Unaí, sertão de Minas, início dos anos 1970.
Meu pai era juiz, e dos bravos.
Como mandava a tradição familiar, nada era conversado com os filhos. Mudávamos de uma casa para outra, de uma escola para outra, de uma cidade para outra, sem qualquer espóiler.
Havia apenas dois tipos de explicação para qualquer questionamento: “é porque é” e “não porque não”.
O mundo era um mistério.
Um dia batem palma na varanda e vou atender.
– Um presente para o doutor.
É uma melancia.
Num lugar sem luz elétrica – logo, sem geladeira – e sob um calor do cão, a perspectiva de matar a sede numa melancia é o mais próximo do êxtase místico que uma criança de dez anos pode chegar.
Mas meu pai sentencia:
– Joga fora essa melancia!
Corta para os coadjuvantes da cena: quatro crianças suarentas, cobertas de pó vermelho. Quatro boquinhas salivantes, quatro pares de olhinhos incrédulos e imantados por uma melancia que deverá ir para o lixo.
Minha mãe tira a melancia da minha mão, vai até o fundo do quintal e a atira por cima do muro, num terreno baldio. Sem dizer uma palavra.
Restam-nos, à filharada inconsolável, duas opções: chorar a melancia perdida ou…
Optamos pelo “ou”.
Na primeira distração da minha mãe, pulamos o muro e devoramos a melancia esborrachada – e dulcíssima – ali mesmo, no terreno do vizinho.
Comemos com as mãos, que é a melhor maneira de se comer qualquer fruta. E com as mãos sujas, o que torna incomparável o sabor do que quer que seja.
Retornamos de cara lambuzada, vingados, dessedentados e felizes.
Meus pais também não conversavam muito entre si. Falavam um com o outro apenas a metade do essencial. Quase tudo era na base do não dito.
À noite, minha mãe finalmente não conseguiu se segurar:
– Tinha mesmo de jogar fora a melancia? Você viu a cara que as crianças fizeram?
Meu pai, impassível:
– Avisaram que iam tentar me matar. A melancia com certeza estava envenenada.
Meus três irmãos dormiram o sono dos saciados, nadando de braçada na memória da polpa vermelha salpicada de sementinhas pretas. Eu fui de pai-nosso em ave-maria, passando por creio-em-deus-pai e salve-rainha, madrugada adentro, os olhos arregalados, tentando me lembrar onde tinha ido parar o escapulário que me salvaria de passar o resto da eternidade no porão do purgatório, pagando pelo pecado da gula – e por três assassinatos culposos, premeditados, por motivo torpe e sem dar às vítimas possibilidade de defesa.







