Delegada Gabriela Von Beauvais: “Controle não é cuidado”
A Diretora do Departamento Geral de Atendimento à Mulher fala sobre os sinais de alerta nos relacionamentos e os desafios para romper o ciclo de agressões
No fim do ano passado, a prisão de um homem acusado de perseguir a atriz Isis Valverde por mais de duas décadas trouxe novamente à tona o debate sobre o stalking. A prática está enquadrada na violência psicológica — hoje a ocorrência mais registrada nas Delegacias de Atendimento à Mulher do Estado, voltadas ao atendimento, prevenção e investigação de crimes de gênero.
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À frente das dezesseis unidades fluminenses, Gabriela Von Beauvais assumiu, em setembro de 2024, a direção do Departamento Geral de Polícia de Atendimento à Mulher. Antes disso, foi delegada titular em Campo Grande, na Zona Oeste, e no Centro. Pós-graduanda em Gênero e Direito pela Emerj e mestranda em Ciências Sociais na Uerj, ela ocupa o cargo pela terceira vez. Em entrevista a VEJA RIO às vésperas do Dia da Mulher, a delegada analisa o perfil de vítimas e agressores e detalha os avanços — e os desafios — do Rio no enfrentamento à violência de gênero.
Qual é hoje a principal ocorrência contra as mulheres? Há quinze anos, quando era titular da Deam de Campo Grande, a maioria dos registros era de violência corporal. Desde 2021, o Instituto de Segurança Pública mostrou que a psicológica, com ameaças, se tornou a mais recorrente no Rio.
Isso indica que as vítimas estão denunciando mais? Exato. É claro que já acontecia antes, mas não havia visibilidade. As mulheres estão mais conscientes dos seus direitos — e a divulgação na mídia ajuda muito. É comum recebermos vítimas que tomaram coragem de denunciar depois de se identificar com o personagem de uma novela, por exemplo. Por isso, é importante aproveitarmos datas simbólicas, como o Dia da Mulher, para reforçar o trabalho, tanto preventivo como repressivo.
Existe um perfil predominante das vítimas e dos agressores? A maior parte dos criminosos está no relacionamento íntimo e os episódios de agressão quase sempre são dentro de casa. A violência contra a mulher é democrática e atinge todas as classes, raças, idades, religiões e regiões — mas percebemos uma frequência maior na faixa etária de 30 a 59 anos e em negras da periferia.
Qual sinal de alerta não deve ser ignorado em um relacionamento? Quando o parceiro começa a cercear o seu direito. Reclama de um decote, diz que não precisa sair com as amigas agora que está namorando, pede para ver as mensagens no telefone… Muitas adolescentes caem nessas “demonstrações de amor”, acham que isso é preocupação. Outro ponto de atenção é a tentativa de controle do dinheiro. Isso não é ajuda ou cuidado. Já é o início de uma violência patrimonial.
O que impede uma denúncia? A junção de medo do acusado, dependência financeira e descrença nas instituições. A repreensão social e a relação com os filhos também pesam. É muito difícil romper, especialmente se vem de alguém que você ama e confia. Mas uma mudança significativa é que, antes, as vítimas só faziam o registro após anos sofrendo. Agora, elas já procuram ajuda numa primeira agressão.
Qual foi o caso mais impactante com o qual já lidou? Foi em Campo Grande. Uma menina violentada pelo avô tinha medo de que isso acontecesse com a irmã mais nova e decidiu falar. Chamamos a mãe, que veio com as duas tias da vítima. Quando começou o relato, todas caíram em prantos, pois o mesmo tinha acontecido com elas e uma nunca havia contado para a outra. O homem foi preso e conseguimos romper o ciclo de violência.
Como as equipes são treinadas para não haver revitimização? É importante lembrar que as queixas podem ser feitas em qualquer delegacia. Por isso, na grade curricular de todos os policiais, inclusive homens, há uma capacitação em violência doméstica. Nas Deams, aperfeiçoamos um atendimento mais personalizado, com escuta acolhedora. Quando alguém se encoraja a colocar um basta, precisa ter todo o amparo estatal para seguir com a denúncia.
Há alguma garantia de segurança? Se houver situação iminente de perigo, é possível ir para um abrigo. O local é totalmente sigiloso — eu mesma não sei o endereço.
Como os diferentes órgãos que atuam na proteção da mulher se comunicam? Temos uma rede muito integrada: a Polícia Civil, com as Deams, conversa com a Polícia Militar, com a Patrulha Maria da Penha. Muitas vezes, no deferimento da medida protetiva, o juiz, além de comunicar à delegacia, aciona a patrulha para fazer o acompanhamento. Temos uma reunião mensal que engloba as secretarias estaduais da Mulher, de Saúde, de Educação e de Comunicação. Além disso, lançamos o aplicativo Rede Mulher, com um botão de pânico onde é possível acionar socorro com apenas um clique, mediante cadastro prévio.
Como é ser uma mulher em posição de comando? Estou numa instituição predominantemente masculina e isso exige superar alguns obstáculos. Uma vez, tive que fazer um recadastramento do servidor público e a atendente não achava meu nome, pois estava procurando na lista de professores. Vivemos em uma sociedade que por muito tempo disse que nós não podíamos ser policiais, então conclamo a entrada de mais peritas, inspetoras e delegadas. Aos poucos, estamos conquistando o nosso espaço.
Que políticas ou ações voltadas aos homens poderiam ajudar na prevenção? Educação emocional, desde as escolas até os exemplos em casa. Tanto com os meninos, quanto com as meninas. Eles, para saberem que ninguém é propriedade de ninguém. Elas, para não admitirem qualquer tipo de agressão. Em nenhum momento estou sugerindo ficarmos uns contra os outros — ainda que o protagonismo seja nosso, temos certeza de que só ganharemos a luta com os homens ao nosso lado. Uma das nossas maiores missões é garantir que as gerações futuras possam viver sem esses crimes.





