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Vinoteca

Por Marcelo Copello, jornalista e especialista em vinhos Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Marcelo Copello dá dicas sobre vinhos

Por que bebemos vinho? Um mergulho na alma líquida da humanidade

Talvez a humanidade um dia abandone o petróleo ou deixe de comer carne. Mas enquanto houver humanos com alma, haverá vinho.

Por Marcelo Copello Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 14 Maio 2026, 05h00
bebendo vinho
 (shutterstock/Divulgação)
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Desde os primórdios da civilização, quando o homem ainda mal compreendia as estações do ano, ele já cultivava videiras. E antes mesmo de escrever sua própria história, já fermentava uvas. O vinho nasceu com o mundo antigo e se confunde com a própria ideia de cultura. Mas por que bebemos vinho? E por que, uma vez iniciados, quase nunca o deixamos de vez?

Bebemos vinho, antes de tudo, porque queremos sentir algo. Não é por sede. Nem apenas por prazer. O vinho embriaga — mas embriaga diferente. É uma embriaguez que não atordoa, que não anula, mas que expande. O vinho, como disse o poeta romano Horácio, é capaz de libertar verdades que a razão esconde. Ele não apenas aquece o corpo: aquece a linguagem, o riso, a conversa. É um lubrificante da alma.

A psicologia poderia dizer que bebemos vinho para baixar a guarda do superego. A antropologia explicaria que beber em grupo reforça laços sociais. Os epicuristas diriam que é um caminho sensorial para o prazer legítimo. Os poetas? Que é uma forma de eternidade engarrafada.

O vinho não se bebe como se bebe qualquer coisa. Ele exige taça, gesto, tempo, atenção. É um ritual. E rituais são fundamentais para a vida humana: marcam passagens, elevam o cotidiano. Um brinde sela um contrato invisível de cumplicidade.

Antropólogos mostram que toda cultura desenvolveu rituais com bebidas alcoólicas. Mas o vinho, por sua complexidade e simbolismo, ocupa lugar especial. De libações gregas ao sangue de Cristo, ele sempre foi mais que bebida — foi metáfora do sagrado, do sensual, do passageiro.

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Cada taça é um espelho do mundo: da terra, do clima, da história de quem o fez. O vinho nos coloca em contato com o tempo — tanto com o passado (de sua produção) quanto com o presente (da nossa experiência). É uma bebida que exige presença, quase como a meditação exige foco.

E é por isso que não existe ex-bebedor de vinho. Pode-se até parar de beber. Por fé, saúde ou escolha. Mas nunca se abandona o vinho como se abandona um refrigerante. Quem foi iniciado guarda para sempre a lembrança da sensação única de um grande vinho no palato. É uma marca sensorial, emocional e — por que não? — espiritual.

Há quem lembre da avó pelo cheiro de bolo. O enófilo lembra pelo aroma de um Barolo antigo. O vinho é uma bebida com memória. E beber é, muitas vezes, relembrar. Da viagem, do jantar, do beijo, da vitória, do reencontro.

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A psicologia explica que memórias olfativas são das mais duradouras e afetivas. O vinho, por ter milhares de aromas, é um dos grandes veículos de recordações.

Por fim, bebemos vinho porque podemos. Porque queremos experimentar o melhor da vida — e sabemos que o melhor, às vezes, cabe em uma taça. Não se trata de excesso, nem de fuga. É presença. É o luxo da lentidão, do olhar atento, da celebração do agora.

O vinho nos reconcilia com a nossa natureza: cultural, sensível, sensorial. Nos reconecta com os outros e com nós mesmos.

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Talvez a humanidade um dia abandone o petróleo. Talvez deixe de comer carne. Talvez viva em cidades flutuantes. Mas enquanto houver humanos com alma, haverá vinho.

Porque não bebemos vinho apenas para sentir prazer. Bebemos para lembrar que estamos vivos.

 

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