“O Carnaval está mais moralista”, diz Ney Matogrosso
Aos 84 anos, Ney Matogrosso aceita pela primeira vez uma homenagem na Avenida e fala sem freio sobre corpo, liberdade, censura, família e filhos
“Bota pra ferver / Que o dia vai nascer feliz na Leopoldina”. O refrão final do samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense tem cacife para contagiar as arquibancadas e os camarotes da Marquês de Sapucaí no
domingo (15). Batizado de Camaleônico, o desfile celebra a vida, a obra e a liberdade de Ney Matogrosso, que, pela primeira vez, aceitou um convite para ser homenageado no Carnaval.
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O cantor de 84 anos está entusiasmado —especialmente com a presença de corpos nus, garantida pelo carnavalesco Leandro Vieira após questionamentos o artista nascido em Padre Miguel, que fez questão de visitar o barracão e participar dos ensaios de rua.
“Eu não sei por que essa coisa agora contra o corpo humano”, reclamou ele em entrevista para VEJA RIO, realizada quando apresentou o show Bloco na Rua no Vivo Rio. Poucos dias antes, no mesmo palco, ele recebeu a bateria da agremiação e a rainha Iza para uma apresentação contagiante, mostrando que disposição não faltará nos dias de folia
Você sempre recusou esse tipo de homenagem. Por que agora concordou? Vários carnavalescos me procuraram com esse convite desde a década de 1970. Este ano, resolvi dizer “sim”. Vivo uma fase da vida em que estou aceitando mais as coisas, mas não saberia dizer o motivo dessa disponibilidade. Agora que concordei, vou até o fim com tudo o que precisa ser feito.
Acredita que o Carnaval deu uma “encaretada”? Antigamente, a gente via várias mulheres com o peito de fora. Tínhamos a Globeleza completamente nua no horário nobre. Agora o Carnaval está mais moralista, não sei por que essa coisa contra o corpo humano. Conversei com o Leandro (Vieira, carnavalesco) e, pelo que estou vendo, ele pretende corrigir isso no desfile.
O que mais te chamou atenção no trabalho no barracão? É uma grandiosidade impressionante. Na primeira vez que fui, não tinha nada; na segunda, muita coisa já começada; na terceira, tudo praticamente pronto em uma velocidade assombrosa. O Leandro cria cada uma das fantasias, e em todo desenho eu sabia exata mente qual música ele estava fazendo referência. É muito bacana ver as coisas sob o ponto de vista dele.
Como foi acompanhar os ensaios de rua? Só recebi vibrações positivas. O Leandro me levava e me largava por lá; quando eu estava soltinho, ele voltava para me buscar. “Poxa, agora que estou gostando?”, reclamava. Foi muito bom ver desde as criancinhas até os velhos sambando. O Carnaval é realmente uma festa do Brasil.
O seu amor pela folia vem desde cedo? Fui criado no subúrbio do Rio. Cresci com essa proximidade das favelas e das escolas, apesar de nunca ter participado efetivamente. Quando era pequeno, a Unidos de Padre Miguel ainda era um bloco e eu, criança, via aquela multidão e ficava fascinado com a música regendo tudo.
Ver sua história representada, seja na Avenida ou no longa Homem com H, te fez descobrir alguma coisa sobre si mesmo? Não, eles que descobriram sobre mim. Nunca tive censura. Quando estávamos fazendo o filme, falei para o Esmir (Filho, diretor) que só poderia haver verdade ali. Não aceitaria nada que fosse chapa-branca. Só tem uma cena que ganhou alguns enfeites, mas entendo que ele também tem uma margem de liberdade poética.
Você narrou a série O Menino que Engoliu o Sol, do Sesc TV, e sua história virou livro infantil. Como é sua relação com esse público? Tenho observado o crescimento do número de crianças e adolescentes nos meus shows. Eles me esperam ao final, querem conversar e cantar para mim. Uma vez, quatro menininhas me perguntaram se eu gostaria de ouvir a música preferida delas e entoaram Fala — não foi Vira, que seria o mais óbvio de se esperar. Fico feliz disso não ser proibido para eles.
Já pensou em ter filhos? Nunca foi uma vontade. As pessoas me diziam que eu tinha que procriar, mas não sou obrigado. A humanidade vai continuar comigo ou sem mim, com flihos meus ou sem minha prole. Fico feliz com a nova proximidade das crianças, mas ter filhos é uma responsabilidade que não assumo.
Seu espírito libertário vem da sua infância? Vem da minha alma. Desde pequenininho, só eu, entre meus quatro irmão, encarava meu pai. Todos se submetiam ao que ele dizia — eu nunca. Ele me espancava porque queria que eu chorasse, e nunca dei esse gosto.
Como conseguiram superar essa relação? Tudo mudou a partir do momento em que dei um beijo nele no meio da rua. Ele tomou um susto, olhou para os lados como quem pensa: “Um homem não pode fazer isso”. A partir dali, até o final da vida, não houve um encontro em que não nos beijamos. Fui o único filho que conseguiu isso.
O que curte fazer na cidade em seu tempo livre? Gosto muito do Rio. Fui criado em Padre Miguel, parti para o Mato Grosso e, depois que voltei, morei em Copacabana. Antigamente, era muito da praia: chegava às 10h e só ia embora às 19h. Mas isso não faço mais. Vivo no Leblon e consigo andar muito bem pelas ruas.
Está acompanhando as polêmicas em torno das mudanças do bairro, com a subida de novos edifícios? Não estou sabendo. Sei das obras no Jardim de Alah, mas até agora não temos certeza do que vai acontecer exatamente nesse lugar estratégico da cidade. Aquilo deveria ser um espaço para o povo frequentar, fazer ginástica, dançar… Fico desconfiado, mas, já que foi autorizado, estou no aguardo.
Depois do Carnaval, temos um ano intenso, com eleições. Qual a sua expectativa? Espero que a gente entre nos trilhos e não dê um mau passo novamente.







