Duas mortes (pelo menos), por suicídio esta semana, no Rio
Os já altos números podem ser ainda maiores pelas possíveis subnotificações, registros inconsistentes e limitações no acesso ao atendimento
Vem aí o Setembro Amarelo, campanha de prevenção ao suicídio e, com ela, milhares de matérias, artigos e notas como esta. Os números são alarmantes; como exemplo, esta semana, no Rio, duas pessoas de gerações diferentes se suicidaram por causas não divulgadas. O primeiro, um conhecido músico de 61 anos que morava em Ipanema; a outra, uma artista que morava no Flamengo, de conhecida família de Niterói, aos 22 anos, em início de carreira e com perspectiva de grande sucesso. Ambas as famílias estão arrasadas, por óbvio!
O SUS registrou, em 2023, 11.502 internações relacionadas a lesões com intenção deliberada de morte por conta própria no país — uma média diária de 31 casos, um aumento de mais de 25% em relação aos 9.173 casos registrados em 2014. Os dados são os últimos divulgados pela Associação Brasileira de Medicina de Emergência (Abramede).
Contudo, quase nunca o assunto é claro. Perguntamos ao psiquiatra Arnaldo Chuster o motivo. “É antiga a ideia de não divulgar o local. Por exemplo, a ponte Golden Gate (em São Francisco, Califórnia) ficou um local conhecido e atrativo para quem deseja cometer suicídio. Mas existem estatísticas que as pessoas podem consultar — elas são assustadoras. Não creio que a estatística estimule. O suicidio é um problema complexo, começa muito antes do ato. Tem relação com falhas do desenvolvimento psíquico, sobretudo, relacionadas com o direito à existência digna na construção da subjetividade. Ou seja, respeito à singularidade das pessoas, entender que elas são diferentes, para não contaminar com o narcisismo destrutivo, que nega a singularidade”.
Segundo a Abramede, os números, já altos, podem ser ainda maiores pelas possíveis subnotificações, registros inconsistentes e limitações no acesso ao atendimento em algumas regiões do país.
No ano passado, a coluna entrevistou um nome referência em suicidologia no Brasil: Karina Okajima Fukumitsu. Ela estuda processos de suicídio e trata prevenção e posvenção, o acolhimento a pessoas próximas a alguém que se mata, conceito do psicólogo americano Edwin S. Shneidman (1918-2009). “A valorização da vida, o fortalecimento da saúde existencial e a preocupação com os adoecimentos mentais e existenciais deveriam ser foco diário. Dessa forma, acredito que, cada vez mais, temos de realizar trabalho de ampliação da conscientização para que tais focos aconteçam diariamente. Outra dificuldade que me incomoda muito é o descaso das políticas públicas em relação aos processos autodestrutivos, a prevenção ao suicídio e ao que se refere à posvenção. Esse ‘descaso’ com os cuidados ao ser humano resulta na invisibilidade do sofrimento existencial; por consequência, o número de suicídios aumenta drasticamente”, disse ela.





