Banho de arruda: a erva aparece em drinques roupas, arranjos e tatuagens
Na sabedoria popular, a planta de uso medicinal é conhecida por afastar energias negativas e trazer proteção
Na canção Banho de Manjericão, composta por Paulo César Pinheiro e João Nogueira (1941-2000), a voz de Clara Nunes (1942-1983) enumera uma lista de superstições: “Eu vou bater na madeira três vezes com o dedo cruzado; vou pendurar uma figa no aço do meu cordão; em casa um galho de arruda que corta um copo d’água no canto da porta.”
Início de ano é tempo de renovar as simpatias, mas uma delas vem se integrando à moda das ruas, independentemente de crenças. Associada a festas populares, rodas de samba, altares de botequins e celebrações religiosas, a arruda foi alçada ao posto de protagonista de drinques, bordados, tatuagens e modernos arranjos florais.
“Até o Carnaval, essa folhinha vai pipocar por todos os cantos”, prevê o professor da Uerj Luiz Rufino, autor do livro Cazuá: Onde o Encanto Faz Morada, lançado em 2024.
Na sabedoria popular, a erva de uso medicinal, adotada por rezadeiras nos terreiros de fé e festa, é conhecida por afastar energias negativas e trazer proteção. “A arruda enxerga aquilo que a gente não vê, denunciando o que é ruim”, acredita Rufino.
No balcão do descolado bar Baixela, em Copacabana, repousa, desde a inauguração, em 2022, um vaso com um molho de arruda, renovado semanalmente. No ano passado, o boteco resolveu incluir a erva aromática na carta de drinques. A batida saravá leva cachaça branca, suco de caju, gengibre e… Arruda.
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A planta aparece macerada na receita e num galho que adorna o copo americano. A invenção é assinada pelo mixologista Thiago Teixeira, que fez das folhinhas sua marca registrada. Também são criação dele a benza, em que a plantinha casa perfeitamente com a acidez do maracujá, no recém-aberto Conserva, em Copacabana, e a bença, com suco de limão e xarope de açúcar, que figura na carta do Miudinho, na Tijuca.
No Baródromo, no mesmo bairro, o coquetel com a planta foi batizado de mestre bembé, e faz sucesso com as folhas misturadas a gim, xarope de flor de sabugueiro, suco de limão, água tônica e espuma de gengibre. “A arruda traz boas energias para o corpo, a alma e as papilas gustativas”, brinca Teixeira.
Nativa do sul da Europa e do Mediterrâneo, a planta de nome científico Ruta graveolens – em latim, ruta significa cura – alcança a floração entre a primavera e o verão, quando seus ramos ficam entupidos de botões de flores amarelas. É justamente nessa época que a erva pode assumir lugar cativo dentro de casa, para embelezar mesas festivas.
Nos “mimos botânicos” assinados pelo casal Allan Nolasco e Julia Lambert, do Estúdio Flor.Idas, a erva desponta em composições “cruas, perfumadas e silenciosas”, como define Julia.
“Arranjos não são apenas flores mescladas. Eles carregam camadas de significados que envolvem forma, estética, memória e intenção. A composição é simbólica e, ao mesmo tempo, bela”, observa Julia, arquiteta de formação.
É com a mesma sutileza que os ramos se revelam nos bordados em branco sobre branco de camisas da Foxton e em peças como vestido, calça e túnica da linha Bordado Arruda, lançada pela Maria Filó.
Um dos mais tradicionais grupos de samba do Rio, o Arruda celebra vinte anos de trajetória em 2026, com o lançamento de um disco gravado no Renascença Clube, no Andaraí.
Quando foi fundado, o conjunto se apresentava em frente à quadra da Mangueira. No centro da mesa, rodeada por instrumentos, um buquê de arruda era posicionado para dar sorte.
A tradição serviu de referência para os músicos locais, que acabaram batizando o grupo de forma espontânea. Hoje, se não tem planta, não tem samba.
E é com essa energia que o grupo abre o ano com uma agenda agitada de shows no Glorioso Cultural, na Glória, nesta sexta (9), no Casarão do Firmino, na Lapa, no sábado (10) e no Rio Scenarium, na próxima semana.
“O público faz fila para pegar os galhos, fica parecendo até uma procissão. É O nosso amuleto”, observa o percussionista Gustavo Palmito, um dos fundadores. Seja por fé ou por estilo, pedir proteção e espantar o mau-olhado nunca é demais.
Em se plantando, tudo dá
Dicas para os raminhos brilharem em arranjos florais
Escolha flores delicadas, de tamanho médio, com pétalas de cores vivas, como amarelo, rosa, roxo e lilás
Combine a erva a folhagens de outras texturas, isso ajuda a dar volume ao buquê
Mantenha um espaço razoável entre as flores e folhas, em diferentes alturas, para harmonizar o conjunto





