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Bruno Chateaubriand

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O tempo como medida de respeito à mesa e à vida

Jantar no Skylab reúne talento e técnica, mas expõe atraso crônico que transforma pontualidade em exceção

Por Bruno Chateaubriand Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 26 mar 2026, 14h54 • Atualizado em 26 mar 2026, 18h34
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A Persistência da Memória (1931) (Salvador Dalí/reprodução) (Reprodução/Bravo/Reprodução)
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  • Na noite desta quarta-feira (25), o alto do Othon, em Copacabana, reafirmou sua vocação como mirante privilegiado da cidade e cenário de encontros. No Skylab, os chefs Thiago Castanho e Rubens Gonçalo assinaram um jantar em cinco tempos concebido como uma travessia sensorial pelo bacalhau norueguês, ingrediente que cruza oceanos e histórias até chegar às mesas brasileiras. A iniciativa, apoiada pelo Conselho Norueguês da Pesca (NCP), reuniu técnica, narrativa e brasilidade em um menu preciso, com destaque para o notável bao de tempurá de bacalhau da Noruega com açaí, sweet chilli, picles de chuchu e coentro. Ainda assim, a experiência acabou atravessada por um traço recorrente do ambiente social carioca.

    O convite indicava 19h. Um horário preciso, como deve ser quando a cozinha organiza seu ritmo e o serviço desenha sua coreografia. Cinco tempos exigem cadência, temperatura, sincronia. Exigem, sobretudo, respeito ao relógio. No entanto, como tantas vezes se repete na vida social brasileira, o tempo foi tratado como elástico pela organização. Atrasos sucessivos empurraram o início da experiência. Convidados chegaram quando já deveriam estar sentados. A pontualidade, mais uma vez, foi deslocada para o campo da ingenuidade. Quem chegou no horário assistiu ao curioso paradoxo de ser, naquele contexto, o desajustado.

    Há, claro, as urgências da vida profissional, os imprevistos inevitáveis, a cidade que por vezes conspira contra o planejamento. Mas existe uma linha tênue entre o imponderável e o hábito. E o hábito de atrasar, quando naturalizado, revela algo mais profundo do que simples desorganização: expõe uma falha de pacto coletivo. O tempo é o ativo mais democrático e, ao mesmo tempo, o mais desigual na forma como é respeitado. Todos o possuem na mesma medida, mas nem sempre o reconhecem como valor do outro. Em eventos de natureza corporativa, essa distorção ganha ainda mais peso. Há investimento, planejamento, propósito. Há equipes inteiras trabalhando para que cada minuto faça sentido.

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    Quando o atraso vira regra, não é apenas o cronograma que se esgarça. Rompe-se a delicadeza do encontro. A experiência perde ritmo. A cozinha, que deveria conduzir a narrativa, passa a remendar o tempo. E o que era para ser celebração se transforma, ainda que de maneira sutil, em concessão. Talvez esteja na hora de reposicionar a pontualidade não como rigidez, mas como gesto de educação. Chegar no horário não é apenas cumprir uma formalidade. É reconhecer o valor do outro, do trabalho do outro, da espera do outro.

    No fim da noite, entre pratos bem executados e conversas que insistem em florescer apesar dos desencontros, permanece a sensação de que o tempo segue sendo o ingrediente mais delicado de qualquer experiência, e também o mais negligenciado. Respeitá-lo é, no fundo, um ato de elegância. E de consciência.

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