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Fabiano Serfaty

Por Fabiano M. Serfaty, clínico-geral e endocrinologista, MD, MSc e PhD. Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Saúde, Prevenção, Tratamento, Qualidade de vida, Bem-estar, Tecnologia, Inovação médica e inteligência artificial com base em evidências científicas.

O Brasil que não sabe que tem diabetes

O Glicada na Estrada promove o diagnóstico e a educação em diabetes em regiões vulneráveis, onde o suporte assistencial é escasso.

Por Dr. Fabiano M. Serfaty e Dra. Dra. Julia Magarão Costa. 20 mar 2026, 18h01 | Atualizado em 20 mar 2026, 18h12
O Glicada na Estrada, projeto que leva testagem e educação em diabetes a regiões com acesso limitado a exames laboratoriais.
O Glicada na Estrada, projeto que leva testagem e educação em diabetes a regiões com acesso limitado a exames laboratoriais. (veja rio/Veja Rio)
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Dr. Fabiano M. Serfaty: Milhões de brasileiros vivem hoje com diabetes sem jamais terem recebido um diagnóstico formal. Muitos só entram no sistema de saúde quando as complicações já estão instaladas. Apesar de critérios diagnósticos bem definidos, o rastreamento da doença segue irregular, e o acesso ao diagnóstico ainda depende do território onde se vive. Grande parte do impacto humano e econômico do diabetes decorre do diagnóstico tardio. Identificar a doença antes das complicações não é apenas uma questão clínica, mas uma estratégia central de saúde pública. A hemoglobina glicada, ou HbA1c, reflete a média da glicose no sangue nos últimos dois a três meses. Diferentemente da glicemia de jejum, não exige preparo prévio e sofre menos variações pontuais. Por isso, é hoje uma das ferramentas mais eficazes para o rastreamento populacional do diabetes e do pré-diabetes. No Brasil, onde milhões de pessoas desconhecem sua condição de saúde, ampliar o acesso ao exame de hemoglobina glicada significa antecipar diagnósticos, reduzir complicações e evitar custos futuros ao sistema público e privado. É nesse cenário que surge o Glicada na Estrada, projeto que leva testagem e educação em saúde a regiões com acesso limitado a exames laboratoriais. A iniciativa foi idealizada e é conduzida pela endocrinologista Dra. Julia Magarão Costa, a quem convidei para detalhar este importante trabalho. O Glicada na Estrada já levou a dosagem de hemoglobina glicada a múltiplas cidades brasileiras, avaliando milhares de pessoas fora do circuito tradicional de exames laboratoriais. A iniciativa identificou centenas de casos de diabetes e pré-diabetes até então desconhecidos, antecipando diagnósticos que, em muitos casos, só ocorreriam após o surgimento de complicações. Ao reduzir o atraso diagnóstico, o projeto contribui para intervenção precoce, menor risco de eventos cardiovasculares e potencial redução de custos evitáveis ao sistema de saúde. Quantos Estados já receberam o Glicada na Estrada até agora e quantas pessoas foram avaliadas ao longo do projeto?

Dra. Julia Magarão Costa:  O projeto já passou por 11 estados brasileiros e já acolheu mais de 2.000 pacientes.

 

 

Dr. Fabiano M. Serfaty: Entre os participantes testados, quantos novos diagnósticos de diabetes e pré-diabetes foram identificados?

Dra. Julia Magarão Costa: Já foram realizados mais de 500 diagnósticos novos de pré diabetes e diabetes. Além disso, mais de 400 pacientes com diabetes prévio foram avaliados em relação ao controle da doença, e mais da metade precisava de ajustes no tratamento.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Os resultados confirmam a dimensão do subdiagnóstico do diabetes no Brasil? O que mais chamou atenção ao analisar esses dados?

Dra. Julia Magarão Costa: Mais da metade dos exames realizados estavam alterados, o que reforça sim a necessidade de melhorar a abordagem em relação ao diabetes no Brasil. Mas, é importante destacar que existe um viés de seleção, uma vez que os pacientes já são previamente selecionados pelas equipes de saúde locais para a realização do exame.

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Dr. Fabiano M. Serfaty: Há diferenças relevantes entre as cidades visitadas que revelem desigualdade de acesso ao diagnóstico?

Dra. Julia Magarão Costa:  Sim, é possível observar diferenças entre as localidades, porém como os pacientes selecionados são exatamente aqueles com maior risco de apresentarem a doença, não é possível afirmar sobre dados de prevalência até o momento

Dr. Fabiano M. Serfaty: Quais localidades estão previstas para as próximas etapas do projeto?

Dra. Julia Magarão Costa: Estão previstas 2 ações maiores para esse ano. Uma no Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais em junho, em parceria com o Instituto Kindala e outra no litoral Cearense em agosto, em parceria com o Instituto Ventus.

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Dr. Fabiano M. Serfaty: Do ponto de vista do paciente, qual é o principal benefício de identificar o diabetes por meio da hemoglobina glicada antes do aparecimento das complicações?

Dra. Julia Magarão Costa: A realização do diagnóstico precoce e início de tratamento de maneira oportuna reduz a morbimortalidade da doença. Ou seja, o paciente tem menor risco de morrer por diabetes e suas complicações, além de ter mais chances de preservar sua qualidade de vida.

Dr. Fabiano M. Serfaty: Os casos diagnosticados pelo projeto conseguem ser encaminhados para acompanhamento no sistema de saúde? Como funciona essa transição do rastreamento para o cuidado contínuo?

Dra. Julia Magarão Costa: Os atendimentos sempre são feitos em parceria com as equipes de saúde do local, o que facilita o fluxo para garantir o acompanhamento a longo prazo.

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Dr. Fabiano M. Serfaty: Se iniciativas como essa fossem ampliadas, qual impacto real poderiam gerar em termos de prevenção de complicações e redução de custos para o sistema de saúde?

Dra. Julia Magarão Costa: No Brasil quase metade dos pacientes não sabem que têm diabetes. O custo estimado com diabetes no país em 2026 é de mais de 15 bilhões de reais. Estudos demonstram que a realização de rastreio oportuno e início de tratamento precoce pode reduzir em quase 50% esses gastos. Já em relação a prevenção de complicações, é sabido que uma reduções modestas de HbA1c podem gerar grandes impactos na morbimortalidade. A redução de 1% de HbA1c pode gerar uma diminuição de 37% no risco relativo de complicações microvasculares (como retinopatia, nefropatia e neuropatia) e uma redução de 14% no risco relativo de infarto do miocárdio.

 

Dr. Fabiano M. Serfaty: Quem pode participar das ações do Glicada na Estrada e como a população pode acompanhar as próximas cidades, datas e formas de participação?

Dra. Julia Magarão Costa: O projeto conta com uma equipe multidisciplinar para realização dos exames e atendimentos, além de atividades para promover educação sobre diabetes em sala de espera. Mas não precisa ser profissional de saúde para atuar no projeto. Todas as pessoas podem contribuir com a organização logística das ações. Para acompanhar os desdobramentos e as próximos passos do projeto, acesse o site oficial www.projetoglicadanaestrada.org e siga o perfil no Instagram:@glicadanaestrada

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