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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Opinião, por Rafael Dragaud: Regar é rezar

Eu acredito no meu jardim. Nele passei a cultivar o cuidado com tudo o que me cerca, a me sentir parte do sagrado da vida

Por Daniela 11 mar 2026, 18h30 •
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 (IA/Divulgação)
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  • Numa reunião virtual com alguém que estava me conhecendo pela primeira vez, veio a pergunta direta, quase protocolar:

    — Qual é a sua religião?

    Eu não me desconcertei. Respondi o que me pareceu honesto: “Eu acredito em quase tudo. E fico com o que me faz bem.”

    Mas a frase ficou ecoando depois. Porque não é “quase tudo”. É algo mais específico.

    Eu acredito no meu jardim. Nele passei a cultivar o cuidado com tudo o que me cerca, a me sentir parte do sagrado da vida. Meu sentimento mais religioso, portanto, brota quando estou dentro dele, fisicamente, com as mãos diretamente na terra, ou mesmo quando estou longe geograficamente, mas minha alma está lá, até o cheiro das flores eu sinto. E tudo faz sentido e me traz alegria.

    Acredito nas plantas que eu rego. Na teimosia da Ixora que insiste em florir depois de um dia de calor excessivo. Na arruda que parece frágil e, no entanto, resiste. Acredito que há ali — nesse ciclo silencioso entre semente, sol, água e espera — o que muitos chamam de Deus.

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    Se eu tivesse que organizar isso numa moldura teológica, diria que minha religião é a natureza. E isso não é tão exótico quanto parece. É talvez o fio mais antigo e transversal de diversas tradições humanas.

    No Candomblé, por exemplo, as folhas são sagradas. Não como metáfora — como fundamento. Não há orixá sem folha. O axé circula na seiva, no vento, na água. O sagrado não está fora do mundo: está na matéria viva do mundo. Respeitar a natureza não é discurso ecológico; é princípio litúrgico.

    No cristianismo, o próprio Jesus Cristo fala por imagens agrícolas: a semente, o trigo, a videira. A multiplicação dos peixes não é apenas milagre — é também uma pedagogia da abundância da criação. O pão e o vinho são corpo e sangue. A natureza vira sacramento. E quando penso em São Francisco de Assis, conversando com os pássaros e chamando o sol de irmão, entendo que ali há um cristianismo que não hierarquiza o humano acima de tudo, mas o inclui numa fraternidade cósmica.

    Talvez por isso também seja significativo que, na narrativa bíblica, tudo comece num jardim: o Jardim do Éden. Antes do pecado, antes da queda, antes da história complicada dos homens com Deus, havia um jardim. Um lugar onde a vida era simplesmente convivência com a criação — árvores, água, animais, frutos. O paraíso, curiosamente, não era uma catedral. Era um ecossistema.

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    No Budismo, a iluminação acontece sob uma árvore. No Xintoísmo, montanhas, rios e florestas são morada de espíritos. No Hinduísmo, o rio Ganges é uma deusa, não metáfora. A água não simboliza pureza — ela é pureza.

    Mesmo no Judaísmo, a história sagrada começa num jardim. No Islamismo, o paraíso é descrito como um jardim irrigado por rios. Em ambos, a imagem final de plenitude não é uma cidade tecnológica — é um território fértil, vivo, irrigado.

    Talvez isso diga algo sobre nós.

    A religião organizada cria doutrinas, hierarquias, disputas — humanas demais, às vezes. Mas antes da instituição, havia apenas o assombro. O raio cortando o céu. O rio que transborda. A árvore que resiste ao inverno. A chuva depois da seca. A colheita. O medo e o fascínio diante do que nos atravessa e excede.

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    Talvez a minha resposta correta naquela reunião fosse essa:

    Minha religião é o assombro.

    Eu acredito que existe uma inteligência na forma como uma folha se desenha, na geometria de uma flor, na repetição paciente das marés. Não uma inteligência que eu consiga explicar, mas que devo respeitar e que me inspira a ser melhor. E menor.

    E quando eu honro o meu jardim, eu estou, de algum modo, rezando para essa força.

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    Não recito dogmas. Não sigo um manual. Mas ajo com reverência. Espero o tempo da germinação. Aceito que nem tudo floresce. Entendo que forçar o crescimento é matar o processo. E percebo que o jardim não dialoga com a minha ansiedade.

    Talvez por isso eu também tenha demorado tanto para perceber que minha primeira orientadora espiritual foi minha mãe. Não uma ialorixá, não uma sacerdotisa formal — minha mãe mesmo, biológica, comum, dessas que criam filhos no meio da vida corrida.

    Ela tinha um gesto muito específico de cuidado: me dar banho de alecrim.

    Na época eu não pensava nisso como espiritualidade. Era só carinho. Água morna, cheiro de erva fresca, uma sensação perfumada de limpeza que era também uma espécie de tranquilidade inexplicável.

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    Hoje percebo que aquilo era uma forma de oração doméstica. Uma liturgia sem altar. Um ritual transmitido sem catecismo.

    Talvez tenha sido ali que eu aprendi que as plantas também curam, também protegem, também falam.

    Isso me conecta ao Candomblé, a Francisco, aos monges que escutam o rio, aos pescadores do Evangelho, aos povos originários que sempre souberam que floresta não é recurso — é parente.

    Talvez todas as religiões, em seu núcleo mais silencioso, estejam falando disso: da tentativa humana de traduzir a força da natureza em linguagem compreensível.

    Alguns chamam de Deus.
    Outros chamam de Olorum.
    Outros chamam de vazio.
    Outros não chamam de nada.

    Eu, por ora, chamo de jardim.

    Rafael Dragaud é roteirista, diretor do show da turnê “Tempo Rei”, de Gilberto Gil, trabalhou na Globo por mais ou menos 30 anos como diretor-executivo do núcleo de variedades da emissora, responsável por programas, como “Conversa com Bial”, “Mais Você”, “Encontro”, “É de Casa” e “Altas Horas”.

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