“Senti muita dor”, diz Carolina Dieckmmann
Protagonista de (Des)controle, Carolina Dieckmann reflete sobre alcoolismo, vulnerabilidade de gênero e o peso de viver no limite — dentro e fora da tela
Nas últimas duas décadas, o consumo de álcool pelo público feminino praticamente dobrou no mundo, passando de 7,8%, em 2006, para 15,2%, em 2023 — com maior impacto entre as mulheres jovens e as negras. Na opinião de especialistas, um dos principais motivos é a vulnerabilidade de gênero, com fatores como sobrecarga profissional, responsabilidades financeiras e trabalho doméstico induzindo à bebida como suporte.
+ Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui
O cenário é retratado no filme (Des)controle, que estreia quinta (5), escrito por Felipe Sholl e Iafa Britz a partir de histórias reais. Uma delas é a da mãe de Carolina Dieckmann, que vive a protagonista adicta Kátia Klein no longa. A atriz, que está na frente das câmeras desde os 13 anos, acumulando personagens icônicos como a Camila de Laços de Família e, mais recentemente, a Leila de Vale Tudo, diz buscar papéis que tenham uma função social. De sua casa em São Conrado — agora mais vazia com a saída do filho mais novo —, ela conversou com VEJA RIO sobre momentos em que também se sentiu beirando os próprios limites.
Que experiências pessoais levou para o filme? Quando recebi o convite, percebi que precisava entrar como um elemento de criação, afnal, estou presente em todas as cenas. Sempre colocamos nossas vivências num trabalho artístico, mas fui além e criei com a equipe um acervo de referências que nos interessavam. Além disso, tive autoridade sentimental por conta de uma história com a minha mãe. Ela não era alcoolista, mas passou parte da vida se anestesiando com o álcool.
Como foi reviver essas lembranças? Através do meu trabalho, num momento mais maduro, consegui transformar o trauma. Isso aconteceu quando tinha 10 anos e não sabia até onde aquilo poderia ir. Senti muita dor ao ver uma pessoa próxima não conseguir cuidar de mim porque não estava dando conta nem de si. Mas tivemos sorte: quando ela decidiu que não queria mais se entorpecer, conseguiu virar a página. A gente até chegou a tomar alguns drinques depois que ela estava totalmente recuperada.
Você se preocupou em não cair em caricaturas? Tive uma preparadora corporal que me ajudou a mesclar minhas referências atuais com o que tinha de memória. Trabalhei não só a paixão pela bebida, mas a expectativa antes de um gole que leva ao êxtase, sem os estereótipos que estamos cansados de ver. Esmiuçamos o desequilíbrio, a lentidão e como aquilo se refete no órgão.
O longa fala sobre pressões contemporâneas sobre as mulheres. Essas cobranças empurram a personagem para o vício? (Des)controle também é sobre a nossa sobrecarga e as responsabilidades implícitas que assumimos — desde tirar o prato do flho da mesa até manter um casamento. O álcool vem como uma fuga. Na cabeça da Kátia, é uma salvação: vai segurar a tremedeira, ajudá-la a ser mais comunicativa, liberá-la sexualmente… Só que, como ela é adicta, isso se torna uma prisão e vira o oposto do que ela espera.
Já se viu em uma situação-limite? Quando estou trabalhando, tenho tendência ao exagero. Minha sorte é ter um marido muito parceiro, com quem estou há 22 anos, então não adoeço tentando dar conta de tudo. Não me sinto cobrada, pois ele sabe que esse é um período em que fco imensa. No momento, estamos sofrendo com a síndrome do ninho vazio, já que nosso flho mais novo acabou de sair de casa.
Você também interpreta uma mãe em crise no filme Pequenas Criaturas, que ganhou o principal prêmio do Festival do Rio. As complexidades femininas estão tendo mais espaço do que no início da sua carreira? Aos 47 anos, faço papéis cada vez mais profundos. Não teria o que tenho para dar hoje quando fz a Camila em Laços de Família, por exemplo. Aos 20, uma menina não tem tantos questionamentos. Agora é a fase das transformações, em que as mulheres mudam muito. Faz sentido que venham personagens mais desafadores.
Como a Camila transformou sua carreira? Essa novela foi uma bênção que Manoel Carlos me concedeu. A cena do cabelo sendo raspado foi o nascimento de uma consciência enquanto artista. A Camila me mostrou que o meu interesse está em histórias com função social, assim como (Des)controle. Chegar às pessoas não só como entretenimento, mas como cura. Fazer um verdadeiro refexo da nossa sociedade — e a gente normaliza muito o álcool.
Em que sentido? Não achamos legal quando alguém diz que não bebe, sem saber se aquilo é uma condição de saúde. Ah, qual o problema de beber um pouquinho para relaxar? Daí, quando vamos ver, estamos consumindo álcool há mais de dez dias consecutivos. Precisamos mudar o discurso, olhar para o outro com mais generosidade e menos julgamentos. O “não é não” tem que ser nesse lugar também.
Como passa essa mensagem para os seus dois flhos — em tempos onde até o Big Brother registra casos de assédio? … inacreditável. Se acontece aquilo na frente das câmeras, o que não acontece quando “ninguém está olhando”? Mas é inegável que agora estamos realmente falando sobre isso. No dia seguinte ao episódio, a internet inteira abriu esse debate. Ainda está difícil, mas pelo menos há algo que sequer havia antes e isso se refete na criação de meninos e meninas hoje.
Passou por algum caso parecido? Não. Só uma vez que recebi uma proposta de carona de um diretor muito mais velho e a insistência me soou estranha. Consegui dizer não e conversei com a minha mãe em casa.
Como lida com a quantidade de opiniões publicadas sobre você na internet? Sou eu quem cuido das minhas redes e esse lugar é importante para mim. Já me senti injustiçada com coisas que foram ditas ou discursos meus que foram deturpados. Fiquei traumatizada, então respeito muito esse espaço onde consigo me posicionar. Quando posto uma foto de biquíni e começam as enxurradas de comentários sobre magreza, espero um momento em que esteja com paciência e vou lá responder. Quero evoluir o discurso, especialmente sobre pararmos de falar dos corpos alheios.
Você sempre foi reconhecida por falar o que pensa… Reconhecida e julgada. Toda mulher que fala é julgada. Quantas vezes a minha saúde mental não esteve à mercê de uma pessoa que não me compreendeu e escreveu um monte de coisa a meu respeito sem ser verdade? Minha saúde sempre esteve a serviço disso: ser uma atriz, começar a atuar cedo, ter uma personalidade e uma história… Por isso, é ótimo poder escolher quando vou comprar uma briga. É uma retomada de controle.





