“Não tenho certezas”, diz Maria Ribeiro
A atriz e escritora acaba de lançar seu novo livro, tem projetos para estrear no cinema, no teatro e na TV, e faz planos de voltar a trabalhar com Anitta
No dia seguinte em que voltou da Festa Literária de Paraty, onde havia lançado seu quinto livro, Maria Ribeiro descobriu ter sido a autora mais vendida da Editora Record. Um feito e tanto para alguém que até recentemente tinha pudores em se dizer escritora. Não Sei Se é Bom, Mas é Teu reúne crônicas que exploram temas como maternidade, envelhecimento, feminismo e política ó muitas delas escritas para VEJA RIO, nos anos em que foi colunista da revista.
+ Paulo Ricardo: “Envelhecer é um pé no saco”
O lado atriz também vai de vento em popa: ela vai estrelar a versão brasileira da incensada peça do francês Florian Zeller, O Filho; estará na segunda temporada da série Amor da Minha Vida, com Bruna Marquezine; e ainda lançará o filme distópico Resta Um, de Fernando Ceylão. De seu apartamento na Gávea, a jornalista de formação, que já integrou o time de apresentadoras do Saia Justa no GNT, explicou não ter mais necessidade de separar os papéis profissionais, falou da proximidade dos 50 anos e da amizade com a cantora Anitta, com quem tem várias ideias de projetos.
Por que esse é o primeiro livro que você lança considerando-se uma escritora? Comecei a escrever quase pedindo licença. Em 2016, fui chamada para o Você é o Que Lê, projeto com o Gregorio Duvivier e o Xico Sá, e me senti confortável. Na pandemia, não podia atuar, então decidi me jogar na escrita. Até que sou assaltada e, com uma arma na barriga, imploro para que ele deixe os meus cadernos e o meu computador, dizendo, pela primeira vez, que era escritora. Ele levou tudo, mas me deu isso de presente.
Muitas crônicas vieram de veículos jornalísticos. Há algum texto inédito? Dois nunca foram publicados, mas reescrevi todos os outros. Precisava atualizar o que penso. No início, questionava o feminismo, mesmo sendo uma feminista, e dizia coisas como “cromossomo Y”, o que não faz sentido hoje. Também tinha uma necessidade de mostrar que era mais do que uma “atriz que escreve” e abusava de um pretérito mais-que-perfeito. Tento agora fazer o meu texto totalmente acessível, sem deixar de ser quem eu sou.
+ Para receber VEJA Rio em casa, clique aqui
Você muda de opinião com facilidade? Tenho cidadania francesa e, lá, discutir é algo prazeroso, enquanto aqui temos a N ideia de que discordar é feio. As pessoas são sempre gentis e falam mal quando viram as costas. Na orelha do livro, o Alexandre Machado (escritor e roteirista) diz que “levanto bandeiras sem vento”. Sou a primeira crítica de mim mesma porque não tenho certezas.
Mas temas como o feminismo lhe são caros… Sim, mas as feministas que admiro são as que falam palavrão, usam batom vermelho e se sacaneiam, assim como eu. Rio de mim mesma. Não sou Ph.D. em feminismo, sou cagada, erro e falo besteira. Não tenho a sisudez e a assepsia do ativismo, não acho que isso aproxima as pessoas. Admiro mulheres como Preta Gil e Leila Diniz, além de ter aprendido muito com a Heloísa Teixeira.
Ainda busca separar os papéis de atriz e escritora? Muita gente atua e escreve, mas comigo rola uma síndrome da impostora. A capa do novo livro, por exemplo, tem uma pegada pop e fiquei me questionando se seria elegante. Uma bobeira! Não adianta acreditar na democratização da leitura se faço uma capa sóbria, que só vai atrair a galera da Livraria Argumento de Higienópolis. Quero ser lida por quem viu no aeroporto e gostou, não importa se por causa da estética, do prefácio da Anitta ou porque me viu numa novela.
Com o número de leitores caindo, qual o seu conselho para quem quer retomar ou criar esse hábito? Estou com imensa dificuldade de ler, por isso escuto audiolivros. Tento planejar férias com lugares sem internet para poder me dedicar à leitura. No dia a dia, leio logo que acordo, justamente para não ir direto para o celular — antes de deixar as notícias do mundo me afetarem, porque eu sou vulnerável. É quando gosto de escrever também. Meus filhos já sabem que até meio-dia é para me deixar quieta.
+ Alice Wegmann: “São muitos julgamentos”
Anitta, que virou sua grande amiga, assina o prefácio. O que vocês têm em comum? Fui chamada para fazer um perfil e demos um match louco, tanto que ela me convidou para roteirizar o documentário Larissa: O Outro Lado de Anitta. A gente se apaixona pelos amigos da mesma forma que amorosamente, não dá para explicar o porquê. Procuro pessoas com pontos de vista diferentes, e Anitta é inteligente e aberta para o novo. Uma vez, ela falou que se irritava com a minha mania de achar tudo bonito porque tinha perdido isso. Temos muita vontade de trabalhar juntas de novo.
A proximidade dos 50 anos trouxe mais segurança? Não parece, mas sou muito insegura. Sempre duvido de mim. Ser mulher é isso, parece que nada do que a gente faz está certo. Mas gosto de falar do que estou vivendo porque pode ser um serviço para duas ou três pessoas. Minha bunda caiu, passei a ter insônia, o colágeno diminuiu, perdi várias calças porque meu quadril mudou com a menopausa. Tem muitos lutos. Por outro lado, já entendi que não vou agradar a todo mundo, e está tudo bem.
Como é sua relação com o Rio? Tem uma crônica chamada Eu e Ele, todo mundo acha que é sobre um casal, mas é sobre mim e a cidade. Amo São Paulo, mas aqui a gente é feliz com menos grana, não tem essa pilha tão grande de “vencer na vida”. Gosto do verde e vou ao Jardim Botânico uma vez por semana. Sou urbana, mas vejo meu futuro no meio do mato, olhando passarinhos e nomeando as árvores.
Já sabe qual será o próximo livro? Vou lançar meu primeiro romance no ano que vem, chama-se Ilha Grande, que vem da minha ligação com o mar. Sempre fui próxima dos homens da minha família, mas na obra resgato a memória da minha tia paterna, que suicidou aos 28 anos deixando três filhos. Conto a história desses dois irmãos, mas através da ficção — primeiro para proteger os envolvidos, mas também porque estou cansada de falar só de mim e das coisas que vivi. Criando personagens, ganhei mais liberdade.





