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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Rafael Dragaud: O beija-flor curioso

Quem me acompanha por aqui já deve ter notado: tenho sido frequentemente provocado por sabiás, jabutis, plantas e silêncios

Por Daniela
28 jan 2026, 18h00 •
ssdsd
 (IA/Divulgação)
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  • Quem me acompanha por aqui já deve ter notado: tenho sido frequentemente provocado por sabiás, jabutis, plantas e silêncios. Não sei exatamente se estou mais para São Francisco de Assis ou para o Doctor Dolittle; o fato é que tenho aprendido muito com a generosidade da fauna e da flora que falam ao meu redor.

    Essa semana, eu degustava uma manhã silenciosa e solitária na varanda de casa, caneca de café preto aquecendo as mãos, quando um beija-flor decidiu pousar no roteiro do meu dia. Ele, um Eupetomena macroura, para ser preciso, equilibrava-se num fio elétrico, a uns quatro metros de mim, com uma elegância corpórea quase ofensiva à minha parca engenharia humana.

    O que se iniciou então não foi exatamente uma conversa. Foi mais uma concordância tácita. Ele percebeu que eu estava disponível. Eu, que ele tinha algo a dizer. Deu match. Como duas almas carentes numa fila estagnada.

    — Você tá vendo todo esse estardalhaço? — perguntou, direto, sem floreio.
    — Que estardalhaço? — respondi, previsível, medíocre.
    — Esses soluços ridículos do ex-presidente. O papo da queda da cama. Essa bobajada toda de tortura de ar-condicionado.

    Expliquei que ando cansado do noticiário e acabo vendo tudo apenas de relance, quando o algoritmo insiste. E que tenho tentado evitar perder tempo com narrativas embaladas em molduras de urgência. O beija-flor me lançou um olhar de condescendência silenciosa e continuou em sua agenda:

    — Tudo bem. Mas tem uma coisa curiosa aí no meio. Você viu esse negócio de que, se ele ler livros, a pena pode ser recalculada?
    — Vi por alto — respondi.
    — Pois é — disse ele. — Eu não entendi direito como isso funciona. Você sabe?

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    E ali, constrangido pela pergunta de um pássaro, percebi que, se quisesse respondê-lo à altura, teria de fazer algo antiquado: ler. Foi assim que me vi obrigado a escrever esta crônica: para não decepcionar um beija-flor curioso.

    Com uma breve busca no celular, consegui explicar que, no Brasil, existe desde 2012 a possibilidade de remição de pena pela leitura. Que, a cada livro lido, com resenha avaliada, até quatro dias podem ser abatidos da condenação. Que há limites, critérios, pareceres técnicos. Que a ideia não é premiar o passatempo, por mais louvável que seja, mas apostar numa chance de reorganização interna chamada ressocialização.

    — Em outros países isso também existe? — ele interrompeu, batendo as asas como quem pontua um argumento.
    — Sim— respondi. — França, Alemanha, Estados Unidos. Desde os anos 1970, em alguns casos. A leitura entra como ferramenta de ampliação de repertório simbólico. Quanto mais linguagem, mais possibilidade de escolha, concorda?

    Ele ouviu tudo com atenção desconfiada. Depois perguntou, já menos curioso e mais filósofo:

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    — Você, Rafael, acredita que ler muda mesmo o ser humano?

    — Caramba, amigo… Eu não me sinto capaz de dizer se muda, mas eu certamente te digo que forma um ser humano. Eu sou uma prova viva disso. Não consigo imaginar quem eu seria hoje sem os livros que li, que leio, releio e até os que seguem empilhados, me cobrando promessa antiga.

    — OK, mas você sabe que estamos falando sobre outra coisa, né? Vamos lá: não seria um erro acreditar que cultura imuniza contra brutalidade?

    A pergunta ficou suspensa entre nós. Porque ali já não era mais sobre leis, mas sobre gente. Sobre caráter. De imediato, me veio à memória algo da época de escola: os chamados déspotas esclarecidos, aquela gente do século XVIII que lia Voltaire de manhã, patrocinava as artes à tarde e governava com punho de ferro à noite. Homens cultos, leitores, refinados e absolutamente cruéis. Pensei inclusive nos espécimes contemporâneos. Criminosos de colarinho branco que roubam merenda de criança em escolas públicas. Poliglotas que falam asneiras em vários idiomas. Logo depois, por contraste, lembrei de pessoas que mal assinam o nome e não seriam capazes de matar um besouro.

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    — Então — disse ele, lendo meu pensamento, como num sonho — a biblioteca definitivamente nunca foi garantia de bondade. Como você pode ver, leitura não produz onipotência moral.
    — Concordo, mas… — pensei em retrucar mas pausei.

    Ficamos em silêncio por um instante. Não um silêncio constrangedor, mas desses que pedem precisão antes da próxima palavra. Até que rompi o plasma da inconclusão:

    — Talvez nossa hesitação não seja em relação à leitura, mas ao que às vezes exigimos dela. Também sinto que estamos tomando um caso extremo como medida geral, confundindo nossa descrença absoluta num personagem específico com descrença no próprio gesto. Acredito que livro nenhum desfaz, sozinho, uma vida inteira cuidadosamente treinada para ser o que Bolsonaro é, formação não é sinônimo de redenção, mas isso não invalida o livro. Apenas devolve a ele seu tamanho justo. Talvez o livro seja só uma porta. Aberta. Não a casa inteira. Entende?

    O Eupetomena macroura me olhou pela última vez, satisfeito, e saiu em voo curto, preciso, sem dramaticidade. E pela esquerda.

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    Fiquei ali, com o café esfriando, e uma certeza modesta: continuo acreditando nos livros. Só não acredito em milagres tipográficos. Eles não salvam ninguém sozinhos. Mas ajudam, silenciosamente, quem está disposto a mudar de lugar por dentro. E talvez seja essa a única redução de pena que realmente importa.

    Rafael Dragaud é roteirista, diretor do show da turnê “Tempo Rei”, de Gilberto Gil, trabalhou na Globo por mais ou menos 30 anos como diretor-executivo do núcleo de variedades da emissora, responsável por programas, como “Conversa com Bial”, “Mais Você”, “Encontro”, “É de Casa” e “Altas Horas”.

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