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“A desordem urbana facilita o crime”, diz delegada Patrícia Alemany

À frente da delegacia de Apoio ao Turismo, ela explica quais são os principais riscos enfrentados pelos visitantes estrangeiros e como o Rio pode combatê-los

Por Renata Magalhães
24 dez 2025, 10h14 • Atualizado em 24 dez 2025, 15h47
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Patrícia Alemany: delegada especial de Apoio ao Turismo explica principais riscos enfrentados por estrangeiros (Leo Lemos/Divulgação)
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  • O turismo no Rio de Janeiro vive um momento expressivo: mais de 2 milhões de estrangeiros aportaram por aqui em 2025 – um recorde histórico. Devido ao aumento proporcional de delitos sofridos pelos visitantes, em sua maioria oriundos da América Latina, a Delegacia Especial de Apoio ao Turismo, em parceria com diversos órgãos públicos e entidades do setor, lançou uma cartilha trilíngue (em português, inglês e espanhol) com orientações sobre cuidados pessoais, transporte e uso de aplicativos de relacionamento, além de alertas contra roubos, furtos e golpes.

    “O mais comum é a subtração nas areias, durante um mergulho”, conta a delegada Patrícia Alemany, que deixou o Departamento Geral de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro da Polícia Civil em 2020 para assumir o comando da DEAT. Em conversa com VEJA RIO, do seu posto no Leblon, ela comentou os frequentes episódios de Boa Noite, Cinderela, apontou como está a reputação fluminense no âmbito internacional, e trouxe exemplos de medidas aplicadas em outras metrópoles turísticas que podem ser replicadas no Rio.

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    O perfil das ocorrências com os turistas que visitam o Rio vem mudando?

    Quando cheguei, na pandemia, aproveitei para analisar os dados com base em 2019. O padrão até hoje segue o mesmo: os casos sem violência correspondem a 85% – sendo, em sua maioria, furtos. O mais comum é a subtração nas areias, durante um mergulho. Brinco que a culpa do crime no turismo é da caipirinha, que quase sempre está envolvida.

    Por que temos visto tantos casos de Boa Noite, Cinderela?

    Por proporção, não houve um aumento no número de delitos, mas estamos recebendo mais gente. É um crime que dá mídia, e acaba criando essa impressão de que são muitos, mas não foram nem oitenta episódios dentro do 1,8 milhão de visitantes que recebemos até outubro. Como em qualquer lugar do mundo, mexer com drogas e prostituição gera uma vulnerabilidade maior.

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    Como lidam com quem chega na delegacia?

    Temos uma equipe especializada: policiais bilíngues e com perfl de acolhimento. Só que convencer alguém a depor e fazer reconhecimento já é normalmente difícil, com turistas torna-se mais ainda. O gringo não acredita na polícia de outro país ou não quer perder o tempo de férias. Geralmente, vamos até a hospedagem, mas depois que o turista vai embora, acaba tudo por isso mesmo.

    Além dos furtos, quais as transgressões mais comuns?

    Estelionato, com taxistas ou falsos ambulantes. Prendemos uma quadrilha que cobrou 1 600 euros – ou seja, 10 000 reais – por um cigarro a varejo. Com violência, são as tentativas de roubo com armas, que em geral acontecem de madrugada, com maior incidência no Centro e em Santa Teresa. Os aplicativos bancários de fora não tem nenhuma segurança, e as movimentações não são registradas na hora, o que prejudica situações de flagrante. Muitas vezes, eles só percebem o prejuízo um ou dois dias depois.

    Qual o pior caso que teve que lidar?

    Só tive dois homicídios. Um foi o argentino baleado ao entrar por engano em uma favela no Rio Comprido, no final do ano passado. Identificamos o autor em 24 horas, mas o tráfico abraçou a causa, então ainda não conseguimos prendê-lo. O outro, um chileno que foi jogado de um precipício em Santa Teresa, após o Boa Noite, Cinderela. Duas prostitutas e um taxista pegaram trinta anos de cadeia. Ter que avisar às famílias que eles estavam mortos foi muito difícil.

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    Como a delegacia tem se estruturado para lidar com grandes eventos?

    Desde o show do Alok, fizemos um reforço junto a PM e colocamos um sistema de atendimento nos próprios locais. Lançamos cartilhas específicas dependendo do perfil do público. Mas a verdade é que uma tarde de verão nas praias do Rio reúne metade de um show da Lady Gaga em Copacabana. Toda segunda, a Pedra do Sal recebe 3 000 pessoas e já sabemos que o dia seguinte é sempre de trabalho dobrado. A desordem urbana facilita o crime.

    É possível melhorar esse cenário?

    O primeiro passo é a regulamentação dos ambulantes — não tenho nenhuma ocorrência com o pessoal que vende mate na praia uniformizado ou com os barraqueiros. Na informalidade, tem gente vendendo com tornozeleira eletrônica.

    Quais erros de comportamento facilitam situações de risco?

    Muitos turistas vêm de lugares onde é possível andar de madrugada nos centros urbanos, por isso, é preciso entender o destino para onde se está indo. O estrangeiro também tem o hábito de reagir, então uma situação que não era para ser violenta acaba se tornando. Teve uma ucraniana que travou uma luta corporal no Aterro e foi esfaqueada.

    Os casos recentes mudaram a percepção internacional sobre a cidade?

    Não, até porque os turistas não param de chegar. Uma pesquisa da Fecomércio mostrou que, após o Carnaval deste ano, 65,9% dos visitantes brasileiros e 70,6% dos estrangeiros expressaram satisfação ou muita satisfação com a segurança pública no Rio. Pela imprensa, pode parecer uma zona de guerra, mas não é bem assim. Na França, os beach clubs são roubados a mão armada e não sai uma nota nos jornais.

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    Há algum lugar que tenha implantado medidas de apoio aos turistas que possam ser replicadas no Rio?

    Cancún, no México, tem uma característica parecida: lá foi desenvolvido um corredor de segurança. Conseguimos colocar câmeras nos quiosques e hotéis da orla do Leme até o Leblon, e o próximo passo é avançar para a Barra. Temos que proteger as áreas turísticas de uma maneira mais eficiente, e vamos usar as ferramentas tecnológicas que são desenvolvidas para isso. Nosso objetivo é que todos que pisem aqui tenham uma experiência maravilhosa e queiram voltar sempre.

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