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Quanto vale um símbolo carioca? Entenda a briga jurídica do Biscoito Globo

Disputa entre herdeiros de um dos fundadores e atuais sócios da marca mais icônica das praias reacende o debate sobre o peso dos ativos intangíveis

Por Alessandra Carneiro
6 mar 2026, 06h50 •
Playing with fried froth on the beach.
Reviravolta no caso: em janeiro, desembargador se declarou impedido de seguir com o caso e determinou a redistribuição do processo (Marcelo Minka/GettyImages/Divulgação)
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  • “Olha o Globo!” O grito entoado nas praias também ecoa na Justiça.

    Um dos símbolos cariocas, o Biscoito Globo está no centro de uma disputa que se arrasta há mais de uma década.

    E, no final de janeiro, uma reviravolta travou novamente o caso: o relator se declarou impedido por motivo de foro íntimo e determinou a redistribuição do processo.

    O quiprocó começou em 2015, com a morte de João Pedro Ponce Fernandes, um dos fundadores da marca, que dividia a sociedade em partes iguais com dois irmãos e um quarto sócio.

    A fatia de 25% que pertencia ao falecido, portanto, deveria ser destinada à viúva, Roberta Ponce, e às três filhas dele. À época, um balanço apresentado pela Panificação Mandarino, que produz a guloseima, estimou o valor da empresa em 360 000 reais, o que resultaria em 90 000 para as herdeiras de João.

    O motante foi considerado aquém do esperado e a viúva e uma das filhas, Glauce, entraram na Justiça.

    “Há fortes indícios de que o balanço não corresponde ao valor econômico efetivo”, diz a advogada Mariana Zonenschein, sustentando que o peso da marca e outros ativos importantes não entraram na conta.

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    Uma perícia foi determinada em 2018, mas, desde então, o processo enfrentou sucessivos atrasos. “Roberta é costureira, vive com dificuldades e sua situação financeira foi alterada de forma drástica após a morte do marido. Ela e as filhas foram desligadas do plano de saúde da empresa”, afirma a advogada.

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    À espera da perícia: “Há fortes indícios de que o balanço não corresponde ao valor econômico efetivo”, defende a advogada Mariana Zonenschein (Jorge Bispo/Divulgação)

    O Tribunal de Justiça informou que o caso está em fase de perícia, quando um especialista nomeado pelo juiz analisa documentos e números para refazer os cálculos.

    Procurada por VEJA RIO, a Panificação Mandarino afirmou, através de seu advogado, João Borsoi Neto, que não vai se manifestar.

    “Considerando o conflito e as possibilidades de recurso, é razoável estimar que o processo ainda se estenda por quatro ou cinco anos”, analisa a advogada processualista e professora da FGV Luciana Moreno.

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    Depois que o laudo for entregue, ainda sem data prevista, o juiz dará sua decisão, que poderá ser questionada mais uma vez.

    Para a especialista, o nó da questão quase sempre está na metodologia usada para definir os valores. “Muitas empresas não têm grandes prédios ou máquinas, mas concentram sua força na marca, na reputação e na clientela”.

    Ela acrescenta que, nesse tipo de disputa, não é raro que os interessados relatem dificuldade de acesso a documentos internos, o que amplia a desconfiança. “Um acordo entre as famílias é um caminho possível para encerrar a disputa, mas ele deve ser bem desenhado, com regras claras sobre o pagamento”, resume Luciana.

    Enquanto a discussão sobre cifras e planilhas segue emperrada na Justiça, o biscoito de polvilho mais famoso do Rio segue livre, leve e crocante nas areias e nos supermercados.

    Criada nos anos 1950, em São Paulo, pelos irmãos Milton, Jaime e João Ponce, a rosquinha era embalada em saquinhos transparentes.

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    Em 1954, os empresários aproveitaram o movimento de um congresso eucarístico no Rio para testar o produto na então capital federal. O sucesso foi imediato.

    No ano seguinte, já instalados em Botafogo, batizaram o biscoito de Globo, nome da padaria onde passaram a produzi-lo e vendê-lo.

    “É um negócio familiar, que nunca fez propaganda. O que mais me impressionou na pesquisa foi o cuidado e a valorização dos ambulantes, preservados até hoje”, observa Ana Beatriz Manier, autora do livro Ó, O Globo, lançado em 2017 pela Todavia.

    Em 2023, a marca passou por sua maior transformação visual: ganhou nova identidade, embalagens repaginadas e estratégia mais ampla de distribuição, reforçando presença em supermercados e investindo ainda mais na venda em bolsinhas plásticas, surgidas duas décadas antes, para além da orla.

    A mudança buscou profissionalizar a operação e dialogar com as novas gerações sem romper com a memória afetiva dos consumidores. Sem dúvida, um negócio de valor imenso e intangível.

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    (./Divulgação)

    Doce ou salgado

    Curiosidades sobre as famosas rosquinhas 

    Paulistano no RG. O mais praiano dos biscoitos nasceu, acredite, em São Paulo, em 1952, e foi batizado de Felippe. 

    Carioca por opção. Em 1955, um ano após a chegada ao Rio, passou a se chamar Globo, recebendo o mesmo nome da padaria em Botafogo que assumiu sua produção e distribuição. Ainda houve um breve capítulo como Biscoitos Copacabana.

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    Sucesso instantâneo. O êxito veio rápido — primeiro nas ruas, depois, sobretudo, nas praias cariocas. Os irmãos Milton, Jaime e João Ponce se mudaram para a cidade e, aos domingos, eles próprios vendiam a maravilha nas areias de Copacabana.

    Não é coincidência. Com o mesmo nome do principal jornal que circulava na cidade, Milton decidiu fazer uma brincadeira com o “bonequinho viu”, da crítica de cinema, e assim nasceu a logomarca estampada até hoje nos saquinhos.

    Novo Capítulo. A Panificação Mandarino, que produz os biscoitos, foi fundada em 1965 quando o português Francisco Torrão entrou para a sociedade e passou a comandar o negócio ao lado de Milton Ponce. 

    Ironia do destino. Por três décadas, a marca fornecedora de polvilho foi a… Record, que nada tem a ver com a TV.

    Marca registrada. Os tradicionais sacos de papel vegetal têm uma película que absorve gordura e preserva a crocância sob o sol.

    Para todos. A embalagem de plástico apareceu no início dos anos 2000, pensada inicialmente para ser vendida em escolas, mas logo a distribuição abarcou bancas e supermercados

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