Crônica, por Eduardo Affonso: Soltando a voz
Canto ajuda a respirar, a colocar a voz, a melhorar a dicção. Eu falo depressa demais – e com meia hora de prosa já estou completamente rouco
Soube que a Fátima Guedes – grande cantora, grande compositora – está dando um curso de canto brasileiro. Bateu uma vontade danada de fazer. Não que eu queira entrar no mercado fonográfico – até queria, mas sei que pé de jaca não dá manga.
É que canto ajuda a respirar, a colocar a voz, a melhorar a dicção. Eu falo depressa demais – e com meia hora de prosa já estou completamente rouco. Aprender a cantar seria uma forma de reaprender a falar e não arruinar as cordas vocais.
Antes, já quis fazer o curso do André Gabeh – outro baita cantor e baita compositor. Mas cadê coragem de soltar a voz diante de quem domina tão bem esse instrumento? Deixei pra lá, para uma próxima encarnação, talvez.
O que não me impede de continuar com a intenção de um dia vir a falar de forma mais límpida, mais segura – coisa que o canto certamente faria por mim, e de um jeito mais prazeroso que nas sessões com um fonoaudiólogo.
Só que tenho um trauma com relação a cantar: uma vez, participei de um coral e me classificaram como… baixo.
Tenor canta.
Barítono canta.
Baixo muge.
Eu só mugia. Uma turbina, um aspirador de pó ou um compressor faria o mesmo que eu. Com a vantagem de não desafinar – nem chegar atrasado ao ensaio.
Tenho procurado alternativas mais próximas que os cursos da Fátima Guedes e do André Gabeh (que são em Teresópolis e na Praça Seca) e menos hediondas que o coral. Talvez a solução esteja aqui, bem diante do meu nariz – quer dizer, dos meus tímpanos.
Cantores de ópera precisam de uma pausa entre as récitas – por isso, normalmente há dois elencos, se revezando. É porque não conhecem a técnica vocal das crianças do meu condomínio – que gritam quatro, cinco, seis horas seguidas, de segunda a segunda, janeiro a janeiro, non stop. E nunca soube de algum deles ter ficado afônico.
Há um piá, aparentando uns seis anos de idade, que consegue articular – num volume que estimo em uns 120 decibéis – todos os palavrões já catalogados. E sem perder um décimo de vogal.
As adolescentes – que ficam oito horas dentro d’água gritando “Marco!”, “Polo!”, “Marco!”, “Polo!” a intervalos regulares de meio segundo – fariam Mariah Carey pedir o boné e ir cantar em outra freguesia.
Um dos garotos tem uma extensão vocal perto da qual Pavarotti é pinto. Duvido que o italiano conseguisse, da quadra, esgoelar o nome do amiguinho que está do vigésimo andar, por três, quatro minutos, sem tomar fôlego e sem semitonar.
Tem uma ruivinha (sempre no play, com a babá) cujos agudos deixam Yma Sumac no chinelo. Arapongas e maritacas voariam para longe, humilhadas. (Está explicado por que nunca vi nenhuma maritaca e nenhuma araponga por aqui.)
Uma peculiaridade é que todos esses sons são emitidos numa frequência inaudível para pais e babás – que continuam conversando animadamente, como se blindados por um cone de silêncio, aquele do Agente 86.
Qualquer hora eu desço e vou ver se o garoto de vasto vocabulário escatológico ou a pequena cacatua aos uivos no escorregador não topam compartilhar sua técnica. Fátima e Gabeh que se cuidem.





