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Gilberto Ururahy

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Especialista em medicina preventiva

Encontro com a prevenção: a obesidade e o estilo de vida

Especialista destacou o perigo que os ultraprocessados representam para a saúde

Por Gilberto Ururahy 20 mar 2026, 11h54 •
Professor Walmir Coutinho, de pé, faz palestra na Med-Rio.
A obesidade está diretamente associada a alarmantes índices de mortalidade: todos os anos mata quase cinco milhões de pessoas no mundo.  (Divulgação/Reprodução)
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  • Dando continuidade à série “Encontro com a Prevenção”, que realizamos com frequência na Med-Rio, recebemos na última edição, realizada esta semana, o professor Walmir Coutinho, doutor em Endocrinologia pela USP, ex-presidente da World Obesity Federation, é professor da PUC-Rio, coordenador do Curso de Pós-Graduação em Endocrinologia e Metabologia da PUC-Rio e é professor Livre-Docente da UFRJ. Coutinho abordou o tema “Obesidade e estilo de vida”.

    O professor começou sua fala destacando que a obesidade é uma doença traiçoeira, por ser silenciosa, apesar de progressiva e crônica. Ela está diretamente associada a alarmantes índices de mortalidade: todos os anos a obesidade mata quase cinco milhões de pessoas no mundo. “É como se a gente abrisse o jornal todo dia de manhã e lesse a notícia de que caíram 76 aviões do tamanho de um Airbus ou de um Boeing 737”, comparou, destacando que o impacto da obesidade nas doenças no Brasil custa ao país 190 bilhões de reais. “Tudo que o país investe em educação é menos do que isso”, destacou.

    Coutinho frisou que são inúmeras as causas da obesidade, podendo ser tanto genéticas quanto ambientais, como grau de apetite, controle do apetite, força dos hábitos dietéticos. “Tudo isso é fator de obesidade. O ambiente urbano, por exemplo, que predispõe o sujeito a caminhar ou a pedalar favorece muito o controle da obesidade”, destacou ele.

    O professor afirmou acreditar que a obesidade é uma doença transmissível. Baseado em um artigo publicado no New England Journal of Medicine, principal periódico de medicina do mundo, mostrando os hábitos dos moradores de Framingham, subúrbio de Boston. De acordo com o estudo, a relação interpessoal pode ser um fator de risco para desenvolvimento da obesidade. “Quando duas pessoas do estudo diziam que eram melhores amigos, o risco de um transmitir a obesidade para o outro era três vezes maior do que no caso de uma pessoa que mora ao lado de um vizinho obeso”, apontou.

    Coutinho definiu o alimento ultraprocessado como “o grande vilão” da obesidade. “Comida que não estraga é porcaria”, resumiu. É o caso de hambúrguer, pizza, nuggets, salgadinhos, doces, barras de cereal, refrigerantes. Segundo ele, os ultraprocessados são mais indutores de alimentação alterada do que o próprio açúcar. “A gente achava que os alimentos altamente palatáveis, principalmente açucarados e gordurosos, fossem os piores. Mas hoje a gente já sabe que o ultraprocessado parece ser o pior de todos”, esclareceu.

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    O impacto na saúde pública é imenso: 175 mil mortes por doença cardiovascular vão acontecer no Reino Unido até 2030 se não for reduzida a ingestão de alimentos ultraprocessados. Se fosse reduzida à metade o consumo desses alimentos, significaria 22 mil mortes a menos por doença vascular. “É uma questão de vida ou morte conseguir que as pessoas parem de consumir ultraprocessados”, alertou.

    Coutinho esclareceu que a dopamina é um fator de desestabilização terrível do organismo e que pode estar relacionado diretamente ao ganho ou não de peso. “As crianças ficam grudadas nas telas. É dopamina sendo impulsionada. Estudo mostrou que mulheres que bebem todos os dias perderam peso. E por que? Porque seu sistema de recompensa já está suprido pelo álcool. Estamos virando escravos de dopamina”, resumiu.

    Professor Coutinho apresentou as relações entre a indústria do tabaco e a de gêneros alimentícios ultraprocessados, ambos estimulantes de dopamina. “O modelo de negócio central não é só financeiro, é estrutural. Tabaco e ultraprocessado compartilham características: produto potencialmente aditivo, produto hiperpalatável, uso repetitivo, consumo frequente, escala massiva, externalidades de saúde. O link está muito claro. Big Food é a nova Big Tobacco. Há um debate crescente em saúde pública. A maioria entende que a indústria de ultraprocessados replica, sim, o modelo do tabaco, e estão chamando isso de modelo epidêmico industrial”, pontuou.

    Coutinho apresentou ainda os oito tipos de comer alterado:  o hedônico, emocional, o beliscador, por fissura, noturno, restritivo, por vício e compulsivo. O hedônico é o consumo de alimentos para obter prazer, em vez de saciar a fome. Geralmente associado à ingestão de alimentos altamente palatáveis, ricos em gordura e açúcar. O emocional é quando a pessoa está triste, ansiosa, e vai tratar isso com comida. Comida quase sempre altamente palatável, junk food. O beliscador, também conhecido como grazing, é a pessoa que come pequenas quantidades várias vezes ao dia. Comer por fissura é o craving. “Esse craving é o que tem hoje mais comprovação científica de relevância, porque está sendo demonstrado que, para certos remédios, como naltrexona com bupropiona, que bloqueia o sistema límbico de recompensa, você consegue prever o quanto a pessoa vai emagrecer se ela consegue controlar o craving ou não. Se você controlar o craving, ela emagrece bem”, esclareceu.

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    Há ainda o comer noturno. “O criador dessa classificação foi Albert Stunkard, um dos maiores gênios da obesidade. É o único transtorno alimentar com diagnóstico psiquiátrico referendado pela Associação Psiquiátrica Americana”, disse. Comer restritivo é um comportamento alimentar muito frequente em anorexia e bulimia. Comer por vício é quando a pessoa, mesmo sem fome, se sente muito atraída por determinado alimento.

    Coutinho abordou o uso de remédios para emagrecimento: sibutramina, naltrexona com bupropiona, liraglutida e semaglutida, as famosas “canetinhas emagrecedoras”. O professor destacou a relevância delas para a perda de peso hoje. “É a maior revolução que a gente já viu em tratamento da obesidade. Para quem toma, a comida não tem tanta graça, as coisas de que você mais gosta não dão tanto prazer quando você come. Parece ter também algum efeito que ainda não está totalmente descrito, mas há evidências de um efeito no sistema límbico de recompensa. Tem efeito no controle da fome também. Diminui a fome, estimula a saciedade e parece ter um efeito no sistema límbico, diminuindo inclusive o consumo de álcool”, esclareceu.

    Como demonstrou professor Coutinho em sua explanação, a manutenção da saúde deriva de um combinado de fatores, além do controle do peso, prática de exercícios e alimentação equilibrada. É preciso levar em conta boas noites de sono reparador e realização periódica de check-ups para se buscar a longevidade com saúde.

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    Saúde é prevenção!

    Gilberto Ururahy é médico há mais de 40 anos, com longa atuação em Medicina Preventiva. Em 1990, inaugurou a Med-Rio Check-up, líder brasileira em check-up médico e medicina preventiva. É detentor da Medalha da Academia Nacional de Medicina da França, é membro honorário da Academia Brasileira de Medicina de Reabilitação e coautor de livros: Como tornar-se um bom estressado (editora Salamandra), O cérebro emocional (Rocco), Emoções e saúde (Rocco) e Saúde é prevenção (Rocco, com o médico Galileu Assis). Ururahy é diretor da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Rio) e Chairman do Comitê de Saúde e diretor da Câmara de Comércio França-Brasil e Coordenador do Comitê de Saúde.

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