Crônica, por Eduardo Affonso: Inês e Corina
Minha mãe citava sempre duas personagens – para ela, aparentemente muito íntimas; para mim, igualmente enigmáticas
Minha mãe citava sempre duas personagens – para ela, aparentemente muito íntimas; para mim, igualmente enigmáticas. E trágicas, ambas – embora eu não atinasse sobre seu grau de parentesco conosco ou que tragédia pudesse ter se abatido sobre elas.
Quando não dava mais tempo de fazer alguma coisa – ou reverter algo já feito – era inevitável que lamentasse:
– Adeus, Corina!
Despedia-se de Corina várias vezes por dia. Quando a freguesa pedia botão forrado, e ela já havia pregado uma dúzia de botões sem forro no vestido. Quando a empregada vinha dizer que tinha acabado o cravo e só meio pernil estava decorado. Ou mesmo quando pedíamos para ir ao banheiro, depois de já devidamente acomodados no banco de trás do fusca, a caminho do sítio dos meus avós (a 15 minutos de distância) ou da praia, em Carapebus (a 10 horas de viagem).
“Adeus, Corina” era expressão de menor poder resignativo. Mesmo sem conhecer pessoalmente essa senhora, eu entendia que Corina havia partido e não dava para chamá-la de volta – fosse para forrar botões, comprar mais cravo ou permitir que nos aliviássemos do líquido que até dois minutos atrás sequer existia, e agora se tornara uma emergência urinária.
A outra expressão era usada em tom mais grave, para eventos irreversíveis. O pernil queimou, o vestido era para ser abotoado atrás (não na frente) e o banco do fusca já estava ensopado de xixi. Aí Inês era morta, mortíssima, sem possibilidade de intervenção divina que a resgatasse ao mundo dos vivos.
Inês era morta quando, saindo para a escola, nos lembrássemos de não ter feito o dever de casa. Quando o barbeiro passava a máquina zero, e o solicitado fosse deixar o cabelo apenas espetadinho. Quando informávamos ter engolido todos os caroços da lata de jabuticaba (e era da lata grande).
Diferentemente das outras amigas, comadres e primas da minha mãe – Cicinha, Sãozinha, Dirce, Ofélia, Sinhá, Branca, Terezinha – de Inês e Corina não havia uma única foto, com ou sem dedicatória. Restava imaginá-las.
Com um nome desses, Corina só podia ser roliça, corada, cabelo encaracolado – e baixinha. Ninguém com mais de 1,50 se chamaria Corina. Teria olhinhos espertos e úmidos (olhos de quem se despede, ou é despedida, intermitentemente). Eu a via, resignada, se afastando, acenando de longe com as mãozinhas gordas, de dedos curtos, unhas roídas. Sempre de olhos baixos, sapato baixo, saia abaixo do joelho.
Inês era mais assustadora, porque nunca se dizia que estava morta: Inês “era” morta. Ser morta devia ser seu estado natural. Possivelmente nascera morta, fora morta a vida inteira e nem depois de morta se salvara dessa sina. Por isso eu a supunha magra (macérrima, se a palavra já fizesse parte do meu vocabulário), pálida (tampouco conhecia a palavra “macilenta”, tão mais adequada), olhos fundos, fundíssimas olherias. Levemente desgrenhada, braços magros, sem um agasalho sequer, por frio que fizesse. Só os vivos sentem frio, e Inês era morta. Só os vivos comem e engordam, e Inês era morta. Mortinha da silva. Sem retorno, sem alternativa.
Algumas coisas mudavam – não a relação da minha mãe com essas duas mulheres. Ela nunca se despedia de Inês, e Corina, por mais adeuses que lhe dessem, parecia imortal.
Queria encontrar um jeito divertido de encerrar este texto, mas vai assim mesmo – e adeus, Corina. Queria perguntar à minha mãe se houve um dia uma Corina além daquela da canção, e se ela sabia da Inês arrancada do túmulo para ser coroada rainha. Mas agora Inês é morta.





