Rafael Dragaud: Afinal, o que querem os homens?
Nas últimas semanas, muita gente no Brasil resolveu perguntar o que é ser uma mulher
Nas últimas semanas, muita gente no Brasil resolveu perguntar o que é ser uma mulher.
A questão, que, ao longo do tempo, já produziu material denso e delicado no campo da filosofia e do pensamento, atravessou a psicanálise, encontrou forma na poesia e desdobramento em diversas expressões artísticas, desta vez ganhou corpo a partir da eleição da deputada Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, em Brasília. E como quase tudo que atravessa o atual ambiente político nacional, deixou de ser apenas um questionamento legítimo para se transformar em trincheira, desqualificação e combustível de tela.
De um lado, argumentos biológicos, violentados por interesses políticos. De outro, argumentos políticos, violentando a própria noção do que é política. E no meio, a sensação de que ninguém está exatamente interessado em escutar, apenas em vencer.
Confesso que, enquanto essa contenda se desenrolava, e Erika seguia sua bela missão, eu me vi respondendo à pergunta para mim mesmo – através de músicas como “O Lado Quente do Ser”, de Marina Lima e Antônio Cicero, em poemas de Adélia Prado, na prosa de Conceição Evaristo em Insubmissas Lágrimas de Mulheres. Pensava também nos olhos de Giulietta Masina, sempre à beira de alguma coisa, no gingado sincopado de Mayara Lima, e na trajetória de Benedita da Silva. E inevitavelmente também submergi nas lembranças dos carinhos de minha mãe.
Lembrei de muita coisa, sem que nada disso tivesse a pretensão de encerrar a tal pergunta. Minha vontade era apenas a de navegar em fragmentos de respostas possíveis. Mas ao escrever esse texto, admito que houve sim uma fuga consciente: troquei o conflito político por um refúgio estético, onde o meu espírito costuma encontrar alívio e sentido. E por puro contraste, vi emergir de dentro de mim uma outra pergunta que talvez faça mais falta: o que é ser um homem?
Não foi a primeira vez que me questionei sobre isso. Essa pergunta me acompanha há mais tempo do que consigo lembrar. Não como conceito, mas como pressão. E todos sabem: desde cedo, há um roteiro predefinido para “ser homem”. Não chega a ser dito, apenas se impõe. E você aprende rápido onde pode falhar e onde não pode.
Ser homem, no começo, é não sobrar na escolha do time de futebol da escola. Não ficar ali, parado, enquanto os melhores vão escolhendo, um a um, até que sobre você. Ser homem, ali, é ser convocado pelo nome antes do silêncio.
Depois, a coisa muda. Surgem hormônios, meninas, e ser homem passa a ser conquistá-las, ou, pelo menos, não ser aquele que ninguém escolhe – e ao não ser convocado, habitar o silêncio.
Logo em seguida, quase sem perceber, você vai sendo reduzido a desempenho. Ser homem é performar. Performar bem. Performar o suficiente para não ser exposto, para não ser diminuído, para não ser menos na avaliação do grupo dos homens. Porque, no fim das contas, são eles que definem se você é ou não é.
Mais tarde, o desempenho muda de palco, mas não de lógica. Ser homem vira trabalhar. Ser provedor. Você que vencia no futebol e vencia com as meninas precisa vencer agora na empresa. E nesse momento fica mais evidente ainda algo deveras curioso: você começa a ser medido por coisas que não necessariamente dizem quem você é, mas passam a dizer quanto você vale.
Nesse momento, vem o carro. E não é exatamente o carro, mas o que ele promete.
Uma espécie de tradução material de uma identidade que ainda não se resolveu. Como se fosse ali que isso pudesse se resolver. E como tudo isso está de fato caminhando para um colapso profundo, em algum momento, piora: para muitos, entra também a extensão do carro: as mulheres. Como um acessório do kit homem. Não como elas são, mas como os homens aprenderam a vê-las. E se fostes prósperos no caminho da masculinidade vã, acumulareis carros caros e mulheres que com eles se parecem; e vossa garagem e vossa cama serão uma só coisa — e ambas, desolação.
No fundo, há uma sensação persistente de que ser homem é apenas sustentar uma narrativa grandiloquente de si mesmo – mesmo quando ela já não faz mais sentido. Até que, em algum ponto, essa engrenagem começa a falhar, a colapsar, devido a uma simples e estarrecedora constatação: nada disso que te definia como homem é privilégio exclusivo de um homem. Nem trabalhar, nem prover, nem desejar, nem ser desejado. Mulheres também podem exercer tudo isso que você entendia que te distinguia.
E quando aquilo que te definia deixa de te diferenciar, sobra um espaço estranho.
Não chega a ser liberdade. É o silêncio. Do qual você foge desde a escola. Lembra?
E do fundo dele, você ouve:
E agora, José?
A oportunidade de vida brotando em forma de uma boa pergunta. Sempre elas. Pois durante muito tempo, a pergunta mais insistente era outra: afinal, o que querem as mulheres? Agora talvez tenha chegado a hora de inverter: a essa altura do campeonato, afinal, o que querem os homens? O que queremos? Não como tese. Nem como provocação. Como desorientação mesmo.
Porque, no fim das contas, ser homem é algo que só importa para os homens.
Talvez, então, essa seja uma não questão. Talvez ser homem seja justamente parar de se perguntar isso o tempo inteiro. Pensar (bem) menos em si mesmo. Olhar de forma mais cuidadosa para o outro. Ser capaz de sustentar vínculos reais. Sair de si. E finalmente cuidar das coisas, do mundo, dos outros, dos filhos. Talvez seja, no limite, tornar-se próximo daquilo que é uma mulher – não na forma, mas na capacidade de afetar e ser afetado – para que essa diferença finalmente deixe de nos organizar.
Rafael Dragaud é roteirista, diretor do show da turnê “Tempo Rei”, de Gilberto Gil, trabalhou na Globo por mais ou menos 30 anos como diretor-executivo do núcleo de variedades da emissora, responsável por programas, como “Conversa com Bial”, “Mais Você”, “Encontro”, “É de Casa” e “Altas Horas”.







