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Esquinas do Esporte

Por Alexandre Carauta, jornalista e professor da PUC-Rio Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Pelos caminhos entre esporte, bem-estar e cidadania

Recados do bobinho esnobado numa praia de domingo

É preciso preservar brincadeiras assim, preciosos estímulos à coordenação motora, ao raciocínio, à sociabilização, ao humor

Por Alexandre_Carauta Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
22 fev 2025, 14h30 • Atualizado em 28 fev 2025, 11h07
Crianças jogando bola num campinho de terra
 (Pixabay - Sasin-Tipchai/Reprodução)
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  • Se fizermos um pouco de silêncio, ouviremos o murmúrio aflito. Bobinho, um-toque, golzinho pequeno (sublime redundância) e brincadeiras da mesma matriz suplicam: não nos abandonem!

    Pouco a pouco, evaporam do recreio, da pracinha, da praia. Logo a praia, refúgio de diversidade e diversão popular.

    “Bora brincar de bobinho”, convida o sorriso do guri, bola na mão, fogo de criança. Os colegas ensaiam aceitar, mas desistem diante da areia tomada por redes e barracas de aluguel. Preferem continuar nos celulares.

    A cena, testemunhada domingo passado, emite dois alertas. O primeiro diz respeito à elitização do espaço historicamente banhado pela mistura, pelo lazer democrático.

    A proliferação de serviços e atividades demarcadas à beira-mar gera trabalho, renda, consumo. Passada do ponto, gera também exclusão. Adultera a genética praiana.

    Nunca é fácil, em qualquer balneário urbano, calibrar a mordida do privado sobre o público. Implica a conciliação de interesses sociais, comerciais, políticos em torno de um mercado prodigioso. Areias cariocas movimentam R$ 4 bilhões anuais, estima a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico.

    O desafio envolve a gestão pública, o empresariado, a população. Do compromisso conjunto depende a praia – e o Rio – que desejamos preservar.

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    O segundo alerta berra outra trepidação sociocultural. Quando a alma infantil atrofia o apetite lúdico, é sinal de que a correção de curso revela-se urgente.

    Num mundo são, ninguém esnobaria a bola, a amarelinha, a ciranda – especialmente uma criança. Brincadeiras assim seguiriam tão necessárias quanto as fábulas, os sonhos, as asas da arte, da literatura, da música, quanto a liberdade anárquica das fantasias, os banhos de mangueira, os cafunés de vó.

    Num mundo solar, não seriam usurpadas pelo algoritmo e seu mar de telas, pela cadência utilitária dominante. Num mundo inteligente, elas teriam um lugar cativo protegido das ferrugens do tempo e das imbecilidades. Elas nos fariam companhia igual um bicho de estimação, e nos vacinariam contra as asperezas.

    O despretensioso bobinho estimula a coordenação, o raciocínio, a sociabilização, o humor. Ensina a mexer o corpo e a mente, a conviver, a espairecer em grupo. Alfabetização prosaica, invisível, nem por isso menos importante.

    Sem percebermos, os dentes afiados do cotidiano trituram essas brincadeiras. Viram pó à margem do caminho, penumbras no sótão da memória.

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    Confundimos despretensão com desimportância e gradativamente as dispensamos, como se não fizessem uma falta danada, como se não equivalessem a uma preciosa brisa no verão escaldante do Rio. Permitimos que o pendor instrumental as atire ao relento.

    “A gente se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta”, observa Marina Colasanti. Sem frestas à resignação, a formidável escritora arremata: “A gente se acostuma, eu sei, mas não devia”. A advertência bordada em versos emblemáticos é uma das joias legadas pela vencedora do prêmio Machado da Assis, que partiu faz um mês, aos 87 anos.

    O texto instigante, publicado no Jornal do Brasil em 1972, continua desgraçadamente conectado com a realidade moderna. Traça um inventário de renúncias em conta-gotas banalizadas na rotina, pequenas mutilações à vida.

    Não basta vestir a carapuça. É preciso atender ao convite do bobinho, do golzinho, da altinha, do pique, do queimado. É preciso nos reacostumarmos a brincar.

    Viva Marina!

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    Bolinha pro alto

    A queda prematura de João Fonseca na 11ª edição do Rio Open não arranha o potencial do prodígio de 18 anos, estampado na arquibancada festiva. A galera lotou a quadra principal tanto para apreciar o tenista virtuoso, sua poderosa direita, quanto para celebrar o ídolo em gestação, esperança de voltarmos à elite mundial. Quando a sucessão de Guga não mais lhe pesar nos ombros, as projeções audaciosas tenderão a se confirmar.

    Tampouco a eliminação precoce dos brasileiros, na competição individual, lanhou a densidade esportiva, cultural e econômica conquistada pelo principal torneio de tênis da América do Sul. Reflete-se não só na procura fulminante por ingressos, esgotados em meia hora, e nos patrocínios crescentes. Ecoa também no vaivém alto-astral dos corredores e na aquarela de sotaques que retratam a expansão da iniciativa sob a batuta da IMM.

    “O evento dá sold out em minutos. Está consolidado no calendário, com impacto direto de mais de R$ 150 milhões”, destaca Marcos Barbato, diretor de Criação e Tecnologia em Live Marketing da Be Interactive, produtora dos games e interações para os espaços da Shell e da Claro no Rio Open. Entusiasta do esporte e da rima entre diversão e tecnologia digital, Barbato acrescenta:

    “Marcas são coautoras da atmosfera de entretenimento e de integração com a cidade. No espaço da Shell, por exemplo, a nostalgia divertida do pegador de bolinha é combinada com a imersão num game de tênis ambientado no Rio. Já o espaço da Claro trouxe um estúdio de podcast, recebendo notáveis do mundo do tênis e da mídia social, e um desafio pelo qual o participante testa a velocidade do saque num sistema imersivo em que a interface é o próprio jogador. Essas diversões envolvem pais, filhos e avós, amigos ou desconhecidos, num clima de celebração”.

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    O êxito do Rio Open ATP 500 embala a perspectiva de ampliação em 2026, com a possibilidade de ocupar o centro do Jockey. A bolinha da vez insinua voar mais alto.

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    Poupem São Pedro

    Felizmente os gestores do Carioca renderam-se ao óbvio e desmarcaram jogos às quatro da tarde sob o maçarico instalado na capital fluminense. Conveniências empresariais movidas pelos direitos de transmissão – legítimas – jamais devem se impor à preservação da vida. Simples assim.

    Calor extremo torna perigosa a prática esportiva. Pode causar, por exemplo, distúrbios metabólicos e cardiorrespiratórios. O risco estende-se a atletas de alto rendimento.

    Sintoma do descaso ambiental, a escalada térmica transforma o excepcional em corriqueiro. Nada nos autoriza a prever verões menos severos. Pelo contrário.

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    O novo padrão, aparentemente irreversível, incide sobre o planejamento do aquecido setor de eventos esportivos. Exige ajustes nos horários de disputas em ambientes não climatizados.

    A inadiável responsabilidade envolve administradores, investidores, jogadores. Hesitar em efetivá-la, ou adotá-la só de forma extraordinária, indica uma negligência nociva para a saúde e para os negócios.

    O desejável amadurecimento pouparia São Pedro de ser sistematicamente usado como desculpa. O calorão carioca nessa época é tão surpreendente quanto o carnaval.

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    Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física. Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.

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