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Esquinas do Esporte

Por Alexandre Carauta, jornalista e professor da PUC-Rio Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Pelos caminhos entre esporte, bem-estar e cidadania

Fla-Flu entre a mística salvadora e uma opaca realidade

Lampejo decisivo do artilheiro não ofusca a mecanização de um futebol progressivamente desfalcado de pés inventivos, pés tropicalistas

Por Alexandre_Carauta Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
22 jul 2025, 12h05 • Atualizado em 22 jul 2025, 12h13
Pedro se ajoelha para beijar o escudo do Flamengo no gramado do Maracanã
Pedro reverencia o escudo rubro-negro sobre o gramado do Maracanã, depois de arrematar a vitória no morno Fla-Flu de domingo  (Adriano Fontes/Flamengo/Reprodução)
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  • Fla-Flu enverga a aura das obras clássicas: resiste ao tempo, às distorções, aos maus-tratos. Reluz eternidade, diria Nelson Rodrigues.

    Nem sempre o gramado corresponde à mística cintilante do confronto, como se viu domingo passado. Muita pegada, nenhum brilho, porém uma redenção de almanaque.

    Partida truncada. Até os insones cochilavam de tédio. O zero a zero persistiria infinito não fosse o oportunismo do centroavante ressuscitado. Felizmente a mística do Fla-Flu se mantinha acordada.

    Recompensa ao time – nos termos atuais – propositivo, o gol nascera bem antes do escanteio vadio que o originou. Estrelas o esboçaram, com caligrafia de folhetim, desde a providencial reintegração do atacante acusado de  negligência.

    Ao pragmatismo esportivo e aos deuses da bola, pouco importava se a roupa suja despejada no ventilador já estaria satisfatoriamente lavada. Era noite de Fla-Flu, cheiro de volta por cima. Hora de suspender a treta e reaver o destino.

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    O presumível clichê cantava forte. Nem os analfabetos na quintessência futebolística estranharam o carrinho fatal aos 40 da etapa final. Todos o intuíram quando o predestinado Camisa 9 deixava o castigo com sorriso de véspera, um sorriso confiante e dissimulado, sem dar bandeira de que resolveria a parada.

    “Pedro é cruel”, decretaria o saudoso Januário de Oliveira. (Seus inesquecíveis bordões traduzem a irreverente leveza com a qual o futebol jamais deveria deixar de ser tratado.) Pedro premeditara sequências instagramáveis para a comemoração: frase de efeito na camisa (“Jesus é suficiente”), beijo ajoelhado no escudo rubro-negro, saudações coreografadas. O desfecho dionisíaco salvava o Flamengo, o artilheiro na berlinda, o duelo enfadonho.

    O lampejo não ofusca sinais de uma progressiva contradição à nossa identidade cultural simbolizada pelas chuteiras. Enredos andam predominantemente mecânicos. Atrofiam o drible, o lançamento, o entrelace com a arte.

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    Parecem rendidos à cadência industrial, ao pendor do cálculo, à instrumentalização da vida – tintas ardentes da modernidade. Nelas se banha o esporte profissional sob a regência algorítmica.

    O recente Fla-Flu seguiu tal caminho. Favorecida pelo deserto criativo e pelos pulmões afiados, a marcação prevaleceu. Arquitetada com rigor científico, asfixiou as tramas ofensivas, a beleza, a emoção.

    Nenhum chute perigoso, nenhum fino na trave, nenhuma defesa milagrosa, nada que lembrasse vagamente o Maraca dominical. Fora o arremate decisivo, um marasmo.

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    Talvez as estatísticas contorçam a realidade e encontrem algum leite na pedra. Talvez o torcedor, entorpecido de paixão, se contente com arroubos místicos e resultados favoráveis, talvez se acostume à estiagem de fintas desconcertantes, lances inventivos, passes geniais, da elegância incandescente que arrebata a arquibancada.

    Talvez o torcedor nem perceba a gradual escassez, no time do peito e na seleção, dos pés arteiros e artísticos que brotam do chão de terra, do morro, do asfalto, fontes do nosso prestígio internacional e dos canecos conquistados. Pés tropicalistas, sem os quais o futebol fica irremediavelmente desbotado, insípido, chato.

    Talvez o diagnóstico configure um exagero saudosista. Talvez tenhamos alçado o sarrafo alto demais, e seja oportuno ajustá-lo aos avanços táticos, musculares, cardiorrespiratórios que intensificam e automatizam as dinâmicas esportivas.

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    Ou talvez atravessemos uma entressafra, e logo reencontraremos esquemas e jogadores insinuantes, tão habilidosos quanto cerebrais. Talvez logo voltaremos a contemplar maestros e dribladores vorazes. Talvez, igual Pedro, logo saiamos do castigo e os anjos tornem a nos lambuzar de pés vanguardistas, inalcançáveis à prancheta, à inteligência artificial, às retrancas camufladas de eufemismos.

    Enquanto isso, sempre haverá a mística do Fla-Flu. A indestrutível e salvadora mística dos Fla-Flus.

    _­­­­­­­­­­­_____

    Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física. Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.

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