Fórmula 1 dos Mares: SailGP estreia no Rio onde Martine Grael fez história
Velejadora comanda equipe brasileira na liga mundial de vela de alta performance nas águas da Baía de Guanabara, com barcos que voam a 100 km/h
Sozinha a bordo de um bote cinza, Martine Grael desliza pela Baía de Guanabara como quem conhece de cor e salteado o vento e a maré. Em cerca de vinte minutos, parte de Niterói e atraca na Urca o tempo entre a travessia e a logística para acomodar o barco na rampa. Na véspera, recém-chegada ao Brasil, ela remou na praia, deitou na grama à sombra de coqueiros, mergulhou com uma amiga em Copacabana e levou uma hora e quarenta minutos para cruzar, de carro, o caminho entre a Zona Sul e a casa da família, em Niterói. “Sempre que posso, estou no mar”, diz a bicampeã olímpica, ouro no Rio, em 2016, e em Tóquio, em 2020, ao lado de Kahena Kunze, na classe 49er FX de vela feminina. Passada uma década, Martine volta a competir onde cravou seu nome na história do esporte. Aos 35 anos, ela é a capitã da equipe brasileira no Sail Grand Prix, que acontece nos dias 11 e 12 de abril, na Praia do Flamengo. Primeira mulher a liderar um time na liga mundial de vela de alta performance, Martine conduz os trabalhos sem alarde: “O respeito não é imposto, é conquistado sendo consistente com o que você entrega todos os dias, com suas atitudes e reações”, reflete a atleta, com os pés fincados no chão e o olhar sempre fixo no mar.
Paramentada com capacete cor-de-rosa, macacão de neoprene, sapatilha náutica e um colete “inteligente”, que mapeia dados de biometria e localização, Martine Grael pilota a Mubadala Brazil, formada há pouco mais de um ano. Em 2025, a equipe terminou em 11º lugar na estreia no circuito mundial. A seu lado, estão a bordo o irmão, Marco Grael, o brasileiro Mateus Isaac, o dinamarquês Ramus Køstner, o britânico Paul Goodison e o italiano Pietro Sibello, além de três reservas fora do barco. Para a velejadora, a diferença entre o preparo para a competição e a Olimpíada é a dinâmica dos treinos no SailGP, são só dois dias de simulados com tempo contado. “Os outros times estão na sexta temporada. O número de horas na água por pessoa é absurdo. Estamos mais despreparados”, avalia a capitã. A seu favor, ela conta com a intimidade com a Baía de Guanabara. “O Rio tem um clima muito bom para velejar. A corrente, o vento e as montanhas fazem com que cada dia seja diferente, o que para o atleta é uma delícia”, diz Martine, que se queixa do tanto de plástico avistado pelo caminho. “Não existe solução simples para o problema da poluição. Precisamos de um projeto de saneamento e educação de longo prazo”, enfatiza.
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Criada em 2019 pelo empresário americano Larry Ellison, fundador da gigante Oracle, a competição com caráter de esporte radical foi logo chamada de Fórmula 1 dos mares. As embarcações combinam tecnologia aerodinâmica e velocidade: são catamarãs de 50 pés (F50) com uma vela da altura de um prédio de oito andares e outra menor. Supervelozes, os barcos sobrevoam a água e podem chegar a até 100 quilômetros por hora (veja o quadro na pág. 16). “É uma corrida maluca. Me acostumei com o ritmo. O foco é na observação de dados e análise de riscos”, comenta a medalhista, que tem acesso a informações técnicas sobre as demais equipes durante a prova. O torneio é dividido em treze etapas, o mesmo número de equipes mistas e multinacionais. Desta vez, a dupla olímpica não estará no mesmo barco. Inicialmente escalada como reserva da equipe brasileira, Kahena aceitou o convite para integrar o time dinamarquês. “Torço para que ela esteja dentro díágua”, fala Martine. “É uma inspiração ver uma das minhas melhores amigas abrindo caminho para as mulheres no futuro, em um esporte que é ainda tão machista”, ressalta Kahena.
Os preparativos para receber a quarta etapa da liga mundial, pela primeira vez na América do Sul, estão a mil. Uma megaestrutura foi construída no Aterro do Flamengo, próximo ao Monumento Estácio de Sá, com escritório, arquibancada de 3 000 lugares de frente para a Baía e o Vela Beach Club espaço premium para 650 pessoas e bufê assinado pela chef Morena Leite. Os ingressos para a área vip, já esgotados, custam 1 085 reais por dia. No total, o Race Stadium toma uma área de 45 000 metros quadrados. “A vela nunca foi um esporte de arena. As regatas, em geral, são distantes do público. No SailGP, o torneio foi formatado para você sentar a 100 metros da raia de competição com o conforto de um estádio”, diz o velejador Alan Adler, CEO da equipe brasileira e da IMM Esporte e Entretenimento, a cargo do evento por aqui. Assistir ao balé das velas não é privilégio de quem pode pagar caro a previsão é que 20 000 espectadores acompanhem da orla a competição. “Quem estiver nas proximidades vai ter a oportunidade de ver algo espetacular. Não quero criticar nem comparar, mas a paisagem do Rio, com direito ao Corcovado e ao Pão de Açúcar, certamente vai impactar”, acrescenta o empresário, que estima uma injeção de 200 milhões de reais na economia.
No ano passado, a etapa foi cancelada em razão de um acidente envolvendo uma vela na edição anterior, dando um banho de água fria nos cariocas e elevando a expectativa para a estreia em 2026. As embarcações com 2,4 toneladas chegaram ao Rio de navio nesta semana. O catamarã brasileiro ficará ancorado no Iate Clube, na Urca, que servirá de base à equipe verde-amarela. O SailGP figura entre os 815 eventos previstos no calendário oficial da cidade em 2026 um avanço em relação a 2025, quando o Rio abrigou 712 atrações, 40% na raia esportiva, entre corrida, torneio de tênis e circuito mundial de vôlei de praia, segundo levantamento da plataforma Visit Rio. A movimentada agenda gerou uma receita de 1,6 bilhão de dólares. “A possibilidade de ver ao vivo ídolos como as campeãs Martine e Kahena é uma inspiração para os cariocas incluírem a atividade física na rotina. O Rio tem o esporte no DNA e é referência na formação de atletas”, comenta o ex-secretário municipal de Esportes Guilherme Schleder, exonerado do posto nesta semana, ressaltando o notório entusiasmo da torcida brasileira.
O sobrenome Grael vale ouro na saga do iatismo brasileiro. Martine é filha de Torben Grael, dono de cinco medalhas olímpicas, e sobrinha de Lars, que perdeu a perna em um acidente náutico, mas nem por isso deixou de competir. A relação e a rivalidade entre os irmãos serão mostradas no filme Viver de Vento, de Marcos Guttmann, com Daniel de Oliveira e Caroline Abras no elenco, com previsão de estreia em 2027. Bisneta de Erik Preben Schmidt, que plantou a paixão pelo esporte na família, Martine começou a velejar ainda na barriga da mãe, Andrea Soffiatti, mas foi com 4 anos que se lembra de pisar pela primeira vez em um barco. Aos 11, participou de uma regata oficial e, aos 18, abriu mão do curso de engenharia para seguir carreira na vela profissional. Entre as conquistas, os ventos levaram a atleta a completar a volta ao mundo, na Volvo Ocean Race, em 2018. O legado da família emociona Martine. “Uma lembrança marcante foi quando ela caiu do barco e minha mãe me jogou na água para Martine não ficar sozinha para trás e criar um trauma”, recorda Marco, o irmão um ano mais velho, que muito a admira. Não é o único no clã. “É fácil começar na vela numa família de velejadores. Mas, despontar e ser uma pessoa excepcional, não. E, apesar das vitórias, ela continua sendo uma menina simples e aventureira”, elogia a tia Renata Grael.
No Brasil desde o fim de março, Martine se divide entre a casa dos pais em Niterói e a sua própria, em Búzios. Em meio à rotina dedicada ao esporte, arranja tempo para matar as saudades da família, ver os amigos e praticar atividades ao ar livre. “Se eu não fizer trinta minutos de exercício todos os dias, fico insuportável”, reconhece a atleta, que namora um italiano. Quando está na Itália, onde passa boa parte do ano, sente falta da vida corriqueira, de ir à padaria, esbarrar com um conhecido e falar na mesma língua. “No Brasil, tenho um amigo para cada ocasião: andar de bicicleta, tomar cerveja e subir montanha. As amizades não se esgotam. É para onde vou quando preciso relaxar e fazer aquela reparação do corpo e da alma”, conta a velejadora. No dia da prova, usará um amuleto que ganhou da atriz Valentina Seabra ó um colar com um pingente de um pássaro em forma de origami, um tsuru. “Vou dar tudo. É o nosso evento”, encerra Martine, pronta para se lançar nas águas da Guanabara. O clima no SailGP será de final dos Jogos Olímpicos, promete. Que os ventos sigam soprando a favor.
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Pista de corrida
Delimitada por boias, a raia da competição está posicionada a 100 metros de distância da plateia, na Baía de Guanabara, na altura do Monumento Estácio de Sá. Destinado ao público, o Race Stadium ocupa uma área de 45 000 metros quadrados com arquibancada e clube de vela. As provas acontecem em dois dias, com três largadas em cada um, e têm duração de 12 a 14 minutos. Ao fim do segundo dia, as três primeiras colocadas participam da final.
Circuito Mundial
O Rio sediará a quarta das treze etapas do SailGP neste ano. Antes, a competição passou por Perth e Sydney, na Austrália, e Auckland (na foto), na Nova Zelândia. As próximas paradas são Bermuda, Nova York, Valência, Dubai e Abu Dhabi, entre outras cidades-sede.
Por trás dos holofotes
Do SailGP à Fórmula 1 e ao Rio Open, Alan Adler coloca de pé grandes eventos esportivos
Com jeito típico de um bon vivant carioca, o ex-velejador olímpico Alan Adler, de 61 anos, é o manda-chuva nos bastidores da realização de eventos esportivos do calibre de Fórmula 1, Rio Open, SailGP e MotoGP — CEO da equipe brasileira na liga mundial de vela de alta performance e da IMM Esporte e Entretenimento. “O SailGP reúne a elite da vela mundial, com atletas no ápice do esporte, que podem competir de igual para igual entre homens e mulheres. Entrar em um F50 não é para qualquer um. Tem que ser corajosa como a Martine”, observa Adler, que assistiu ao torneio ao vivo pela primeira vez em Saint-Tropez, na Riviera Francesa. Para botar o evento de pé, na Baía de Guanabara, buscou parceria com o fundo de investimento Mubadala, dos Emirados Árabes, que desembolsou 65 milhões de dólares (cerca de 350 milhões de reais) — e tascou o próprio nome na equipe brasileira. Cada time tem aporte de cerca de 12 milhões de dólares, firmados também em relações com outras grifes, como Rolex, Vale, Banco BRB e Atvos. Formado em economia com mestrado em finanças, o empresário e ex-sócio do falido Eike Batista é ainda o responsável pelo retorno do Fashion Week ao Rio (de 14 a 18 de abril, no Píer Mauá), além da edição paulista e de apresentações do Cirque du Soleil no Brasil. “É um negócio de risco. Já pulei fora de muita coisa (como UFC e NBA). Se eu for mal, tenho que esperar um ano para recuperar. Então, foco no que faz sentido. Sou um consumidor de moda, gastronomia e esporte. O critério é fazer um evento relevante e recorrente”, resume Adler.







