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Lázaro Ramos: “Ela inaugurou um sonho”

Autor de dez livros, o ator e diretor está de volta à Globo, lança a biografia sobre Ruth de Souza e reflete sobre a representatividade negra na arte brasileira

Por Renata Magalhães
29 ago 2025, 09h16 • Atualizado em 29 ago 2025, 09h21
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Lázaro Ramos: “Eles sabem que sou inquieto, gosto de criar junto, e foi esse Lázaro que convidaram a voltar para a Globo” (Rafael Reis/Divulgação)
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  • Conhecida por suas palmeiras imperiais, uma famosa via carioca foi aberta em 1864 para ligar o atual Palácio Guanabara até a Praia do Flamengo. Mais de um século depois, morou por lá uma artista que revolucionou a arte e os costumes ao ser a primeira negra a atuar no Theatro Municipal. Com uma trajetória digna de ficção, Ruth de Souza (1921-2019) ganha a biografia A Rainha da Rua Paissandu (Editora Intrínseca), que chega às livrarias na terça (2) assinada por Lázaro Ramos.

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    O ator, apresentador, diretor e escritor baiano ó com trinta longas, quarenta peças e dez livros no currículo ó passou vários domingos junto à dama da dramaturgia, ouvindo as memórias que aparecem costuradas pela história do Brasil ao longo de 96 anos bem vividos. Em conversa com VEJA RIO, na companhia da cachorrinha Aurora, logo depois de voltar da Festa Literária Internacional do Pelourinho, o autor do best-seller Na Minha Pele falou sobre representatividade, contou porque voltou para a Globo, confidenciou segredos de seu casamento com Taís Araújo e celebrou a relação com o Rio, cidade que escolheu para viver.

    Para além de toda a importância como artista, quem foi a Dona Ruth que você conheceu? Uma perfeccionista, que sempre tentava melhorar. Vivia como se estivesse em um filme, com seu jeito de se comportar e a postura quando recebia alguém em casa. Tinha alma de atriz, completamente apaixonada por cinema desde a infância. Percebi que ela queria ser vista pelo mundo dessa forma, como se fosse parte de uma ficção. Isso ajudou a criar a linguagem do livro.

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    Quando vocês se conheceram? Em 1998, quando meu grupo de teatro veio fazer uma peça no Rio. Ela foi assistir e nos encontrou no camarim. Lembro que ficamos calados, ouvindo-a por um bom tempo. Depois, nos reencontramos quando eu já morava aqui. Dei uma festa nos meus 30 anos e convidei trinta ídolos para um café da manhã ó também estiveram presentes Zezé Motta, Léa Garcia, Antônio Pitanga e Milton Gonçalves. Tenho tudo gravado em fitas mini DV.

    Como eram os domingos que passavam juntos? Não tinha regra. Às vezes, Dona Ruth contava a mesma coisa mais de uma vez. C Alguns nomes ela esquecia, outros trocava; então tive um trabalho de pesquisa para organizar tudo. Esses encontros foram inspirados em algo que ela mesma inventou: há anos convidava atrizes para ver filmes antigos e conversar. Era um jeito de passar seu legado e, ao mesmo tempo, ter companhia. Quando virei seu ghost writer, propus fazermos algo parecido, já que eu não era convidado para os encontros das amigas (risos).

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    Qual história mais emocionante ouviu? Tudo o que ela conta sobre o Teatro Experimental Negro mexeu muito comigo. Aquele pioneirismo, que nasce da falta de uma referência. Foi marcante também conhecer a sua relação conflituosa com Abdias Nascimento e entender que nossos ídolos não estão num pedestal. Muita coisa ela pediu que depois fosse retirada, outras contava pedindo que ficassem só na nossa intimidade.

    Você se sente responsável por resgatar essas histórias? É um processo natural que nós, atores negros, recebamos essa missão. Há uma convocação em servir para que a sociedade reflita sobre as suas feridas. Dona Ruth participa de um marco na cultura brasileira, em um momento sem presença racial alguma. Ela inaugurou e realizou um sonho, e hoje nós colhemos os frutos disso. Estamos agora com maior protagonismo, mas tudo começou em uma terra arrasada e é importante lembrar disso.

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    O que muda do Lázaro de Na Minha Pele para o de agora, que lançou em março a continuação da obra, Na Nossa Pele? O novo livro é mais emotivo, tem uma entrega maior da minha subjetividade. Compartilhei alguns assuntos que passei a entender melhor, como saúde mental e a relação com a minha mãe, até então algo nublado. Algumas questões sobre a formação da identidade e da luta antirracista, que eram certezas no primeiro, também foram atualizadas.

    Para uma pessoa discreta, que nunca se envolve em polêmicas na mídia, como é abrir assuntos tão íntimos? Apavorante. Tive medo de que isso virasse um fetiche da dor. Mas descobri que Na Nossa Pele é mais sobre cura do que sobre dor. O primeiro capítulo é duro e emotivo, é difícil de ser lido, mas vou curando os leitores aos pouquinhos.

    Dessas relações familiares, o que você reproduz e o que rejeita na educação dos seus filhos? Trago o desejo de leveza que minha mãe tinha, acho que por todo o sofrimento que viveu. Do meu pai, o exemplo silencioso da bondade mesmo quando ninguém está olhando. Meu alerta é não criar meus filhos em cima das experiências dolorosas que tive, pois a vida deles vai ser diferente. Não quero que meus traumas me guiem.

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    Qual o segredo para um casamento longevo? A gente ri e conversa muito. Taís faz questão de alguns rituais, como a noite em que saímos só nós dois. Ao mesmo tempo, temos nossa individualidade e saímos com os amigos separadamente. Estamos sempre nos olhando e percebendo as mudanças um no outro, afinal não me relaciono com a pessoa que conheci há mais de duas décadas.

    Por que decidiu voltar para a Globo? Vi mudanças, no conteúdo e na presença de pessoas. Eles sabem que sou inquieto, gosto de criar junto, e foi esse Lázaro que convidaram a voltar para a emissora. Quando saí, estava com desejo de dirigir mais e naquele momento não existia esse espaço. Desde então, consegui me aprimorar e o profissional que me tornei é o que volta hoje para a TV. Dona Ruth é a Rainha da Paissandu, rua próxima de onde você mora.

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    Qual a sua relação com o bairro? Na primeira vez que vim ao Rio, aos 12 anos, passei pelo Aterro do Flamengo e falei para o meu pai: “Deve ser incrível morar aqui”. Olha como são as coisas… Essa é a minha área ó e olha que já morei em 46 casas desde que cheguei, da Pavuna ao Leblon. Achava que minha carreira daria errado e ficaria pingando de lugar em lugar. Hoje sou mais caseiro, saio mesmo para comer. Do angu do Kasa 123, em Vila Isabel, aos tapas no Isca, na Glória, desbravar restaurantes é o que mais gosto de fazer.

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