‘Fui ousada’, diz Paolla Oliveira, que encerra Vale Tudo sob elogios
Atriz supera críticas e se despede de Heleninha Roitman com sensação de dever cumprido: busca pelos Alcoólicos Anônimos aumentou 150% com a novela
Quando um clássico da televisão é revisitado, cada passo na tela é observado com uma rigorosa lupa. E com o remake de Vale Tudo, que estreou em março, não foi diferente. Um dos momentos mais aguardados pela plateia versada na trama era o da pintora Heleninha Roitman, calibrada após algumas doses de uísque consumido em uma boate, esbravejando para que o DJ colocasse “um mambo caliente” na caixa. A cena, escrita por Manuela Dias, foi ao ar em julho. E não deu outra: choveram críticas nas redes sociais. Paolla Oliveira, que defende com vigor a personagem, apressou-se em dizer que se tratava apenas de uma referência, e a TV Globo informou que a verdadeira releitura da icônica tomada ainda irá ao ar, na última semana da novela.
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O derradeiro capítulo está previsto para 17 de outubro. “Eu fui ousada ao batalhar por um papel que não tinha sido pensado para mim e sabia que as críticas viriam. Afinal, estou dando a cara a tapa, lido com isso há vinte anos. Existe uma cultura do julgamento”, observa a atriz paulistana de 43 anos, durante longa conversa com a reportagem de VEJA RIO, depois de dez exaustivas horas de gravação.
Nem sempre é fácil substituir uma lenda. As comparações com Renata Sorrah, que deu vida a Heleninha em 1988, eram inevitáveis. Mas Paolla nunca se intimidou, contando inclusive com o apoio da veterana. “Foi uma escolha acertada. O trabalho dela é bem diferente do meu e é lindo, a admiro imensamente”, comenta a artista de 78 anos. Algo que não mudou em três décadas foi a força da personagem, cujo impacto continua extrapolando os limites da TV e agora reacende os debates sobre o alcoolismo, com desdobramentos práticos.
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A filha da vilã Odete resolveu buscar ajuda nos Alcoólicos Anônimos (A.A.) em meados de agosto, e a procura pelo grupo na internet subiu 150% desde então. Em único dia, o serviço gratuito de acolhimento recebeu mais de 170 ligações. “Ouvi relatos emocionados de pessoas que evitaram uma recaída influenciadas pela força de vontade da Heleninha. Esses depoimentos me deram gás para não desanimar”, afirma Paolla, percorrendo o típico arco da jornada de uma heroína, que enfim dá sua volta por cima. “Apesar de todos os ferimentos que deve ter sofrido no corpo e na alma diante das críticas, a Paolla é vitoriosa”, resume Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP.
Disciplina e dedicação são adjetivos frequentemente empregados por amigos para definir a atriz, que estreou no horário nobre da TV Globo em Belíssima, de Silvio de Abreu, em 2005. “Dia desses, ela saiu exausta de uma cena às 22h, mas decidimos passar a sequência do dia seguinte. Ficamos mais três horas estudando”, relata Andrea Cavalcanti, preparadora de elenco, que trabalha com Paolla desde o início da carreira. “Ela oferece camadas de humanidade, sensibilidade e mistério. Sentimentos delicados e, ao mesmo tempo, potentes”, avalia o diretor artístico do folhetim, Paulo Silvestrini.
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Apesar de ter virado alvo constante de questionamentos por narrativas por vezes consideradas apressadas e superficiais, Vale Tudo é até agora a atração mais assistida no Globoplay em 2025 e acumula faturamento recorde: estima-se uma arrecadação de 200 milhões de reais com publicidade. “É um sucesso diferente. Não me lembro de outra novela ter sido tão acompanhada pelas redes”, diz Paolla. Na semana em que Afonso (Humberto Carrão) desmascarou Maria de Fátima (Bella Campos), a hashtag #valetudo passou oito horas nos trending topics mundiais do X e 35 horas entre os assuntos mais comentados no Brasil. Nos próximos capítulos, Heleninha deverá ser presa como uma das principais suspeitas do assassinato de Odete Roitman. A ver o que as redes reservam.
A trajetória da atriz é feita de escolhas ousadas e trilhas improváveis. Formada em fisioterapia, Caroline Paola Oliveira da Silva (com um empurrão da numerologia ela duplicou a letra “l” no segundo nome) cresceu na Zona Leste de São Paulo e chegou a dar plantão em hospitais. Antes de ser alçada ao panteão da Vênus Platinada, foi assistente de palco do programa Passa ou Repassa, do SBT ó seu primeiro trabalho com carteira assinada, e estrelou Metamorphoses, na Record. Filha de um policial militar aposentado e de uma auxiliar de enfermagem que se formou em Medicina, quando quis fazer aula de teatro, precisou ser acompanhada pelo pai.
Após o fim de Vale Tudo, ela pretende dar um festão para celebrar as duas décadas de trajetória na Globo, onde, mesmo sem contrato fixo atualmente, coleciona tipos marcantes, a exemplo da prostituta de luxo Danny Bond, da série Felizes para Sempre? (2015), e a influenciadora Vivi Guedes, de A Dona do Pedaço (2019). “Heleninha foi especial porque precisei usar ferramentas diferentes da sensualidade”, conta, ansiosa para a estreia do filme Herança de Narcisa, protagonizado por ela, que estará na telona no Festival do Rio, na segunda-feira, dia 6.
Fora das câmeras, Paolla vive intensamente. Antes de começar as filmagens de mais um longa, no primeiro semestre do ano que vem, ela fará um pit stop no Uruguai, para merecidas férias, e voará para Nova York, a fim de acompanhar um show do marido, o cantor Diogo Nogueira. Sobre os rumores de crise na relação de quatro anos, três deles sob o mesmo teto, acha graça. “Enfrentamos toda a sorte de boatos. Ele é dono dessa voz sensual, que dá margem a muitas fantasias. Na verdade, é ingênuo, tem alma de criança”, entrega.
A mansão do casal, de 1 700 metros quadrados e cinco quartos, a poucos minutos da Praia da Barra, abriga também Abgail Oliveira, Biga, tia de Paolla; o filho de Diogo, Davi, de 19 anos; a assistente pessoal dele, Dona Alba; além de três cachorros e doze gatos, alguns batizados em homenagem a personagens da novela, como Odete, Heleninha e Eugênio, além de Gregorio, porque ela adorou a peça O Céu da Língua, sucesso de Gregorio Duvivier. “A atenção de Paolla comigo, com a família, com os bichinhos e com todo mundo é admirável”, derrete-se o sambista.
Abrir mão do posto de rainha de bateria da Grande Rio, que ocupou entre 2009 e 2010 e de 2020 a 2025, ajudando a escola a conquistar seu primeiro título no Grupo Especial, em 2022, reforça sua determinação. “A saída dela não foi só pelo trabalho, mas por um contexto que exige dedicação. A nobreza dessa atitude mostra a mulher que ela é”, elogia Diogo. O pai de Paolla, José Everardo, foi diagnosticado com demência frontotemporal, a mesma de Bruce Willis e do jornalista Maurício Kubrusly, e a atriz precisava ter tempo para ele.
A passagem da coroa para a influenciadora Virginia Fonseca, na quadra da agremiação, foi sob o coro “Fica, Paolla!”. “Pouca gente sabe que, na pandemia, mesmo com as limitações impostas pelas circunstâncias, ela não se furtou a ir a Caxias distribuir cestas básicas a quem mais precisava”, lembra Thiago Monteiro, diretor de Carnaval da Tricolor da Baixada, que a brindou com o cargo inédito de rainha de honra. A soberana do samba, porém, ainda não decidiu em que ala e de que jeito vai cruzar a Avenida em 2026.
Nas redes, Paolla vem se consolidando como sinônimo de autenticidade e empoderamento feminino. Só no Instagram, onde costuma postar bastidores das filmagens, além de momentos de lazer, jogando futevôlei na praia ou fazendo aulas de bailado (é bicampeã da Dança dos Famosos), acumula mais de 38 milhões de seguidores. Prato cheio para marcas que buscam a voz de uma mulher bem resolvida, que abraçou o movimento do corpo livre. “Às vezes me escolhem para uma campanha, mas me retocam, tiram os defeitos. Eu falo: ‘Ou vocês deixam, ou não sirvo para esse trabalho ”, orgulha-se a atriz, que segue sem o desejo de ser mãe, apesar de ter congelado óvulos aos 35. “É um assunto que precisa ser naturalizado, porque diz respeito apenas a quem toma a decisão”, defende, sabendo que o que fala e faz serve de inspiração para muita gente. “A pessoa física é digna de todo o carinho que a pessoa jurídica recebe nas redes”, garante Aline Fonseca, há dois anos à frente do marketing digital da atriz. Paolla não exige mesmo filtros nem retoques.
Colegas de Vale Tudo enaltecem Paolla
Manuela Dias (autora)
“Paolla é uma atriz visceral que se entrega com afinco e comprometimento a tudo que faz. Ela construiu uma Heleninha profunda, verdadeira e conectada com experiências reais de pessoas que enfrentam o seríssimo problema do alcoolismo. É fantástico para qualquer autor contar com uma parceira como ela!”
Debora Bloch (Odete)
“Já no primeiro dia de ensaio vi que é uma atriz vocacionada, dedicada, estudiosa. Paolla estudou a fundo o problema do alcoolismo. Além disso, eu adoro estar com ela, é uma pessoa gostosa de conviver, alegre, animada e divertida. Ah! E é tão cheirosa… Vou levá-la para a minha vida”.
Humberto Carrão (Afonso)
“Foi a primeira vez que trabalhei com a Paolla e sigo espantado com sua força. Guardo com muito carinho as cenas que fizemos juntos: o amor de dois irmãos que parecem ter tudo, mas que dividem a falta de tanto. Ela construiu Heleninha com intensidade, beleza e entusiasmo”.
Carolina Dieckmmann (Leila)
“Paolla é um acontecimento. Linda de morrer, gentil, atenta, gosta de festa, é alegre e, ao mesmo tempo, leva o trabalho a sério, com entrega, estudo e talento. Trouxe pra sua Heleninha muita verdade, dor e doçura. A gente não convive muito, mas sempre que nos encontramos é uma felicidade”.
Taís Araujo (Raquel)
“Ela é uma companheira de cena maravilhosa e ótima companhia de coxia e de camarim. Ela se dedica com muita força ao que realmente acredita, pesquisa bastante e é uma atriz que nunca oferece metade da potência. Ela dá tudo o que pode em todas as cenas. Eu gosto disso”.
Malu Galli (Celina)
“Tê-la por perto é uma alegria no set e nos bastidores. Uma presença de afeto, autenticidade, talento e inteligência. É uma mulher muito especial. Criamos uma parceria de muita confiança, troca e cumplicidade. Tenho muita admiração por ela e vou ficar com saudade”.
João Vicente de Castro (Renato)
“Ao vê-la no estúdio, percebe-se que Paolla não é uma estrela da TV, e sim uma operária, preocupada com a parte dela e com a do colega, sempre aberta a ouvir e dar sugestões. Trabalhar com ela foi uma oportunidade de melhorar como ator, formulando um personagem coerente”.
Alice Wegmann (Solange)
“É uma das atrizes mais iluminadas com quem já trabalhei. Mas de nada adiantaria ser iluminada e não iluminar quem está ao redor. E isso ela faz com maestria. Ela é a musa da equipe, levanta o astral de todo mundo, organiza todas as festas de Vale Tudo, é muito generosa. Sou fã”.
Luis Salém (Eugênio)
“Eu já fiz muitas novelas, trabalhei com várias atrizes e enxergo na Paolla um brilho diferenciado. Ela está no mesmo nível de estrelas como Gloria Pires e Renata Sorrah. Contracenar com ela foi um delírio. Por causa da energia gigante dela, meu personagem, pequeno, cresceu”.





