O tempo como medida de respeito à mesa e à vida
Jantar no Skylab reúne talento e técnica, mas expõe atraso crônico que transforma pontualidade em exceção
Na noite desta quarta-feira (25), o alto do Othon, em Copacabana, reafirmou sua vocação como mirante privilegiado da cidade e cenário de encontros. No Skylab, os chefs Thiago Castanho e Rubens Gonçalo assinaram um jantar em cinco tempos concebido como uma travessia sensorial pelo bacalhau norueguês, ingrediente que cruza oceanos e histórias até chegar às mesas brasileiras. A iniciativa, apoiada pelo Conselho Norueguês da Pesca (NCP), reuniu técnica, narrativa e brasilidade em um menu preciso, com destaque para o notável bao de tempurá de bacalhau da Noruega com açaí, sweet chilli, picles de chuchu e coentro. Ainda assim, a experiência acabou atravessada por um traço recorrente do ambiente social carioca.
O convite indicava 19h. Um horário preciso, como deve ser quando a cozinha organiza seu ritmo e o serviço desenha sua coreografia. Cinco tempos exigem cadência, temperatura, sincronia. Exigem, sobretudo, respeito ao relógio. No entanto, como tantas vezes se repete na vida social brasileira, o tempo foi tratado como elástico pela organização. Atrasos sucessivos empurraram o início da experiência. Convidados chegaram quando já deveriam estar sentados. A pontualidade, mais uma vez, foi deslocada para o campo da ingenuidade. Quem chegou no horário assistiu ao curioso paradoxo de ser, naquele contexto, o desajustado.
Há, claro, as urgências da vida profissional, os imprevistos inevitáveis, a cidade que por vezes conspira contra o planejamento. Mas existe uma linha tênue entre o imponderável e o hábito. E o hábito de atrasar, quando naturalizado, revela algo mais profundo do que simples desorganização: expõe uma falha de pacto coletivo. O tempo é o ativo mais democrático e, ao mesmo tempo, o mais desigual na forma como é respeitado. Todos o possuem na mesma medida, mas nem sempre o reconhecem como valor do outro. Em eventos de natureza corporativa, essa distorção ganha ainda mais peso. Há investimento, planejamento, propósito. Há equipes inteiras trabalhando para que cada minuto faça sentido.
Quando o atraso vira regra, não é apenas o cronograma que se esgarça. Rompe-se a delicadeza do encontro. A experiência perde ritmo. A cozinha, que deveria conduzir a narrativa, passa a remendar o tempo. E o que era para ser celebração se transforma, ainda que de maneira sutil, em concessão. Talvez esteja na hora de reposicionar a pontualidade não como rigidez, mas como gesto de educação. Chegar no horário não é apenas cumprir uma formalidade. É reconhecer o valor do outro, do trabalho do outro, da espera do outro.
No fim da noite, entre pratos bem executados e conversas que insistem em florescer apesar dos desencontros, permanece a sensação de que o tempo segue sendo o ingrediente mais delicado de qualquer experiência, e também o mais negligenciado. Respeitá-lo é, no fundo, um ato de elegância. E de consciência.





