Crônica, por Eduardo Affonso: Implicâncias
“Tinha um sorriso lábios.” Onde mais poderia ter um sorriso? No cotovelo?
“Tinha um sorriso nos lábios.” Onde mais poderia ter um sorriso? No cotovelo?
“Lágrimas escorriam-lhe pelas faces.” Ainda bem, não? Imagine se escorressem pela nuca.
“Vi com estes olhos que a terra há de comer.” Já pensou se visse com o cóccix que o ortopedista há de tratar?
Sim, sei que não são exatamente pleonasmos, mas uma espécie de redundância literária, para dar ênfase. Chico Buarque escreveu “Me sorri um sorriso pontual” e ninguém reclamou que não haveria como sorrir um aceno ou um pontapé. Roberto e Erasmo falaram em “Detalhes tão pequenos de nós dois” e a música é tão bonita que duvido que alguém tenha questionado a inexistência de detalhes grandes.
Da mesma forma, ninguém reclama de “o dia amanheceu” – apesar de, até onde se sabe, noite alguma jamais ter amanhecido.
Sim, são implicâncias. Tenho certeza absoluta de que são. (“Certeza absoluta” é outra com que implico: haverá certeza relativa?). Na minha opinião pessoal (taí mais um: se é minha opinião, como não seria pessoal?), isso é quase o mesmo que entrar para dentro ou encarar de frente.
Claro que a poesia justifica tudo. “Ó mar salgado, quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal?” não teria o mesmo apelo sem o pleonasmo. Nem o delicioso “Chove chuva” do Jorge Benjor, que a gente canta como se ouvisse os chuviscos chuviscando.
Implico com os pleonasmos porque não tenho outra alternativa (eis o pior deles: se é alternativa, é porque é outra via). Mas a emoção perdoa tudo quando Luis Gonzaga e Humberto Teixeira cantam que “assum preto / cego dos olhos / não vendo a luz, ai, / canta de dor”. Sim, há muitas outras cegueiras, e muito piores que a dos olhos, como a de cega um pássaro, de quem o engaiola.
Minha mais recente (e mais irritante) implicância é com o ex-pronome demonstrativo, e agora adjetivo, “aquele”. A culpa, claro, é do Gilberto Gil, que mandou “aquele abraço” e nunca mais aquele pronome foi o mesmo.
Hoje é impossível ir ao supermercado e não ouvir o locutor louvar aquela picanha para você fazer aquele churrasco com aquela cervejinha bem gelada, e temos também em promoção aquela linguicinha e aquele paio defumado que vão fazer aquele sucesso.
Não é preciso falar em preço, maciez, sabor, valor nutritivo, nada. “Aquele” e suas variações resolvem tudo. Desde aquela granola para aquele café da manhã em família com aquele gostinho de saúde até aquele sabão em pó que deixa sua roupa com aquele cheirinho que dá aquela sensação de frescor, o “aquele” se tornou no supermercado o que o “trem” é para os mineiros e o “top” para os jovens sem vocabulário.
Sim, a cada pleonasmo redundante (!) e a cada vez que abusam demais (!!) de uma expressão, me dá aquela vontade de gritar bem alto (!!!) que nossos ouvidos e neurônios merecem respeito. Depois me dou conta de que pode ser só implicância minha – mas uma implicância daquelas, que me deixa com aquele mau humor, e aquela sensação de estar virando um velho ranzinza. Então respiro fundo, encho de ar os pulmões (não o fígado ou os rins) e torno a repetir (!!!!): “Mais vale um sorriso nos lábios que lágrimas nos olhos”. Pego aquele produto que está com aquele desconto promocional, e que me proporcionará aquela economia, e volto pra casa com aquela sensação de ainda não foi desta vez que me tornei aquele velho implicante que eu sempre soube que seria um dia.







