De Próprio Punho, por Daniela Vignoli: “Ajudam de graça e ainda agradecem”
Daniela é fundadora da A.M.A.R. — Associação de Mães Amigas da Rocinha, e recebeu o reconhecimento do Círculo de Mulheres da ONU
A ideia inicial era simples: ensinar um ofício, gerar algum reforço de renda e apoiar, na medida do possível, as moradoras da Rocinha. Mas o que aconteceu foi muito maior. Acabei transformando completamente a minha própria vida. Aprendo mais do que ensino e agradeço todos os dias por poder fazer algo que amo — e que, ao mesmo tempo, beneficia centenas de mulheres. Não apenas as da Rocinha, mas também as voluntárias que se juntaram a nós ao longo do caminho.
Moro num condomínio em São Conrado e nunca consegui achar normal viver de frente para a maior favela da América Latina, levando a minha vida alegre e feliz enquanto, ali tão perto, havia tanta pobreza. Sempre pensei: devo, sim, viver a minha vida alegre e feliz — mas devo, também, ajudar. Foi assim que comecei a agir.
Nessa época, passei a me aventurar pela favela, e um antigo interesse pela fotografia despertou a arte que existia em mim. Ainda sem saber exatamente o que faria com aquelas imagens, decidi enviá-las para um concurso da Canon — e, para minha surpresa, ganhei o primeiro lugar com uma foto da Rocinha. Como a espiritualidade sempre permeia meus pensamentos, senti que aquilo era uma mensagem do universo. Havia algo potente ali para mim… e eu não estava enganada.
De lá pra cá, tudo evoluiu rapidamente. Comecei recolhendo doações no meu condomínio e levando ao morro. Fiz parceria com o grupo comunitário Família na Mesa e com a confeiteira Fabiana D’Angelo, também moradora do meu condomínio, e juntas criamos uma rede de doações de cestas básicas. Assim nasceu a A.M.A.R. — Associação de Mães Amigas da Rocinha — que chegou a reunir 150 mulheres doando, todo mês, o valor de uma cesta. Hoje somos 60.
Mas eu queria ir além. Resolvi criar uma aula de capacitação em crochê, para viabilizar a reintegração dessas mulheres no mercado de trabalho — muitas vezes, elas não podem sequer sair de casa, e precisavam de um caminho para garantir o mínimo de dignidade financeira e colocar comida na mesa por conta própria. Como não sabia fazer crochê (e até hoje não sei!), contei com voluntárias incríveis. Foi quando entraram em cena a Sonia Baeninger e a Heloisa Cyrillo, que acabaram se tornando minha parceira na criação do Nós do Crochê.
Nove anos se passaram desde aquele prêmio premonitório. Hoje, já capacitamos mais de 300 mulheres, com aulas de crochê, bordado, costura criativa e até empreendedorismo. Também oferecemos apoio psicológico, psiquiátrico, dentário, ortopédico e pediátrico. Fizemos parcerias com o Festival Carandaí, o Grupo Soma, a Loja Cantão, a Phebo, a Granado e a Natura. E agora recebemos o reconhecimento do Círculo de Mulheres da ONU, que nos convidou para realizar um desfile no dia 9 de dezembro, em Genebra.
Que seja apenas o começo. A nossa fila de espera já chega a 200 mulheres, e temos muito trabalho pela frente.
Daniela Vignoli é fundadora da A.M.A.R. — Associação de Mães Amigas da Rocinha. Depois de grande percurso, a ONG recebeu o reconhecimento do Círculo de Mulheres da ONU.





