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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Crônica, por Eduardo Affonso: Eu vim para confundir

Placas “padrão Mercosul” não foram criadas para aumentar o número de combinações, mas para impedir que se identifique um carro por meio delas

Por lu.lacerda
7 set 2025, 07h00 • Atualizado em 7 set 2025, 11h03
afsasa
 (Gemini/Divulgação)
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    As placas “padrão Mercosul” não foram criadas para aumentar o número de combinações possíveis, mas para impedir que se identifique um carro por meio delas.

    – O senhor está bem? Viu que carro o atropelou?

    – Sim (gemido) eu tenho memória (gemido) fotográfica… Era um… um… Eclipse Cross HP, prata Sterling, modelo 2019, com farol de LED…

    – Placas?

    – OJS5I10. Não (gemido), acho que era 05JS10I. Ou talvez 0I5SJ1O. Não prefere que eu faça o um retrato falado dos 5 ocupantes?

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    Claro que deve ter havido estudos. Especialistas foram consultados. Formou-se um grupo de trabalho de alto nível. Não faltaram discussões, redesenhos, geração de alternativas. E deu nisso.

    Esqueceram que o cérebro agrupa as características percebidas como semelhantes. É muito mais fácil gravar BRA1959 (o cérebro lê como um grupo de letras e um grupo de números) que BR1A959, que o cérebro entende como um embaralhado de letras e números.

    – Não consegue mesmo se lembrar das placas, senhor?

    – Sim, me lembro perfeitamente (gemido). Elas tinham letras e depois uns números e mais letras, e aí (gemido) número de novo, ou talvez o contrário. Mas tinha letra e número – ou número e letra – isso (gemido) com certeza.

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    No lugar da placa branca com fundo preto, basicona, agora tem-se fundo prata com grafismos e letras pretas ou azuis com mais grafismos ainda. E QR Code, marca d’água e emblema do Mercosul. O nome da cidade vem secretamente, em letra de bula de antigamente, no canto direito.

    – O senhor conseguiu ver de onde era o carro?

    – Sim. Do Merco (gemido) sul…

    – Ótimo. Já ajuda bastante saber que o senhor não foi atropelado na Praça da Bandeira por algum carro da Ásia ou da Oceania.

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    Há quem escreva o telefone sem espaço entre o código de área, o prefixo e o número: 21978178529.

    Há quem anote o CPF sem ponto: 27999310458.

    Ou mande código de barras num bloco só 07797000000000000004501008460019310001802685.

    Alguém desse mesmo signo, ou filho do mesmo santo, deve ter imaginado que era chegada a hora de aplicar a ideologia de gênero às letras e algarismos, misturando tudo nas placas – sem tracinhos, pontos ou espaços, que só servem para perpetuar os papéis impostos pela sociedade alfanumérica opressora. Ou então tenha previsto a revolução das máquinas, e trocado as placas por captchas, cuja leitura sirva para diferenciar humanos de robôs.

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    Minha primeira experiência com um Uber de placa Mercosul foi o que já era de se esperar.

    – Estou aqui.

    – Aqui onde?

    – No local.

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    – Também estou no local. Não vejo nenhum carro com a sua placa.

    – Estou aqui.

    – Pode ligar o pisca-alerta, por favor?

    Pronto. O pisca-alerta – ou uma bandeira do Brasil, um guarda-chuva, um rojão – há de ser a salvação doravante. Pelo menos no caso do Uber. Para o atropelamento, tenho de pensar em outra estratégia.

    Porque essa placa, para mim, é um captcha. E eu nunca acertei um captcha de primeira. Vai ver, eu sou um robô, e não sabia.

    Eduardo
    (arquivo pessoal/Arquivo pessoal)
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