“Invertida” de casal: Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello
Os artistas voltam ao Rio com "Cenas da Menopausa", comédia com muito humor, sensibilidade, e a mulher 50+ no “segundo ato” da vida
Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello voltam ao Rio com “Cenas da Menopausa”, comédia com muito humor, sensibilidade, e a mulher 50+ no “segundo ato” da vida, em temporada curtíssima, de 2 a 12 de abril, no Teatro João Caetano. Desde a estreia, em 2024, o espetáculo já foi visto por mais de 160 mil pessoas no Brasil e em Portugal, onde eles estiveram até a semana passada. O casal é vibrante, tem química dentro e fora do palco: cama, mesa, banho e trabalho. “Somos loucos um pelo outro. Existe uma admiração absurda entre nós e muito humor. Rimos o tempo todo, não enjoamos um do outro — e olha que a gente era de enjoar, então não sei explicar como isso acontece”, diz Claudia.
A coluna conversou com os dois por Zoom numa rara folga da turnê portuguesa. Eles estavam no Vale do Douro, no norte do país — a mais antiga região vinícola demarcada do mundo e Patrimônio Mundial da UNESCO. “Meu avô é daqui. Foi muito emocionante conhecer o lugar onde ele nasceu, come-se e bebe-se muito bem”, dizem – há também a logística familiar em andamento. Um dos desafios é o Luca, filho que completou três anos no dia 11 de fevereiro.
O espetáculo acabou ganhando um efeito colateral inesperado — quase um serviço público. “A gente está virando prescrição médica”, diz Claudia. “Muitas mulheres e casais chegam para nós e dizem que o médico mandou assistir para entender o que está acontecendo. Tem gente que agradece porque descobriu ali o que tinha. Como pode, em 2026, a gente ainda viver praticamente de maneira pré-histórica?”
A escolha pelo gênero não foi por acaso. “A comédia tem esse poder de penetrar na alma humana. A pessoa se reconhece, ri… e aí a mensagem chega”, explica a atriz. “É uma luta brutal passar pela menopausa — e eu e o Jarbas passamos por isso três vezes”, conta Claudia. “Engravidei do Luca, veio o puerpério. Depois a menopausa voltou e tive que refazer todos os hormônios. Quando estava tudo equilibrado, apareceu o espetáculo e me jogou no chão de novo. Voltaram os calorões, a insônia, a dor de cabeça… Refiz a reposição hormonal e agora está tudo certo.”
O casal não tinha grandes expectativas de sucesso, já que Claudia falava sobre menopausa nas redes sociais há mais de oito anos, nem sempre era bem recebida. “Sempre fui meio mal vista por tocar nesse assunto. Então resolvemos falar de mim e das histórias das mulheres que conhecemos. O mais bonito é que muitas se veem ali no palco, porque é um processo muito solitário — e não precisava ser assim. A gente cresce ouvindo que menopausa é o fim da linha, quase uma finitude. Como se a mulher deixasse de servir para alguma coisa porque não pode mais procriar. Isso gera uma sensação de inutilidade que é completamente absurda.”
Jarbas foi quem fez o diagnóstico doméstico. “Ela estava com dores nas articulações, irritada, nervosa… Aí falei com cuidado: ‘amor, você é uma pessoa alegre, doce, feliz… e você não está normal’”, conta ele, rindo.
O espetáculo, de autoria de Anna Toledo, é dirigido por Jarbas, com relatos reais, música e comédia. No final da sessão, o palco vira quase um confessionário coletivo, com mulheres contando suas histórias. “Essa parte é improvisada, porque nunca sabemos o que vai aparecer. Temos um roteiro de assuntos, mas surgem histórias mirabolantes — e muitas bem cruéis. Uma mulher contou que voltou ao médico com todos os exames e ele disse: ‘bem-vinda à velhice, agora é só ladeira abaixo’. É uma loucura. Muitas acabam, ainda, sendo tratadas por depressão ou síndrome do pânico, quando na verdade estão vivendo sintomas da menopausa, mas acham que estão enlouquecendo, que têm algum problema neurológico — tudo culpa da tal névoa mental”.
UMA LOUCURA
Claudia: Ter colocado um filho no mundo aos 55 anos acima de tudo e todos. Estava todo mundo contra mim, inclusive os meus médicos. Disseram que era impossível… Um médico disse que eu estava super na menopausa e não tinha óvulos e não teria como. Quando falam que sou pioneira eu digo que eu sou muito inconsequente, mas gosto de ser assim. Vou indo como uma adolescente de 15 anos. Minha cabeça e espírito são muitos jovens.
Jarbas: Levar uma criança de 3 anos em turnê pelo Brasil e Portugal à tiracolo. Uma loucura pela logística, passando de hotel em hotel e administrar essa coisa toda, encontrar um parquinho pra criança brincar, manter a rotina…
UMA IDEIA FIXA
Claudia: Sou capricorniana, ou seja, minha vida é ter ideia fixa. Sou uma cabra que sobe montanha ao contrário, de ponta cabeça. Então imagina? Nunca é pode ser aqui ou ali, eu quero e vou atrás até conseguir. Sou uma cabra montez raça pura. Sou uma ideia fixa com cabelo. Sempre vou cavar aquilo que eu não consegui ainda, o que é novidade pra mim, porque é isso que me estimula. Com todos os riscos, eu me arrisco. Já me dei muito mal, mas muito bem também.
Jarbas: Sempre quis ser pai desde muito jovem. Quando assumi a vida artística e fui pra batalha deixei essa ideia um pouco de lado até que a Claudia surgiu e a gente começou realmente a se relacionar, essa vontade veio de novo. Levamos 10 anos elaborando ali até conseguir.
UMA ROUBADA
Claudia: Ter colocado parte do meu dinheiro no banco BVA, que eram meus patrocinadores na época e só renovavam o contrato se eu colocasse uma parte do dinheiro e um mês e meio depois eles faliram (2014) e eu perdi tudo.
Jarbas: Passar o fim de ano em Trancoso com chuva, pisando na lama. Fomos dois anos seguidos e no segundo, a gente não queria ir, mas estava todo mundo lá, chovia muito e pra chegar na festa era um lamaçal. Nunca mais réveillon em Trancoso.
UM PORRE
Claudia: Aos 45 resolvi experimentar, mas meu corpo não gosta de álcool… Porre pra mim é gente chata, burra e sem noção. Gente repetitiva e criança mal-educada não tem condição. Não tenho mais paciência. O Luca é um Buda.
Jarbas: sou do interior (RS) e na roça a gente bebe muito, mas hoje não bebo mais e porre pra mim é gente chata.
UMA FRUSTRAÇÃO
Claudia: Nunca ter feito parte de um coral. Sou contralto, uma voz rara. (Jarbas intervém) “Ela sempre fala que se ‘a minha mãe tivesse me colocado num coral da igreja, metade dos meus problemas teriam sido resolvidos’. Ela fazia aula de balé o dia inteiro de colã e maquiada… Você nem ia poder entrar na igreja, numa sacristia… Nunca, minha querida. Nunca. Coral, nem pensar, estava proibida” (risos).
Jarbas: Não tocar piano.
UM APAGÃO
Claudia: No muro das lamentações em Jerusalém. Fui fazer meus pedidos e, quando encostei a cabeça levei um soco de energia e caí dura pra trás. Desmaiei mesmo. Tem o lado das mulheres e dos homens e, na época, eu era casada com o Edson (Celulari) e ele estava com o Silvio de Abreu do outro lado e eu estava com a filha e a mulher do Silvio, que quase enfartaram quando eu caí dura. E aí foram buscar os dois pra me socorrerem, pra me levantarem. Eu não sei te explicar o que que aconteceu. E a energia é pesada, né, amor porque é um muro das lamentações e não dos pedidos.
Jarbas: Apagão em cena é sempre um pânico. É o pior apagão, porque não vem da memória, mas da ansiedade. É sempre ego e ansiedade. São os inimigos da cena. Você só aprende a relaxar com a maturidade, até lá, é muito apagão na vida, muita letra inventada porque não vem.
UMA SÍNDROME
Claudia: tenho duas, a do ninho vazio, porque meus dois filhos, Enzo, 28, e Sofia, 23, não moram mais comigo. E a síndrome musculoesquelética da menopausa.
Jarbas: acho que não tenho.
UM MEDO
Claudia: De perder a coragem. Porque coragem não é o oposto do medo, coragem significa ir mesmo com medo (diz pra Jarbas: Eu arrasei no final! Maravilhosa a minha resposta! Jarbas responde: ‘A primeira parte é melhor do que o resto’. Ela diz: ‘Não é. Coragem é ir mesmo com medo. Eu adoro isso. Maravilhoso”).
Jarbas: Medo de não ser um idoso saudável. Eu só penso nisso, só penso em chegar aos 120 anos com saúde (Claudia intervém: ‘E eu também vou, eu vou mais que ele. Ele falou que vai antes de mim, eu falei, olha a sacanagem. Olha a palhaçada. Eu não vou ficar aqui sozinha nem fodendo’).
UM DEFEITO
Claudia: Perfeccionismo. Mas eu já estou em fase de despertar. Estou trabalhando em mim não a perfeição e sim o aperfeiçoamento.
Jarbas: Falta de paciência com gente ignorante. Tenho preguiça de discutir, daí desisto da pessoa.
UM DESPRAZER
Claudia: Ter que conviver todos os dias com a mediocridade.
Jarbas: Ver tanta guerra, tanta injustiça no mundo e as pessoas fazendo essas guerras em nome de liberdade, de Deus.
UM INSUCESSO
Claudia: Achar que faz sucesso. Que erro.
Jarbas: Quando a gente aposta tudo num projeto e ele não vai bem, como já aconteceu algumas vezes. E sempre é uma loteria porque não sabemos porque ele não funciona. Às vezes não depende da sua incapacidade.
UM IMPULSO
Claudia: A maturidade está me curando disso. Hoje, respiro, penso, falo ou não falo. Na maioria das vezes, não falo. É libertador.
Jarbas: Pedir para as pessoas ficarem quietas dentro do teatro ou cinema. As pessoas estão muito loucas. Aqui em Portugal não tem isso, eles não abrem o celular.
UMA PARANOIA
Claudia: Com a violência, seja ela física, moral ou emocional. Realmente isso é uma coisa que me pega muito. A violência política, violência contra a mulher, intolerância. São muitas violências
Jarbas: De horário. Tenho pavor de chegar atrasado.







