Roteirista Manuela Cantuária revisita construção de personagens femininas
Da Grécia Antiga a Hollywood, nada escapa de suas perspicazes análises em seus badalados cursos
Do outro lado da tela, equipada com um microfone retrô e óculos de grau grandalhões, que escorregam até a ponta do nariz, dando efeito anasalado à sua voz, a roteirista Manuela Cantuária, 38 anos, lança a pergunta: por que a maioria das personagens femininas é estereotipada? A partir daí, a carioca costura referências da dramaturgia, filosofia, psicologia, astrologia e mitologia para explicar – e tentar compreender – a representação da mulher na ficção. “É uma espécie de stand-up dramedy”, define a idealizadora do curso Vulneráveis Venceremos – A Construção das Heroínas Humanas, que se tornou coqueluche entre famosos e intelectuais descolados.
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A primeira edição, em 2022, reuniu um seleto grupo de quarenta alunos e um ciclo enxuto de aulas com dose afiada de humor. A nona turma, em setembro, contou com duzentos interessados. E há lista de espera para o próximo, previsto para começar no início de abril. A inscrição custa em torno de 1 500 reais, com bolsa para grupos minorizados. “Quebrei a cara até entender que o processo de desumanização da mulher está atrelado a uma representação cultural que a reduz a uma imagem inventada pelos homens”, reflete Manuela, com a Vênus de Milo tatuada no braço.
Idealizadora de As Seguidoras, da Paramount+, e roteirista de Cedo Demais, longa disponível no Disney+, Manuela foi a primeira autora fixa do coletivo Porta dos Fundos e trabalhou com o cineasta Ruy Guerra. “O grande ponto de virada da minha vida foi quando percebi que sou uma feminista que fracassa todos os dias”, diz a moradora de Laranjeiras, que já compartilhou suas profundas visões sobre o feminino com Malu Mader, Letícia Spiller, Mãeana, Maeve Jinkings, Luisa Arraes, Camila Pitanga, Duda Beat e Humberto Carrão.
Na primeira metade do curso, a partir de fatos históricos, ela propõe reflexões críticas e políticas. Na outra, esmiuça processos psicológicos, emocionais e simbólicos. Da Grécia Antiga a Hollywood, nada escapa de suas perspicazes análises. “Por mais que tenhamos muitas mulheres protagonistas, ainda caímos em equívocos que reforçam estigmas. Manuela abre nossos olhos para esse fato de maneira despojada e envolvente”, observa Camila Pitanga, que contou com o apoio de Manu para compor a vilã Lola, de Beleza Fatal, da HBO Max.
O conteúdo das aulas é distribuído em ebook e por meio de gravações disponíveis por seis meses no “Manuflix”, como apelidou a professora. Para sanar dúvidas e trocar figurinhas, há um grupo fechado de Telegram. “Ninguém aguenta mais as notificações do WhatsApp”, atesta Manu, ferina. A roteirista não enxerga um modelo de trabalho monogâmico – nem uma relação amorosa – e apresenta o podcast Reparação Histérica, no Spotify, com a escritora Tati Bernardi e a jornalista Milly Lacombe.
E começou 2026 com o pé no acelerador: está escrevendo um livro que pretende lançar ainda este ano, finaliza o roteiro da segunda temporada da série Os Donos do Jogo da Netflix, assina o texto do remake de Hilda Furacão e ainda planeja encenar um monólogo de sua autoria, é claro. “Atuei em três esquetes do Porta dos Fundos. Até então, achava que meu papel era só escrever, mas contei com um empurrãozinho dos diretores”, conta.
Para manter a cabeça ativa, Manuela anota os próprios sonhos, faz exercícios de alongamento pela manhã e agrada suas crianças interiores com coleções de bibelôs e fitas cassete. Ela também não abre mão da vida social – é figurinha fácil no Suru Bar, por exemplo – e das trocas com a irmã e melhor amiga, a artista plástica Marcela Cantuária, 35. “A gente se complementa. Ela na escrita e eu na pintura, resgatando e reimaginando personagens femininas”, enlaça a pintora. Sempre há tempo de se reconstruir.
Não é mera coincidência
Padrões que moldam o imaginário sobre a mulher
Frágil. ingênua e dependente, a mocinha precisa da proteção masculina, como a protagonista do filme Anora, interpretada por Mickey Madson.
Fatal. falsa e sedutora, destruidora de homens, do lar e vilã, como a personagem de Sharon Stone em Instinto Selvagem.
Destemida. o aspecto sobrehumano a torna especial, a exemplo da heroína Lara Croft, encarnada por Angelina Jolie no longa Tomb Raider.
Divertida. espírito livre e espevitado, moderninha por fora, barroca por dentro, a exemplo do papel de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo.







