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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Crônica, por Eduardo Affonso: Dando bandeira

Tudo começou com entalhes em ossos e pedras...

Por Daniela 18 jan 2026, 09h00 | Atualizado em 18 jan 2026, 09h48
 (IA/Divulgação)
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Crônica, por Eduardo Affonso: Dando bandeira Priorizar nos meus resultados Google

Tudo começou com entalhes em ossos e pedras. Depois vieram os desenhos nas paredes das cavernas, os sinais gravados em tabuletas de argila, os hieróglifos, os ideogramas, o alfabeto, para, por fim, chegamos ao ápice da comunicação escrita, que são os emojis e emoticons – uma espécie de retorno aos hieróglifos, só que mais toscos.

Pois um novo passo foi dado para a simplificação da linguagem escrita: as bandeirinhas colocadas ao lado do nome, nas redes sociais. Elas equivalem a meia hora de discurso – ou 15 laudas datilografadas em espaço 2. (Nota mental: Revisar este trecho antes de mandar, porque “lauda”, “datilografada” e “espaço 2” entregam a idade.)

Há bandeirinhas óbvias, como as do arco-íris, da foice e do martelo, da folhinha vegana. Outras são mais ambíguas: a vermelha, triangular, tanto pode significar que a pessoa é de esquerda quanto sinalizar perigo. A preta é dos anarquistas ou dos sem ideologia. A pirata insinua que a pessoa seja um hacker – ou apenas irônica.

Ainda vou embandeirar meu perfil também. Não só com os lábaros da Ucrânia, de Israel e do Irã (na versão antiga, com o leão, claro). Com isso, declaro meu apoio à democracia, ao direito internacional, ao direito de um povo a seu Estado.

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Não vai faltar a bandeira de Minas, a mais bonita de todas. (A do Japão é mais cool, a da Turquia é pura poesia e a de Pernambuco é imbatível, mas ninguém precisa saber que eu acho isso.)

Antes delas, bem ao lado do meu nome, eu quero ter mesmo é o Bandeira, meu poeta favorito. Com ele, a estrela da vida inteira – a que podia ter sido e que não foi. Será ele a companhia perfeita quando eu for-me embora pra Pasárgada – lá onde cada coisa estará em seu lugar e não haverá lirismo comedido, bem-comportado. Lá reencontrarei o nhambu chororó que foi minha primeira namorada e guardarei para sempre dentro do peito meu filho que não nasceu.

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A bandeira seguinte será branca, empunhada por Dalva de Oliveira, tal como a ouvia no rádio, aos dez anos de idade. Ali aprendi o quanto o Carnaval pode ser triste, e que a saudade (mal de amor, de amor) às vezes invade e não resta senão pedir paz.

Talvez ponha também um tamanduá-bandeira, como o daquela congada que não há Google capaz de encontrar (“Lá o alto do chão meu cachorro acuou / É tamanduá-bandeira / Lá no alto do chão meu cachorro acuou / É tamanduá-bandeira que meu cão pegou”). Uma congada que me leva de volta a lugares onde nunca estive, a uma Minas que não conheci, e que é mais minha que as muitas Minas que adentrei.

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Haverá uma porta-bandeira, daquelas que ainda se chamavam porta-estandarte, como a dolorosa preta Rosa, de Aníbal Machado – a porta-bandeira morta pelos ciúmes do mestre-sala, e cuja morte abriu uma clareira no Carnaval.

Não haverá bandeirantes – só, quem sabe, um linque para a bela “Saídas e bandeiras”, de Milton e Fernando Brant (“Juntar todas as forças pra vencer essa maré / O que era pedra vira homem / E o homem é mais sólido que a maré”). Ou a recomendação da obra personalíssima da Katia Bandeira de Mello Gerlach – que me fez reencontrar a patafísica.

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Arrematando tudo, bandeirinhas de Volpi, como as do São João da infância, quando ainda não se sabia que aquele tempo era um baú onde seriam guardadas as melhores lembranças, vividas ou inventadas.

Sem levantar bandeira alguma, ou dizer palavra, minha história estará, inteira, ali. O próximo passo é aprender escrita cuneiforme e desenhar bisões.

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Eduardo
(arquivo pessoal/Arquivo pessoal)
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