Anna Bella Geiger: cartografia de uma vida
Aos 92 anos, artista transforma memória, perda e sobrevivência em uma cartografia crítica do presente
Conheço Anna Bella Geiger há mais de 20 anos, desde que comecei a colecionar arte. Mas a convivência se intensificou quando assumi a direção do Parque Lage e, agora, com esta edição do Projeto Maravilha, nos aproximamos ainda mais. Foram meses de encontros, visitas técnicas e conversas longas. Com Anna Bella, o pensamento nunca se organiza em linha reta. Ele deriva, retorna, atravessa camadas.
Aos 92 anos, ela mantém uma energia marcada pelo rigor, curiosidade ativa e pela disposição de continuar investigando como se ainda estivesse começando.
Quando surgiu o convite para criar uma obra para o Projeto Maravilha, diante de um dos ícones mais fortes da paisagem carioca, ela foi direta: ali não cabia o efêmero, precisava haver objeto. Algo que tivesse presença, sem a ilusão da permanência.
A solução veio na forma de uma gaveta. Algo que ela já vinha trabalhando desde os anos 1990 e que, agora, reaparece como território. Um continente portátil para suas cartografias, dobraduras e distorções geográficas, questões recorrentes em sua produção desde a década de 1970. Para Anna Bella, mapas nunca foram representações neutras: são disputas de escala, de poder e de narrativa.
Mas foi numa conversa aparentemente lateral que o eixo mudou e entendi melhor o que sustenta o trabalho dela. Saímos da cartografia e entramos na vida. Sem que eu perguntasse diretamente sobre dificuldades, ela desviou para uma frase simples: “A mensagem é trabalhar, tem que trabalhar muito.” E seguiu, com uma franqueza que desarma qualquer tentativa de romantização: “Trabalhar é mental e físico também. Porque você tem que mediar as coisas o tempo todo. A minha trajetória foi muito atropelada com quatro crianças pequenas, uma vida economicamente muito apertada sempre. Eu sofria ao ver que não podia mandar meus filhos para fazer judô. Minha filha queria dançar e eu não podia pagar. Os dentes estavam manchados de antibiótico e eu não podia levar ao dentista. Não estou chorando, é constatação.”
De fato, a fala não veio carregada de ressentimento. Veio limpa e, talvez por isso mesmo, mais dura.
A história dela atravessa algumas das zonas mais tensas do século 20. A família da mãe foi exterminada na guerra. Ainda criança, entre sete e oito anos, ela já percebia o peso desse silêncio. Cresceu no Catete, na Rua Santo Amaro, num ambiente de operários, longe de qualquer ideia de isolamento social. “O filho da empregada vinha brincar lá em casa”, ela lembra. “Não era uma bolha.”
Mais tarde, já adulta, a vida se reorganiza sob outra forma de tensão. Durante a ditadura, o marido é preso. Anna Bella fica sozinha com quatro filhos pequenos, vivendo um período de enorme instabilidade financeira e emocional. “Nessa época, eu fazia patê em casa pra vender. Não há discurso heroico nisso, há sobrevivência. Meu marido foi preso durante o regime militar. Todos nós ficamos com medo, esses dias de ameaça dão medo para o resto da vida.”
Em uma das conversas durante o desenvolvimento do Projeto Maravilha, o curador Ulisses Carrilho fez uma observação que ficou ressoando. Disse que Anna Bella é, à sua maneira, uma espécie de Eunice Paiva. Não como comparação direta, mas como imagem de uma mulher que atravessou a violência política, sustentou a família sob pressão e seguiu trabalhando, sem transformar isso em narrativa de si mesma.
Talvez seja nesse ponto que a cartografia, no trabalho dela, deixe de ser conceito e se torne experiência vivida. Para quem atravessou deslocamentos, perdas, ameaças e reconfigurações constantes, território nunca é apenas espaço. É memória e resistência.
Quando ela fala da gaveta que encontrou num ferro-velho perto do Morro da Conceição, nos anos 1990 (que inspirou a obra hoje instalada no Pão de Açúcar, como parte do Projeto Maravilha), descreve como uma “epifania”. Aquele objeto poderia conter, ainda que provisoriamente, as geografias que ela vinha elaborando há décadas. Conter, no entanto, não é resolver. Para a artista, “a gaveta não guarda o mundo, ela organiza uma versão”.
O título que surge agora, Typos Terra Incognita, parte de mapas antigos onde regiões inteiras aparecem obscurecidas, não mapeadas. A terra incógnita, para ela, se inscreve no presente e projeta um futuro incerto. “Ela reflete uma imagem que vai além da paisagem, ligada à instabilidade de um futuro que parece perigoso. A ecologia do planeta está em risco.”
Na obra, aparecem também anjos barrocos, inspirados nos mapas antigos, soprando ventos nos pontos cardeais, como lembrança de que toda orientação é construída. Nada é neutro.
Conviver com Anna Bella nesses meses foi perceber que, aos 92 anos, o trabalho continua sendo movimento. Ela segue produzindo a partir de perguntas, sem acomodação, mantendo a obra em estado de travessia. No que faz, o mundo surge tensionado e organizado em camadas que revelam suas fissuras. Ao longo desse período, o que mais me impressionou foi a sua disponibilidade absoluta para o trabalho. A energia com que ela acompanha cada etapa, a curiosidade, o envolvimento físico, o prazer evidente em fazer. Vi Anna Bella atravessar dias inteiros de produção em um galpão sob calor intenso, discutindo soluções, observando materiais, pensando a obra em processo.
E, na abertura do Projeto Maravilha, permaneceu por horas conversando com o público, apresentando seu trabalho com um entusiasmo que não se esgotava. Há nisso uma vitalidade rara, uma pulsão que ensina tanto quanto a própria obra. E talvez seja essa a maior lição que fica: trabalhar é uma forma de seguir em frente. Mental e fisicamente. Mesmo quando tudo em volta insiste em se tornar, outra vez, incógnita.







