Gabriel O Pensador: “Continuo querendo mudar o mundo”
Um dos primeiros rappers cariocas celebra 33 anos de carreira com show acústico na Fundição Progresso e revisita a própria trajetória
Em Profecia, faixa do álbum Antídoto Pra Todo Tipo de Veneno, lançado em 2023, Gabriel O Pensador canta: “Olha onde o rap chegou; eu moleque já falei que chegaria”. Se quase não havia referências no Rio na época em que o adolescente de São Conrado começou a rimar, agora o gênero é imbatível — no ano passado, oito dos dez artistas mais ouvidos no Spotify por aqui eram do nicho. “Até hoje quando eu faço rap o meu braço arrepia; trinta anos não são trinta dias”, segue ele na letra, que resume uma história de mais de três décadas, a ser celebrada na quarta (3) num show com mais de dez convidados, incluindo Mano Brown, Lulu Santos, Xamã, MV Bill e Cidade Negra.
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A noite na Fundição Progresso dará origem a um audiovisual e consagra o bom momento do cantor de 51 anos, que tem no currículo nove discos e levou o primeiro Grammy Latino em 2024 por Cachimbo da Paz 2, continuação do clássico dos anos 1990. Às vésperas do casamento com a produtora Gabriela Vicente, de 25 anos, ele conversou com VEJA RIO de Garopaba, litoral de Santa Catarina, terra da amada, sobre cultura do cancelamento e paternidade — não só dos filhos de 23 e 20 anos, mas também de uma nova geração que vem descobrindo o seu trabalho.
Por que optou pelo formato acústico? Para abrir a possibilidade de novos arranjos e harmonias. Mas não é com a gente sentadinho; tem energia. Nunca consegui aprender a dançar e, no palco, é onde consigo chegar mais perto disso (risos). Os convidados são nomes que admiro como figuras públicas. Tem muito artista fabricado que eu não chamaria, por mais bombado que fosse.
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De que forma tentou se reinventar sem perder a essência? É tudo espontâneo. A pandemia foi bastante difícil, perdi meu pai e tive pela primeira vez dores no peito de ansiedade. Escrever sempre me ajudou — faço como um desabafo e algumas coisas nem chegam ao público. Agora estou vivendo o ápice de uma fase boa, marcada por novas parcerias, turnês comemorativas, lançamentos e o Grammy no ano passado.
Gosta de ser visto como “pai” por uma nova geração? Isso surgiu no TikTok, acho que é um gesto de carinho (risos). Vejo crianças e adolescentes cantando minhas letras dos anos 1990 que conheceram através de um professor ou porque a mãe costumava ouvir quando eles estavam na barriga. Isso é muito significativo.
Você se dá bem com as redes sociais? Ainda nem tinha Facebook e escrevi “Essa vida de internauta me cansa” na canção Astronauta. Foi visionário. Claro que é uma ferramenta de contato e sou atento a isso, sempre respondi carta de fã. Mas tem um lado podre, tudo é falso. Todo mundo quer ensinar e ninguém quer aprender. Prefiro o papo ao vivo e a cores.
Tem medo da cultura do cancelamento? Não. Se querem ter um olhar raso, não adianta se esforçar para explicar. O importante é ter uma estrutura forte, ficar acima da polarização. Ao mesmo tempo, uma letra pode ter uma infinidade de interpretações e tocar as pessoas de uma maneira que nunca imaginei compondo.
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Já pensou em rever alguma delas, como aconteceu com Toni Garrido? Fiz uma correção sutil, mas que fez muita diferença, em Cachimbo da Paz: troquei a palavra travesti por trans. Também fui desafiado em uma campanha a rever Lôrabúrra, mas já não a cantava nos shows porque aquela postura agressiva tinha me cansado. Quando lancei, foi para que as meninas não quisessem estar naquele papel objetificado. O choque funcionou na época, não tinha o politicamente correto. Sou contra a massificação do pensamento — e essa música tinha a função de alertar sobre isso.
Você já cantou o Rio com amor e indignação. Como é sua relação com a cidade hoje? Em Bossa 9, tenho um papo com Tom e Vinícius: “Se eu declamo e se eu reclamo é porque eu amo isso aqui”. Lamento a violência, mas também falo das coisas boas. Esse não é um problema só do Rio, o mundo está difícil. As pessoas estão cheias de ódio e a vida vale cada vez menos.
Quando começou, as referências do rap vinham de São Paulo, como os Racionais MC’s. Como foi a entrada neste círculo? Conheci o hip hop aos 10 anos e brincava de rimar com os amigos da escola. Aos 16, descobri os Racionais e vi que tinha um rap de qualidade sendo feito no Brasil também. Fui bem recebido, não tinha barreira de classe social. Mano Brown lembrou esses dias da primeira vez que me viu cantando e me achou corajoso.
Em que momento sentiu que o Gabriel O Pensador estava maior do que você mesmo? Eu que me autodeclamei O Pensador — não era nem “um” pensador (risos). Era tímido, mas na hora de protestar passava por cima disso. Meu trabalho é muito pessoal, apesar desse pseudônimo ousado para um adolescente. Não faço distinção: sempre fui eu, Gabriel.
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Você expõe bastante do seu pensamento, mas pouco da sua vida íntima… Nem tanto. Tenho amigos artistas que são realmente reservados. Eu só não estou envolvido em polêmicas.
Como tratou com seus filhos de assuntos como maconha, tão explorados nas suas criações? Foi uma relação parecida com a que eu tive, bem aberta. Meus pais se separaram quando eu tinha 6 meses, mas eram muito do diálogo. Cresci solto e corri sérios riscos no Rio dos anos 1990. Eles nunca foram autoritários, tanto que eu e meu irmão Tiago Mocotó enveredamos pela música.
Hoje se vê mais leve, cético ou mais inquieto do que já foi? Fiquei mais leve com a idade. Por outro lado, sou pai e quero ter mais filhos — além de ter essa galera mais nova conhecendo o meu trabalho — então continuo querendo mudar o mundo. Não posso ser cético, preciso acreditar no valor da palavra e que as coisas vão melhorar.
Acha que ainda teremos que matar presidentes? Temos que aprender a lutar através da paz, como falo em Matei o Presidente 2. Descobrir um caminho sem manipulação — não só política, mas desse sistema que envolve algoritmos, inteligência artificial e as ameaças de hoje. Minhas letras são um protesto e têm a intenção de abrir o olhar e gerar reflexão.





