Histórica! Laísa Lima é a primeira mestra de bateria da Sapucaí
Filha do lendário Laíla, a jovem rompe uma tradição masculina e recebe elogios dos colegas
Em 2025, quando o Arranco do Engenho de Dentro cruzou a Marquês de Sapucaí com o enredo Mães Que Alimentam o Sagrado, o público que assistia aos desfiles da Série Ouro foi impactado por uma história conduzida por mãos femininas.
O enredo havia sido criado por Annik Salmon, única mulher entre todos os carnavalescos que competiram na Avenida no ano passado.
Não por acaso, o Arranco se consolidou como uma agremiação na qual mulheres ocupam espaços de decisão, da presidência à criação artística.
Esse caminho ganha um novo e decisivo capítulo no ciclo de 2026. Pela primeira vez na história da Marquês de Sapucaí, uma escola terá uma mulher no comando de uma bateria.
Ao assumir o posto mais simbólico do ritmo, Laísa Lima inscreve seu nome no solo sagrado dos sambistas.
Filha do lendário mestre Laíla (1943–2021), ela também é diretora de bateria da Beija-Flor, agremiação em que seu pai fez história como um dedicado diretor de Carnaval, chegando até a virar enredo.
“O samba me fez e me faz acontecer”, resume a jovem de 26 anos, ciente de que rompe barreiras num universo dominado por homens.
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A trajetória de Laísa no samba começou ainda na infância. Nascida e criada em Nilópolis, numa família profundamente ligada à Beija-Flor, ela se desenvolveu entre o batuque e a disciplina de quem dá a vida e investe os sonhos na folia.
Aos 16, já era diretora de tamborim da Azul e Branca da Baixada. A primeira grande influência veio da avó materna, figura central em sua formação afetiva e cultural.
Já o pai, atento às armadilhas da vaidade que cerca o Carnaval, impôs um caminho paralelo.
“Por conhecer profundamente esse meio, ele sempre se preocupou muito e exigiu que eu estudasse”, conta ela, formada em administração e prestes a cursar uma pós-graduação em marketing.
Laísa só ganhou liberdade para escolher o próprio destino depois de cumprir o pacto familiar. “Se eu tirasse nota baixa no colégio, meu castigo era ficar fora do samba”, relembra.
Ela passou por Vigário Geral, Paraíso do Tuiuti, Vila Isabel e Unidos da Ponte até se consolidar no Arranco, conhecendo a engrenagem de uma bateria por dentro e orquestrando cerca de duzentos ritmistas.
O Arranco vai levar à Passarela do Samba a história de Maria Eliza Alves dos Reis, pioneira entre as palhaças negras do Brasil.
A proposta celebra a irreverência e a representatividade no picadeiro, em diálogo com o momento da escola, em que mulheres ocupam espaços historicamente negados a elas.
Laísa sabe que o preconceito ainda existe, mas o gesto da agremiação do Engenho de Dentro aponta para uma Avenida em transformação.
“A presença dela nesse posto mostra que a mulher pode estar onde ela quiser. Isso sem falar nas paradinhas sensacionais dessa bateria”, analisa Belinha Delfim, passista e musa da Unidos do Viradouro.
Na cadência do surdo, no corte preciso da caixa e no gesto firme do comando, o Arranco anuncia não só um novo ciclo, mas um momento em que tradição e futuro caminham juntos, afinados no mesmo compasso.
E quando a bateria responde, a própria Sapucaí reconhece: o samba também se reinventa pelas mãos e ouvidos de quem, por muito tempo, esteve à margem do poder, mas nunca fora do ritmo.
No mesmo compasso
As avaliações de três colegas de função
“Laísa está no lugar em que merece estar. Parabéns ao Arranco. Que bom que estou vivo para assistir a história se desenrolar na minha frente”, Casagrande, mestre de bateria da Unidos da Tijuca, vencedor do Estandarte de Ouro e dono de notas dez de todos os jurados por treze anos
“Para mim, é gratificante ver esse reconhecimento. Ela tem um grande mestre de vida, o pai dela, e vem fazendo um trabalho de qualidade, que abrirá muitas portas”, Macaco Branco, mestre de bateria da Vila Isabel e vencedor do Estandarte de Ouro
“Fico imensamente feliz com a conquista dela e estarei na Avenida aplaudindo essa bateria histórica e o enredo que transforma alegria em potência no Carnaval”, Mestre Ciça, que além de mestre de bateria da Viradouro inspira o enredo da agremiação de Niterói





