Rio em carne viva
Enxugando as lágrimas seguimos sem um plano eficaz de combate à violência carioca
O assunto da semana foi — de novo — a violência carioca. Um espetáculo de horror. Corpos enfileirados, uma jovem abatida com um tiro na cabeça na Linha Amarela. A cidade sangra em plena luz do dia.
Enquanto isso, multiplicam-se os furtos de celulares, o caos no trânsito, a selvageria cotidiana. O carioca adoece, lentamente, sem perceber. E os mais velhos, então? Nós vivemos em estado de alerta permanente — tememos o fim, o inesperado, e até as bicicletas elétricas que rasgam as ruas em zigue-zague, sem lei nem compaixão. Para o pedestre grisalho, resta rezar para não ser atropelado, partido em mil pedaços na calçada que já foi cenário de risadas e chopp.
Como se o destino quisesse ironizar, tudo isso coincidiu com o Dia dos Mortos. A cidade estava tomada por caveiras, fantasias, maquiagem fúnebre — o Halloween que nunca foi tradição por aqui, mas que, de uns anos para cá, virou febre. Talvez porque seja “instagramável”, talvez porque o mundo tenha encolhido e a dor alheia virou entretenimento. Mas quem passou dos 50 ainda estranha: o culto à morte nunca foi tão pop.
E, paradoxalmente, nunca estivemos tão vulneráveis.
O Rio, outrora balneário de sol e alegria, hoje é uma cidade ferida. Nem dentro da igreja há paz: bastou o governador entrar para rezar e as palmas ecoaram, trazendo de volta o espectro dos tempos de “Ele sim, Ele não”. A direita vibra com o “tiro na cabecinha”, a esquerda discursa sobre direitos humanos — e nós, os mortais, ficamos no meio dessa guerra, apenas querendo atravessar a rua sem morrer.
Estamos cansados, calejados.
Já vimos promessas de pacificação, planos, programas — todos naufragaram. Agora contamos não os anos, mas os dias que ainda teremos força para caminhar no calçadão, dançar agarradinho, mergulhar no mar. Envelhecemos, mas a violência não envelhece: ela se renova, se reinventa, se multiplica.
E assim seguimos: contando corpos, velando meninas inocentes, escondendo o celular dentro da roupa como quem esconde a própria vida. Empurrando a carcaça cansada, tropeçando neste vale de lágrimas que insiste em se chamar Rio de Janeiro.
Juro: foi uma das semanas mais pesadas que já vivi nesta cidade.
E, quando o dia termina, o pranto é enxugado às pressas. Fingimos que está tudo bem. Tentamos seguir.
Mas me diga, sinceramente: você está conseguindo?





