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Renato Aragão: “Tudo tem a sua hora”

Aos 91 anos, o eterno Didi estreia musical e fala sobre os bastidores de uma carreira que atravessou décadas e precisou acompanhar as mudanças no humor

Por Renata Magalhães
20 fev 2026, 09h43 • Atualizado em 23 fev 2026, 14h21
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 (Pedro Dimitrow/Divulgação)
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  • Em 1966, Renato Aragão estreou Os Adoráveis Trapalhões na TV Excelsior. Essa foi a primeira vez que o nome da trupe responsável por mudar a história da televisão brasileira foi usado. Só uma década depois, Manfried Sant’Anna (Dedé), Antônio Carlos Bernardes Gomes (Mussum) e Mauro Faccio Gonçalves (Zacarias) se juntaram ao humorista nascido em Sobral, no Ceará, consolidando a fama de Os Trapalhões, que estreou em 1977 como um quadro fixo antes do Fantástico, na Globo.

    No ar por três décadas, entre idas e vindas dos integrantes, o humorístico entrou para o Guinness Book pela longevidade. Bastidores dessa época, histórias da amizade entre os quatro e tudo o que se escondia sob o riso compõem Adorável Trapalhão – O Musical, musical estrelado pelo eterno Didi Mocó, que estreia quinta (26) no Sesc Ginástico. Com encenação e direção de arte de José Possi Neto, o espetáculo apresenta o homem por trás do icônico personagem, que acaba de completar 91 anos. Em entrevista à VEJA RIO de sua casa na Estrada do Pontal, ele reflete sobre as transformações do humor, fala sobre a patrulha do politicamente correto e garante que nunca irá se aposentar. 

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    O que vamos conhecer de novo sobre esse personagem tão querido pelos brasileiros? O Didi foi um anjo que pousou no meu ombro. Esse nome me veio à cabeça durante um processo de criação nos anos 1960, quando ensaiava uma carreira na TV e sonhava com cinema. Junto, veio também a figura com um jeitão meio Chaplin de ser. No espetáculo, esse anjo bate as asas mais uma vez e deixa o público conhecer melhor o homem por trás dele. Tem lembranças de bastidores, causos de amizade, medos, saudades e coisas que a gente escondia por trás das gargalhadas. 

    Lembra quando percebeu que tinha criado algo que atravessaria gerações? Nunca pensamos em fazer história. Nosso objetivo era não deixar a piada morrer, ser engraçado e só. A ficha caiu quando vimos que fazíamos parte dos domingos das famílias — as pessoas imitavam nossos tropeços, usavam os bordões e repetiam as falas. Foi quando me tornei Didi Mocó Sonrisépio Colesterol Novalgina Mufumbo. O que deve ter de gente que tentou registrar filho com esse nome e sobrenome… (risos). 

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    Cada Trapalhão tinha uma personalidade muito marcante. Em que momentos essas diferenças enriqueciam o processo e em quais davam mais trabalho? Sempre mantivemos o respeito às nossas formas singulares de existir. Formávamos uma equipe unida, um complementava o outro — e a beleza estava nessa troca.

     Como lida com a saudade de Mussum e Zacarias? Amor é um sentimento presente, eterno. Tivemos uma amizade profunda, que o tempo não deixou se apagar. Consegui ressignificar e encontrar um lugar especial para a nossa história. É com muita ternura que me lembro dessas pessoas que foram tão especiais na minha vida. 

    Você só fez teatro aos 79 anos, no musical Os Saltimbancos Trapalhões, de Möeller & Botelho. Por que demorou tanto? Encaro como o momento certo. Prefiro acreditar que tudo tem a sua hora de acontecer. Tento aproveitar as oportunidades na medida em que aparecem e a do teatro veio em 2014, sendo prazerosa e importante para minha trajetória. 

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    Como é a preparação para encarar uma temporada aos 91 anos? Faço ginástica dia sim, dia não. Não como carne vermelha — sou vegetariano há tantas décadas que nem me lembro mais como era não ser. Estou pronto e quero dar à plateia o melhor de mim, como Didi Mocó me ensinou.

     Você poderia já estar aposentado faz tempo… Trabalhar é o que me motiva a viver. Nunca vou me aposentar. A gente tem que estar sempre em movimento. 

    Como descobriu o dom para a comédia? Minha mãe, dona Dinorá, era engraçada e puxei isso dela, mas a minha pegada era mais corporal. Mamãe era elegante. Eu… sou trapalhão. E, ao contrário do que se acredita, sou tímido. Inclusive, para quem está acostumado a me ver caindo da escada, levando tapa e correndo do guarda, a novidade dessa peça é me ver mais “parado”. Adorável Trapalhão não é só piada atrás de piada.

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     O humor mudou muito desde o início da sua carreira. Como acompanhou essas transformações? Creio que a leveza, a ingenuidade e a graça do riso infantil são atemporais. Sim, é importante fazer uma leitura da época e se adaptar. Mas o essencial está ali: a risada despretensiosa, especialmente aquela que brota quando se ri de si mesmo — e isso sempre esteve presente no meu trabalho. Foi o que despertou empatia com os meus fãs. 

    O que pensa da patrulha do politicamente correto, que é o contrário de Os Trapalhões? São visões de mundo diferentes. Hoje talvez se tenha uma sensibilidade maior e isso deve ser respeitado. O comediante tem que levar em conta a troca com o seu público. Se o público muda, a piada precisa mudar também. 

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    O que te faz rir e do que não acha mais graça nenhuma? Tenho gatos e cachorros e rio muito da bicharada aqui de casa, das brincadeiras que faço com amigos e das inúmeras vezes tentando achar o controle remoto, que nunca lembro onde deixei (risos). Não vejo graça quando uma piada tem que diminuir alguém para funcionar, quando o Vasco perde ou quando inventam fake news sobre mim e minha família. 

    De que forma preserva a chama do matrimônio acesa após mais de trinta anos? Lílian (Taranto) é a minha MM (de Mulher-Maravilha). A palavra que define nosso casamento é gratidão. É o que mantém acesa essa chama, junto com companheirismo e cumplicidade. 

    Como curte a cidade? O que mais amo fazer é ir ao supermercado comer pizza e estar com amigos e familiares. 

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    Tem algum arrependimento? Procuro estar atento às correções de rota que preciso fazer. Assumo que nem sempre acerto, mas busco fazer o melhor possível. Sei que haverá quem diga que podíamos ter feito mais ou diferente ó e está tudo bem. Prefiro mesmo é agradecer por tudo que tenho podido viver. 

     

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