Myrian Dauelsberg: “Aprendi a transformar problemas em eventos cômicos”
A ideia de escrever um livro contando fatos da minha vida nasceu da insistência de amigos, depois de um jantar em Paris
A ideia de escrever um livro contando fatos da minha vida nasceu da insistência de amigos, depois de um jantar em Paris, no restaurante Chez Denise. Eu estava com meu marido, Peter Dauelsberg, e com meu ex-aluno — e posteriormente grande amigo — Mauro Maddalena. Naquela noite, havia acabado de contar minhas últimas aventuras com Luciano Pavarotti, quando Mauro sugeriu que registrasse a “epopeia” que precedera a vinda do tenor ao Brasil. Isto foi em 1991 e, desde então, passei a considerar o pedido, especialmente incentivada pelo meu grande amigo, o pianista português Adriano Jordão, que tantas vezes participou dos meus esforços para contratar artistas para se apresentar no Brasil.
Depois da criação da Dellarte, em 1982, viajei com frequência ao exterior, estabelecendo contatos com organizadores das áreas de música e balé. Nessas viagens, comecei a anotar ideias que surgiam durante as produções e aprendi a transformar problemas em eventos cômicos; talvez o segredo para não perder o encanto diante dos desafios.
Produzir cultura no Brasil sempre exigiu mais do que coragem: é um ato de persistência e paixão. Lembro-me do primeiro grande desafio internacional com o qual me deparei na Sala Cecília Meireles: o Deller Consort, um extraordinário grupo inglês apresentado a mim pelo crítico Antonio Hernandes. Naquela época, eu não tinha verba alguma; dispunha de apenas 240 mil moedas da época para toda a temporada. Decidi investir tudo na primeira semana, acreditando que um grande impacto inicial abriria portas para o futuro. E deu certo: o concerto foi um sucesso tremendo. Com a sala lotada, consegui convencer patrocinadores a apoiar a temporada e pude organizar os eventos seguintes com mais segurança. Foi um momento de alívio e de confirmação de que, mesmo sem recursos, a paixão e a convicção são capazes de transformar a cena cultural.
Ao longo dos anos, vivi muitas situações curiosas, pequenas histórias que mostram que, na arte, nada acontece sem uma boa dose de improviso e paixão. Lembro, por exemplo, de quando Pavarotti tinha um espetáculo marcado no Chile. Antes, ele faria uma escala no Rio para seguir viagem em um avião fretado pela Dellarte. Ainda no aeroporto, percebeu que havia esquecido um legítimo queijo Parmigiano Reggiano, que trazia consigo em uma sacola de plástico. Ele se desesperou, e logo todos estávamos mobilizados para resolver o impasse. A secretária desvendou o mistério: a sacola havia ficado em uma das cadeiras da sala de embarque. Recuperamos o queijo e, só então, o tenor seguiu tranquilo para o Chile. Situações assim me ensinaram que, nos bastidores, a arte não está só no palco: ela também vive no improviso.
Hoje, a Dellarte soma mais de 40 anos de atividades ininterruptas, com 580 concertos realizados no Brasil e diversos projetos de formação de plateias voltados para a música clássica. Senti-me quase na obrigação de transmitir o legado de meus pais e de compartilhar minha vivência com alguns dos maiores músicos do século XX.
Muitas vezes pensei em desistir do livro, mas o incentivo do meu marido e dos meus filhos, Claudio e Steffen (hoje diretor da Dellarte), foi o impulso que me levou a concluir o registro dessas aventuras. Escrever foi, para mim, uma forma de reviver e agradecer cada nota dessa longa sinfonia chamada vida, na esperança de que este livro também encontre outras plateias que se inspirem em alguém que dificilmente aceitava o “não” como resposta.
Myrian Dauelsberg é fundadora da Dellarte e autora do livro “Atrás do Palco – Bastidores por Myrian Dauelsberg”, publicado pela Rebento Editora, lançado recentemente.





