“Não é a bicicleta, é quem pedala”: a polêmica das elétricas no Rio
Um dos pontos centrais da crítica de Pazos são as lojas que vendem “gato por lebre”, sem distinguir o que é bicicleta elétrica ou veículo motorizado
Hoje é assim: botou o pé para fora de casa, vai dar de cara com uma quantidade absurda de bicicletas elétricas nas ruas. Com isso, o debate sobre a convivência entre ciclistas, pedestres e carros tem esquentado. “O maior desafio da mobilidade urbana no país não está nos equipamentos, mas no comportamento humano e em uma legislação que falhou ao tentar organizar o trânsito”, disse Raphael Pazos, fundador da Comissão de Segurança do Ciclismo no Rio, ao podcast 3A Pode Mais.
Para ele, a Resolução 996 do Contran, que entrou em vigor plenamente este mês e trata do emplacamento de ciclomotores (limitados a 50 km/h e que exigem registro e habilitação), criou uma confusão perigosa nas ruas. “A reclassificação de veículos com acelerador como ‘autopropelidos’ — com até 1.000W de potência e velocidade máxima de 32 km/h, que não exigem CNH ou licenciamento — permitiu que equipamentos pesados e potentes ocupassem espaços destinados a quem é mais frágil. O problema hoje é que todo mundo está colocando a culpa nos equipamentos, nas bicicletas, mas a culpa está nas pessoas que os conduzem”, afirma.
Um dos pontos centrais da crítica de Pazos são as lojas que vendem “gato por lebre”, sem distinguir, de fato, o que é bicicleta elétrica e o que é veículo motorizado disfarçado. “O mercado inundou as ruas com veículos que possuem acelerador, sendo vendidos como bicicletas. A Resolução 996 criou uma segurança jurídica para os vendedores, mas uma insegurança para a população”, diz.
Conflito nas ciclovias e calçadas
A nova regra permitiu que autopropelidos com potência de até 1.000W circulem em ciclovias e, em certos casos, até em calçadas — desde que em velocidade reduzida. Para Pazos, isso ignora completamente a realidade das ruas. “É um absurdo. A bicicleta normal não pode andar na calçada, mas o autopropelido com acelerador, que pode pesar quase 200 kg com carga, tecnicamente pode. Isso gera um conflito potencialmente fatal em áreas com crianças, turistas e pedestres”, alerta.
“A solução passa pela redução da velocidade dos carros e pela separação rigorosa de espaços. Proponho que as calçadas sejam exclusivas dos pedestres e as ciclovias apenas para bicicletas convencionais e de pedal assistido. Calçada é para pedestre, ciclovia para bicicleta normal, e os autopropelidos devem ocupar as ruas”.
Além da infraestrutura, Pazos defende que a educação para o trânsito comece ainda na escola, citando o modelo europeu, onde crianças precisam de uma espécie de “habilitação” para pedalar. “Uma criança educada se tornará um adulto consciente. Hoje, o ciclista esportivo e o ciclista de mobilidade estão no limbo e, sem fiscalização punitiva, continuaremos contando acidentes. Houve um aumento de 702% em acidentes com veículos elétricos — de 274 para 2.199 registros — em comparação com o ano anterior”, afirma.
Em 2023, a Comissão fez um teste em Ipanema e no Leblon que transformou uma faixa de carros (junto aos prédios) em via exclusiva para bicicletas e autopropelidos, com o estacionamento deslocado para os canteiros centrais. “Foi um sucesso e minimizou conflitos, mas exige patrocínio para se tornar permanente, por causa dos custos operacionais”, conclui.





