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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Doze perguntas para Kiki Garavaglia, amiga de Ângela Diniz

Trata-se de um dos crimes que mais chocou o país e impulsionou a luta feminista contra a antiga tese da “defesa da honra”

Por Daniela
30 nov 2025, 07h00 •
Ibrahim Sued, Kiki Garavaglia e Angela Diniz
Ibrahim Sued, Kiki Garavaglia e Angela Diniz (./Arquivo pessoal)
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  • dassdss
    Kiki Garavaglia (./Reprodução)

    Audiovisuais sobre crimes reais fascinam o público — especialmente quando bem contados, como na série “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, da HBO, dirigida por Andrucha Waddington, com Marjorie Estiano, elogiada ao limite como a protagonista (a assassinada), e Emílio Dantas como Doca Street (o assassino). É inspirada no podcast Praia dos Ossos, da Radio Novelo, que também deu origem ao filme Ângela (2023), com Isis Valverde e Gabriel Braga Nunes, na Prime Video.

    Trata-se de um dos crimes que mais chocou o país e impulsionou a luta feminista contra a antiga tese da “defesa da honra”. A “Pantera de Minas”, título dado por Ibrahim Sued, com quem viveu um namora rápido e dramático, foi morta aos 32 anos, em 1976, em Búzios, pelo então namorado, o playboy Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street (1934–2020), com quatro tiros no rosto — à época, um balneário ainda rústico, frequentado pela juventude dourada carioca.

    A coluna conversou com Kiki Garavaglia, amiga de Ângela, chamada pelo mesmo Ibrahim de “locomotiva” carioca. A amizade durou menos de um ano, mas intensamente, Kiki diz que não viu e não pretende ver nenhuma das produções: “Prefiro guardar as boas lembranças vivas dentro de mim.”

    Elas se conheceram em 1976, numa viagem a Paris, onde viraram unha e cutícula: “Ângela era maravilhosa, cheia de qualidades, amiga das amigas, excelente mãe, excelente filha, companheira para todas as horas”.

    No primeiro julgamento, em 1979, Doca foi defendido pelo famoso advogado Evandro Lins e Silva, que usou a tese de que Ângela era uma “mulher fatal” capaz de enlouquecer qualquer homem. Naquele Brasil, matar “por amor” ou agir “sob violenta emoção” era argumento aceito por jurados — e por parte do público, que chegou a idolatrar Doca. Hoje, dizem, ele teria até fã-clubes nas redes, como ocorre com criminosos retratados em documentários.

    Doca recebeu pena inicial de dois anos em liberdade. Depois de protestos feministas, passou por novo julgamento em 1981 e foi condenado a 15 anos, dos quais cumpriu quatro em regime fechado. Morreu em 2020, aos 86 anos, de infarto.

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    1 – Como você conheceu Ângela?

    Era abril de 1976. Eu estava indo para Paris com algumas amigas — entre elas, Marialice Celidônio — quando, já no avião, vejo Ângela Diniz, a famosa “Pantera de Minas”. Eu não queria dar papo, achava que era muito patricinha e que nunca mais iríamos cruzar. Fiz meu carão e fui embora. Mas, quando chegamos ao hotel… lá estava ela de novo! Primavera em Paris, alta estação, festas, exposições. No primeiro dia demos umas voltas pela Rive Droite e voltamos para encontrar a Ionita Guinle, que estava no Plaza Athénée e iria nos visitar. E, quando chegamos, Ionita estava… conversando com a Pantera! Tivemos que sentar na maior cerimônia, sem saber o que falar com aquela mulher “envolvida em assassinato” (em 1973, o caseiro dela foi morto e o amante assumiu a autoria). Depois de um tempo, me levantei e perguntei à Marialice se estava de pé nossa ida às Galeries Lafayette no dia seguinte. Ela disse que não, estava cansada do voo. Ionita também negou. Aí Ângela vira e diz que adoraria ir comigo. Eu podia dizer não? Claro que não. Chegamos às 11h e saímos às 18h, às gargalhadas, tentando enfiar num táxi um elefante de tecido gigantesco que ela comprou. Os táxis passavam direto (óbvio). Depois de uma hora tentando, um carro parou oferecendo carona. Eu agradeci e recusei, mas ela enfiou o elefante no carro e entrou. E eu atrás. Foi o primeiro dia de uma amizade curta, intensa e deliciosa. Ela era maravilhosa: amiga das amigas, excelente mãe, excelente filha, companheira para todas as horas.

    2 – Qual a primeira coisa que vem à sua cabeça quando pensa em Ângela? Vocês eram mesmo unha e cutícula?

    Porra, que burrice ela foi fazer! Fora essas histórias todas, o que lembro é da mãe que perdeu os filhos e chutou o balde. Ela ajudava todo mundo. Nos falávamos diariamente quando voltamos ao Rio, mas nos encontrávamos pouco, a não ser quando eu passava na casa dela — e vice-versa. Nossa vida era bem diferente: eu era mãe dedicada a duas filhas; ela, muito linda e cobiçada, conhecia muitos homens. Mas chorava muito pela perda da guarda dos filhos depois do escândalo do assassinato do caseiro. Ângela confessou a autoria para não prejudicar o amante da época, o empreiteiro Tuca Mendes (em 1973, o caseiro foi morto com três tiros; logo depois, Tuca assumiu o crime, dizendo que o caseiro a assediara). Essa era Ângela: morria de saudades da filha, Cristiana, com quem falava escondido do ex-marido várias vezes ao dia. Ela era doce, meiga, engraçada e cheia de vida. Nossa amizade duraria a vida inteira, porque a gente se respeitava. Minhas filhas a chamavam de “tia Pantera”.

    3 – No Brasil pós-Lei do Feminicídio, pós-redes sociais e pós-cancelamento, você acha que a opinião pública a trataria diferente?

    Infelizmente, mesmo com a lei, a maioria continuaria a julgá-la como “Pantera de Minas”. Todos a chamavam de puta, mas ela era, sim, uma puta mãe. Ela enlouquecia os homens porque era sedutora — e isso era mais forte do que ela. Nunca a achei tão bonita, mas era imbatível na sedução e costumava desafiá-los. Era abusada porque ficou com raiva do mundo. Depois da perda dos filhos, não tinha nada a perder. Também falavam que era cocainômana, mas ela não gostava de cheirar. O negócio dela era maconha. Quem cheirava era o Doca, que colocava cocaína no remédio de nariz e pingava o dia inteiro. Como era comum na época, ela andava com muita gente que cheirava, mas ela mesma não gostava. Tinha caráter, foi criada para ser boneca. Um exemplo: uma amiga nossa entrou nas drogas depois que o marido largou dela. Começou a vender tudo. Ângela pediu para o Ibrahim descobrir quem era o traficante, foi à casa dele e recomprou tudo — pagando o dobro, o triplo. Internou a amiga na melhor clínica e devolveu todas as peças depois. Ela era boa. Só pensava nos filhos. Quando perdeu a guarda, entrou num processo autodestrutivo. E tinha episódios inacreditáveis: uma vez a polícia bateu na porta dela por denúncia de tóxicos. Ela, em vez de jogar fora, contou que fumava maconha para não tomar tarja preta por causa da perda dos filhos — pegou a trouxinha e deu para os policiais. Eles levaram ela na hora. Ela não gostava. Tinha muito bom caráter, criada para ser boneca.

    4 — Você acredita que ela era ingênua?

    Com certeza. É mineira, né? Mineiro é uma coisa pura. Depois do assassinato em Minas, o ex-marido (ela se casou aos 17 com o engenheiro Milton Vilas Boas, de 31) pediu a guarda dos filhos. A relação já não estava boa porque ele era gay. Um dia, ela entrou em casa e encontrou o marido com outro. A partir daí, ele começou a encher ela de joias, tentando disfarçar. Ela se revoltou, conheceu o Tuca Mendes e teve aquela confusão. Foi criada para ser bonequinha de luxo, ia para chás — não tinha noção das consequências.

    5 – Isso aconteceu também porque ela era muito bonita e deixava os homens loucos?

    Ela enlouquecia os homens. Não porque fosse a mulher mais bonita do mundo, mas porque era sedutora. Era fatal. Desafiava. Uma vez, numa festa na casa do Ibrahim — que andava armado — ela provocou ciúmes. Ele dizia que ia arrebentá-la na frente de todo mundo. E ela respondia: “Não vai porque eu fui ao cabeleireiro hoje.” Depois colocou as pernas para fora da janela e disse para ele jogar se quisesse: cairia linda lá embaixo. A festa acabou na hora. Ela era abusada porque estava com raiva do mundo. Depois de perder os filhos, cagou para tudo.

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    6 – Ela namorava o Ibrahim quando já saía com o Doca?

    Sim. Ela namorou o Ibrahim por deslumbramento. Mas o Doca… perdeu a cabeça. Ela o conheceu em agosto de 76, numa festa em São Paulo. O melhor amigo dele era também melhor amigo dela. Eles começaram a se encontrar escondido. Depois me ligou dizendo que estava perdidamente apaixonada. Eu disse: “Pelo amor de Deus, Panta… o Doca?” Ele era galã, comia todo mundo, vivia cheirado. Não servia para ela. Ela insistiu que ele também estava apaixonado. E nos primeiros meses… sumiu.

    7 – Então foi paixão louca?

    Sim. Cerca de dez dias antes do assassinato, ela me ligou dizendo que estava muito feliz, que queria casar, ir à missa, se confessar. Perguntou se podia comungar! Eu falei que meu Deus deixava. Eu e meu marido passaríamos o réveillon com eles, mas ficamos na dúvida porque sabíamos que brigavam por ciúmes. Búzios no verão era loucura: todo mundo bebendo e cheirando cedo. No dia 28, ela me ligou dizendo que não precisava levar roupa: comprou um vestido lindo, mas o Doca proibiu de usar. Ela estava com saudades e queria que o Renato distraísse o Doca. Ele já implicava com ciúmes de uma francesa, Gabriele, que jogava gamão com eles.

    8 – Onde você estava quando aconteceu?
    Estava num jantar de pré-feriado. Bebi todas. Atendi o telefone torta, e alguém dizia que o Doca tinha matado a Ângela: ela estava toda ensanguentada no meio da rua, meio nua. Pediram para eu ir lá vestir o corpo e organizar o translado. Pedi que outra amiga fosse. Fiquei em choque.

    9 – A droga potencializou tudo?

    Com certeza. Droga + verão em Búzios = insanidade. O tal Mandrix, por exemplo: se tomado sem deitar, deixava você ligado num bem-estar absurdo. Você via camarão crescer e querer te atacar. Eu já experimentei tudo, mas sempre gostei de pé no chão. Eles viviam em looping de bebida, pó, maconha, cogumelos. Óbvio que não estavam normais.

    10 – O assassinato virou marco do feminismo. A Ângela era feminista ou dona de si?

    Nunca! Ela era mulherzinha gueixa. Criada para obedecer, casar, ter filhos. Mineira tradicional. Seduzia homens como ninguém, mas não era feminista nem perto disso. E nem dona de si, era cheia de preconceitos, criada para ser boneca. No caso do caseiro, por exemplo, muita gente dizia que houve suruba. Impossível: ela era racista ao extremo, o caseiro era horroroso, sem dentes, sem banho. Ela jamais ficaria com ele.

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    11 – Você ficou com raiva do Doca?

    Não. Ele fugiu para a fazenda da minha cunhada. Depois se entregou. Recebi mensagens lindas do Ibrahim e do próprio Doca. Encontrei o Doca umas duas vezes. Era agradável. A vida dele acabou ali. Não fiquei com raiva porque ela também provocava. Ela tinha o dom de tirar qualquer um do sério. E acho que o sexo deles era meio violento. Eles se destruíam. Ele perdeu a cabeça — bêbado, cheirado, paranoico. Não consegui odiá-lo.

    12 – Como estaria Ângela hoje?

    Uma mineira gorda em casa, cuidando dos netos. Essa fase Pantera não era dela. Era reação ao desespero. Ela tinha certeza de que teria os filhos de volta. E viveria para isso.

    Fotos de arquivo de Kiki Garavaglia
    Fotos de arquivo de Kiki Garavaglia (./Arquivo pessoal)
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