De olho na geração Z, Globo escala ídolos do rap para novelas
Com bilhões de plays nas plataformas digitais e milhões de seguidores nas redes, nomes como Xamã, Cabelinho e L7nnon vêm fazendo sucesso em tramas da emissora

Em Dona de Mim, na faixa das 7 da Globo, L7nnon faz o papel de Ryan, um ex-rapper que enveredou pelo crime e, ao sair da prisão, tenta reconstruir a vida. O carioca fez até uma canção inspirada na trama, Segunda Chance. Antes disso, em 2024, outro astro do rap, Xamã, ganhou elogios no papel do ex-jagunço Damião, no remake de Renascer. No ano anterior, Cabelinho chamou a atenção em Vai na Fé. Em comum, o fato de que os três são cantores que fazem muito sucesso entre o público jovem, com shows esgotados, alcançando bilhões de plays nas plataformas digitais e milhões de seguidores nas redes sociais.
Essa tendência recobrou força nos últimos tempos, assim como a presença de letras e melodias muito além da trilha sonora — o próximo folhetim das 7, Coração Acelerado, será focado no universo da música sertaneja. “A televisão brasileira sempre buscou novidades para seduzir o espectador. Hoje, com a comunicação pulverizada e a audiência diluída, isso é ainda mais importante” analisa Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela Universidade de São Paulo (USP).
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Cantores atuando em novelas não são uma novidade. Mauro Alencar cita Agnaldo Rayol (1938–2024), protagonista de O Caminho das Estrelas (1965), na extinta TV Excelsior, como um dos pioneiros desse movimento. Outro exemplo notório é Fábio Jr., que esteve em produções como Água Viva (1980) — cuja trilha contava com o hit 20 e Poucos Anos — e Pedra Sobre Pedra (1992), na qual fez muito sucesso como o fotógrafo conquistador Jorge Tadeu, entre outras.
“É natural que uma plataforma de mídia se apoie em outra para atrair um público diferente. Isso aconteceu até em Hollywood, nos anos 1950, quando Elvis Presley se tornou astro das telonas”, lembra o coordenador do curso de cinema e audiovisual da ESPM, Pedro Curi. Já na virada para os anos 2000, quando a internet comercial ganhou força, a televisão apostou em seriados que contavam com um lugar, como uma casa de shows, por exemplo, onde aconteciam números musicais, observa Curi, citando produções americanas como Buffy, a Caça-Vampiros (1997) e Charmed (1998).

A música sempre teve grande importância nos folhetins da Globo, especialmente por causa da gravadora Som Livre, braço fonográfico da emissora. Fundada em 1969 pelo produtor musical João Araújo (1935–2013), pai de Cazuza (1958-1990), ela surgiu para criar e vender as trilhas sonoras das novelas. Muitos artistas gravaram músicas especialmente para aberturas de tramas da Vênus Platinada.
Autora de Vai na Fé e Dona de Mim, Rosane Svartman é conhecida por criar histórias que dão relevância à música — a atual, por exemplo, tem um núcleo formado por jovens em busca de oportunidade no estrelato — e garante que, no fim das contas, o que importa é o desempenho de quem está se candidatando a um papel. “Ao assistir a um teste de elenco estou procurando artistas talentosos, mas tento achar alguma coisa dos personagens ali. E, mais do que isso, intérpretes que vão me ajudar a construir essas figuras”, explica ela, que rende elogios aos rappers que enveredaram pela atuação. “Quando vi o teste do Cabelinho, fiquei muito impressionada. E o do L7nnon também. Os dois são multitalentosos”.
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A atual configuração da internet, com seus feeds intermináveis, define a era da economia da atenção, expressão cunhada em 1971 pelo psicólogo e vencedor do Prêmio Nobel Herbert A. Simon. A psicóloga e professora da Universidade da Califórnia Irvine Gloria Mark explica no livro Attention Span (“Capacidade de Atenção”, em tradução livre), de 2023, que o tempo médio de foco para indivíduos olhando para uma única tela caiu de 2,5 minutos em 2004 para uma média de 47 segundos em 2021. O mercado, então, passou a apostar em conteúdos capazes de captar o espectador rapidamente, como vídeos curtos e edição rápida.
Mauro Alencar cita como exemplo da força desse tipo de formato os microdramas chineses, com episódios de 1 minuto, gravados na vertical — mesma estrutura do TikTok e do Reels do Instagram —, setor que movimenta 1 bilhão de dólares ao ano. “A cena da família reunida em frente ao televisor na sala não existe mais. As novas gerações assistem às novelas por cortes postados nas redes”, pontua Alencar. Portanto, a presença de ídolos dos jovens talvez não se reverta em audiência nos velhos moldes, mas, ainda assim, surte efeito. “Os seguidores desses cantores começam a acompanhar a TV indiretamente”, resume Curi. Como dizia o poeta, o show tem que continuar, não importa em qual tela.
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