“Já estava completamente exausto”, diz Burle após acidente em Nazaré
Acostumado com montanhas de água pelo mundo, o surfista revive o dia em que a força do mar o levou ao limite e o deixou frente a frente com seu maior desafio
Veterano absoluto das ondas gigantes e um dos nomes mais respeitados do surf mundial, Carlos Burle viveu um dos episódios mais desafiadores de sua carreira em Nazaré, Portugal, na última quarta (3). Durante um treino de rotina, o brasileiro foi tragado por uma onda gigante com cerca de 30 metros e mergulhou numa sequência impiedosa de três paredões. Submerso por longos segundos, sem espaço para respirar, Burle enfrentou aquele que descreve como um dos momentos mais críticos de sua carreira.
Quando finalmente emergiu, foi resgatado e levado para a areia, onde recebeu atendimento imediato. Apesar do susto monumental e do extremo desgaste físico, o “mestre” ó como é chamado por Lucas Chumbo e Lucas Fink, que atuaram no resgate ó, não sofreu sequelas. Ainda recuperando o fôlego, Burle conversou com VEJA Rio e relembrou cada detalhe da provação. “Foi o pior caldo que eu já tomei na minha vida”, contou.
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A HORA DO RESGATE
“Naquele dia, eu estava confiante e queria fazer umas imagens com a GoPro. Depois percebi que, por estar segurando a câmera com as duas mãos para não perder, vi que ela me atrapalhou na agilidade em puxar o colete de emergência e de alcançar a alça daquela prancha que fica atrás do jet ski, que serve de resgate. Na primeira onda, eu caí e levei o primeiro caldo, mas a segunda conseguiu ser pior. Foi muito tempo debaixo d’água. Só na terceira onda que eu e o Chumbo conseguimos nos conectar. Ele me pega e aí ele pergunta: “Tá bem, mestre?”. Eu respondo: “Tô não”. O Chumbo ainda perdeu o controle do jet ski, porque o meu corpo desequilibrava a direção, e realmente foi um momento dramático, porque eu já estava completamente exausto.”
DE VOLTA À SUPERFÍCIE
“O equipamento de segurança deu certo e permitiu que eu flutuasse. Mas a pressão da roupa de borracha espremeu muito o meu pulmão, principalmente quando junta com a profundidade que fui. Não conseguia respirar. As pancadas, a velocidade e a força da onda me tiraram um pouco do meu centro. Eu fiquei consciente durante todo o processo, mas com pouquíssima energia. Tudo que passava na minha cabeça era que eu precisava sobreviver. Eu estava desorientado e só queria chegar na areia. Foi o pior caldo que eu já tomei na minha vida.”
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O MAIOR MEDO
“Quando eu vou pegar uma onda eu sei que vou me expor. Esse medo não é controlável, mas ele serve como estímulo para você melhorar os reflexos, trazer mais atenção para o momento, porque é um mecanismo que o corpo precisa para se proteger. Eu, naquele segundo, estava indo para mais uma grande onda na minha vida. Não sabia que ia ser diferente, não sabia que ia ficar debaixo d’água um tempão. Era apenas mais uma onda, mais um dia de trabalho e treino. Eu estava confiante na minha habilidade, na minha prancha e na minha equipe. Isso me fez escolher um método mais radical do que eu deveria e eu aprendi.”
DAQUI PARA A FRENTE
“Eu não tenho mais esse ritmo deles (Lucas Chumbo, Lucas Fink e Will Santana), eu já tenho uma idade. Não tenho esse vigor físico e os reflexos tão apurados quanto os deles, mas eu tenho muita experiência e aquele é meu habitat. Parece que é loucura o que a gente faz, mas não é só pela adrenalina, é muito pelo aprendizado. Quanto mais perto da morte, eu me sinto mais vivo, né? Eu tenho mais gratidão por estar vivo. E eu vou ter que voltar lá e checar como está meu trauma. Não posso morrer com um trauma desse, tenho que reescrever essa história. A relação com o mar é muito intensa. É uma paixão muito grande, uma gratidão muito grande. Eu não mereço ficar traumatizado e nem quero. Ainda vou voltar a Nazaré.”
Em depoimento a Angela Cardoso





