. Rio de Janeiro RJ. fotos de Daniela Dacorso
    Cruzamentos fechados por ônibus e van escolar (./Veja Rio)
    transito caotico na zona sul. Rio de Janeiro RJ. fotos de Daniela Dacorso
    Pedestres atravessando fora da faixa (./Veja Rio)
    Eduardo Paes Crédito Léo Lemos
    Omissão no governo de Eduardo Paes: a Guarda Municipal é responsável por fiscalizar infrações, mas VEJA RIO não encontrou nenhum agente ao longo do percurso (Léo Lemos/Divulgação)
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    (Nathan Mullet /Unsplash/Divulgação)

    Dói no bolso
    O valor das principais infrações registradas no estado em 2024

    1 Velocidade superior a 20% da permitida – 130,16 reais e 4 pontos na CNH

    2 Transitar com o veículo na faixa ou via de trânsito exclusivo – 293,47 reais e 7 pontos na CNH

    3 Velocidade superior a mais de 20% até 50% da permitida – 195,23 reais e 5 pontos na CNH

    4 Desobedecer sinal vermelho ou parada obrigatória – 293,47 reais e 7 pontos na CNH

    5 Não efetuar o registro do veículo conforme previsto – 130,16 reais e 4 pontos na CNH

    Interstate 66 in Arlington, VA
    Bons exemplos: nos Estados Unidos, a criação das faixas de carona solidária ajudou a desatar os nós viários (Kate Patterson/The Washington Post/getty images/Divulgação)
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    Ensinar é preciso: especialistas lembram que campanhas educativas aliadas a multas, como a Operação Lei Seca, são bem-sucedidas (Fernando Frazão agencia Brasil/Divulgação)
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    A saída é a coletividade: é preciso investir em transporte público de qualidade, afirmam o engenheiro de trânsito Gladyston Ribeiro e o professor da Coppe/ UFRJ Rômulo Orrico (Divulgação/Divulgação)

     

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    (Divulgação/Divulgação)

    Na tarde desta sexta-feira (12), a CET-Rio enviou a seguinte nota à VEJA RIO:

    “A Prefeitura do Rio formalizou a adesão da 99, Ifood, Uber e Keeta ao Programa de Monitoramento de Direção Segura, uma iniciativa inédita no país que busca promover mais segurança no trânsito e reduzir comportamentos de risco entre motociclistas que prestam serviços de transporte de passageiros e de entrega na cidade. As plataformas digitais só poderão manter condutores com certidão criminal negativa e motos licenciadas, além de usar telemetria e GPS para detectar velocidade excessiva, manobras perigosas e circulação proibida, entre outras irregularidades. O monitoramento de velocidade deve começar em 45 dias e os demais critérios em 90 dias após assinatura do acordo com a prefeitura.

    As empresas deverão, ainda, criar um sistema de pontuação baseado nos últimos 30 dias, exigindo que cada motociclista tenha pelo menos 60% das viagens sem riscos. Relatórios mensais serão enviados à CET-Rio, e os profissionais poderão ser convocados para cursos de conscientização. Em caso de reincidência, poderão sofrer restrições temporárias nas plataformas.”

    VEJA RIO, então, perguntou em que datas os contratos foram assinados.

    99 Food assinou em 15 de outubro, enquanto iFood se comprometeu em 6 de novembro; Uber em 26 de novembro e, Keeta, em 4 de dezembro.

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