Crônica, por Eduardo Affonso: Profundamente
O Spotify me mostrou uma realidade que eu teimava em não ver: estou velho
O Spotify me mostrou uma realidade que eu teimava em não ver: estou velho.
Venho enganando a mim mesmo com o que dizem a certidão de nascimento, a carteira de motorista e os outros documentos que apontam minha chegada ao planeta no último abril dos anos 50. Ou seja, eu seria, quando muito, recém-idoso.
Mas o gosto musical não mente jamais: tenho (é o que diz a plataforma de streaming) 78 anos. Mesma idade de Elton John, Gigliola Cinquetti, Dilma Rousseff e do general Augusto Heleno. Uma safra eclética, digamos assim.
Isso porque passei o ano ao som de Sylvia Telles, Baden Powell, Maurício Einhorn, Claudete Soares. Tudo “gente da antiga”, como no clássico (e também tocado à exaustão) encontro de Clementina, Pixinguinha e João da Baiana.
Sou do “clube dos emocionados”, garante o Spotify. Deve ser porque não me cansei de ouvir “Pós você e eu”, de Lívia e Arthur Nestrovski, o “Bloco na rua”, do Ney Matogrosso e “Até a fé se esqueceu”, da Cuca Roseta – pelas contas da plataforma, os discos que mais rodaram na vitrola virtual.
A música mais tocada foi a catalã “La poesia dels teus ulls”, na versão (imbatível) da Clara Sandroni – seguida de perto pela romena “Consumatori de vise” (da banda Byron) e por “É isso aí”, do Casuarina (não, não se trata aquele crime que Ana Carolina e Seu Jorge cometeram contra a bela “The blower’s daughter”, mas a homônima do Sidney Miller, gravada originalmente por Dóris Monteiro).
Ouço mais os mortos que os vivos. Sim, ouvi muito Monica Salmaso, Milton, Mãeana – mas quem me embalou em 2025 foram Rita Lee e Cássia Eller, Macalé e João Donato, Gal e Elis. E é difícil incluí-los no mesmo rol em que estão Dorival Caymmi, Cartola, Jackson do Pandeiro, Lúcio Alves, Ciro Monteiro, Johnny Alf, Tom e Vinicius.
Ao contrário do que parecem atestar as certidões de óbito, a morte não tem uma data, um horário. Há um intervalo de meses, anos, décadas, até que se consume. Como acreditar que estejam mortos Lô Borges, Ângela Ro-Ro, Hermeto Pascoal, Nana Caymmi?
Ouvi muito Jorge Mautner, Benjor, Tom Zé, Itamar Assumpção, Novos Baianos – haverá algo tão moderno assim em 2025? Algo mais arrebatador que o “Ponteio” de Edu Lobo, que o “Cotidiano” de Chico Buarque, que “Qualquer coisa” de Caetano?
Enquanto houver Alaíde Costa e Áurea Martins, não dá pra ouvir _______ (complete com qualquer nome do “hit parade” atual). (Ainda existe “hit parade?”)
Pois é: sou do tempo do “hit parade”. De torcer por Maria Alcina num festival, por Marília Medalha no outro. De saber de cor o repertório do Wilson Simonal, de ter o elepê do Erlon Chaves e sua Banda Veneno. De achar que jamais apareceria uma canção mais bonita que “Viola enluarada”, um cantor mais intenso que Jair Rodrigues em “Disparada”, uma letra tão divertida quanto a do “Samba do crioulo doido”, deliciosamente cantada pelo Quarteto em Cy.
O Spotify foi generoso comigo. Certamente tenho muito mais que 78 anos que me atribuiu. Chuto uns 97 – incompletos. A alma é que ainda gira em 78 rotações e de vez em quando me pego ouvindo a trilha sonora da minha infância: Vicente Celestino, Dalva de Oliveira, Silvio Caldas, Cauby, Ângela Maria, Dolores Duran.
Nenhum deles está morto. Nem João Gilberto, Tim Maia, Clara Nunes, Nara Leão, Elizeth Cardoso, Agostinho dos Santos. Apuro os ouvidos e estão todos aqui, cantando. Neste instante. Profundamente.







