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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Reynaldo Gianecchini: “A polarização fez a conversa se perder”

"SP e Rio são públicos bastante diferentes. No Rio sempre tenho a sensação de que eu vou ter que brigar um pouquinho mais para chamar as pessoas"

Por Daniela 8 fev 2026, 07h00 | Atualizado em 8 fev 2026, 14h09
Reynaldo Giannechini
 (./Reprodução)
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O ator como Gabrielle em espetáculo ambientado na Itália de 1938 (./Divulgação)

Ao falar com Reynaldo Gianecchini tem-se a sensação de que nada o faria mais feliz do que o momento que está vivendo: aos 53 anos, 28 de carreira, pra ele, o ter não vale nada sem o ser, sempre foi assim, mesmo antes de virar o “galã padrão” Edu (Laços de Família, 2000, de Manoel Carlos), o marco zero da carreira estreando como protagonista e, daí em diante os inúmeros papéis, sem que seu nome jamais tenha saído da vitrine, até chegar em Gabriele, personagem que foi de Marcello Mastroianni, em 1977, no cinema, e de Tarcísio Meira, em 1986, no teatro: depois de duas temporadas em São Paulo, ele chega ao Teatro Claro Mais, em Copacabana, com “Um Dia Muito Especial”, com Maria Casadevall, de 27 de fevereiro a 29 de março, sob a direção de Alexandre Reinecke, traduzido por Célia Tolentino, do filme homônimo de Ettore Scola.

“São Paulo e Rio são públicos bastante diferentes. No Rio sempre tenho a sensação de que eu vou ter que brigar um pouquinho mais para chamar as pessoas para irem ao teatro, porque tem praia, boteco e essa cultura que é uma delícia, mas que o teatro não é exatamente tão inserido. SP, como não tem essa natureza exuberante, a cultura sempre foi muito colocada quase em primeiro plano. O turismo de SP é fazer cultura, e o turismo do Rio é ir à praia. O dia ideal deveria ser ir à praia e depois ao teatro”. A presença de Gianecchini dá uma elevada: da academia ao palco, no Rio, em São Paulo ou onde for. Vamos ao teatro! Risos.

A escolha da história foi natural para a atual fase do Giane, que produz seus próprios projetos, com linguagens e temas urgentes da atualidade, como homofobia, fascismo e escuta em meio à polarização. O espetáculo é ambientado na Roma fascista de 1938, em que o ator é um radialista demitido por ser gay e que, por acaso, cruza o caminho de uma dona de casa (Casadevall) e descobre, na escuta, uma forma de resistência. “Nos anos 70, o fascismo tinha um peso porque todo mundo já tinha acabado de viver momentos horríveis. Hoje o fascismo foi meio flexibilizado. Um dia eu falei que tínhamos que tomar cuidado com falas fascistas e ainda com o perigo de o fascismo voltar, e as pessoas me atacaram achando que eu estava falando do partido deles. Assim como quando falamos de democracia, não falamos exclusivamente sobre um partido. A polarização fez a conversa se perder. A peça fala de coisas muito sérias, mas com leveza. Hoje isso é quase revolucionário”, resume.

O ator diz que interpretar Gabriele é um exercício de desconstrução da masculinidade tóxica e rígida da época (e de agora), uma oportunidade de mostrar uma força que não vem do “músculo”, mas da vulnerabilidade: “O grande ouro é ser exatamente do jeito que você é sem querer copiar ninguém, sem querer se encaixar em nada ou corresponder a nada, porque esses padrões todos que nos foi imposto só serviram pra causar sofrimento e deixar o mundo menos interessante. É muito melhor quando vemos a autenticidade e individualidade de cada um. E a gente tem que abrir os nossos olhares pra descobrir essas belezas, porque ficamos por muito tempo cegos”. Leia sua entrevista:

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UMA LOUCURA: Fazer teatro sem patrocínio. É insustentável você ter que pagar elenco, equipe técnica, aluguel de teatro — muita gente envolvida. Mesmo quando a peça vai bem de público, a bilheteria simplesmente não cobre os custos. Um espetáculo emprega, no mínimo, 50 pessoas, e isso é caro. Não dá pra fazer arte de qualidade sem pagar bem a todo mundo. Por isso a lei de incentivo é tão necessária. O dinheiro não vai para o bolso do artista, como muitos pensam, mas vai para garantir trabalho, dignidade e que a arte chegue ao público. Sem incentivo, o sistema te empurra para o vermelho. Para quem vive da própria arte, é uma luta constante para se manter de pé.

UMA ROUBADA: Comprar briga na internet. Tentar discutir num território que dá palco para hater. Entrar nisso é dar palco para quem não merece. Não vale a pena.

UMA IDEIA FIXA: O que me move é  viajar o mundo, conhecer lugares. E não é só visitar, é entender como as pessoas vivem ali. Vivenciar mesmo. Ter novos olhares, outras possibilidades de vida, outros jeitos de existir. Acabei de tirar a cidadania, agora sou oficialmente cidadão italiano. Sempre adorei a Itália e, de alguma forma, ela sempre me chama, desde a época em que eu era modelo. Depois veio o cinema, novela, filmagens… Tem uma coisa meio de alma mesmo. Apesar disso, nunca tive vontade de largar o Brasil de vez ou sumir daqui. O que eu quero é passar temporadas fora. A Itália é um desses lugares,mas existem vários outros. Se eu pudesse, ficaria três meses em cada lugar.

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UM PORRE: Uma coisa que me dá um pouquinho de aflição, que eu acho chata mesmo, são pessoas prolixas. Gente que dá mil voltas para dizer uma coisa simples. Como a gente nunca tem tempo na vida, cruzar com alguém assim é complicado.

UMA FRUSTRAÇÃO: Sempre quis trabalhar de garçom num projeto de verão. Tipo: ir para uma cidade fora, passar o verão inteiro trabalhando num lugar muito cool, com gente muito cool, e depois voltar com uma graninha, fruto daquele trabalho de temporada. Isso sempre foi um plano que nunca consegui realizar.

UM APAGÃO: Não foi exatamente meu, mas eu presenciei. Estava fazendo uma peça com Ricardo Tozzi e ele teve um apagão num nível absurdo. Não foi um branco, mas um apagão mesmo, daqueles de sair do corpo. De repente, eu estava contracenando com uma espécie de massa sem alma. E o espetáculo tinha que continuar. A pessoa simplesmente não conseguia dizer a próxima frase. Não foi esquecimento de texto, foi apagão real. Acho que foi uma das experiências mais insanas que já vivi em cena.

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UMA SÍNDROME: Do impostor. Já tinha ouvido falar disso, mas nunca soube explicar direito. Eu vivo com a sensação de que talvez eu não dê conta. E, ao mesmo tempo, é justamente isso que me faz ser muito persistente na minha busca. É quase como se eu estivesse sempre esperando o momento em que alguém vai me desmascarar e dizer: “Você é um impostor”. E aí você se cobra muito. Já ouvi muitos atores falando sobre isso, como a  Fernanda Torres — que é a atriz que eu mais admiro. Acho que é uma síndrome bastante comum entre artistas, porque a arte não é matemática, não é algo palpável. Você nunca tem certeza absoluta de que sabe como chegar lá, de como entregar aquilo ao público. Costumo brincar que a culpa da autocrítica é toda do meu ascendente em Virgem. Quem tem esse signo não relaxa nunca. É uma pessoa eternamente em busca.

UM MEDO: Medo de ter medo, porque ele paralisa e te impede de fazer algumas das coisas mais lindas da vida: arriscar, seguir adiante, dar a cara a tapa, descobrir coisas novas — e errar. É até contraditório com o que eu falei antes, dessa coisa virginiana que não quer errar nunca, que busca perfeição. Mas isso é outro ponto. O medo te impede de dar o próximo passo mas também protege, te dá uma noção real de perigo. Na arte, por exemplo, na nossa profissão, é fundamental estar na corda bamba. Correr o risco. Correr o risco do fracasso. É bonito, porque você sai da zona de conforto, se joga, rompe barreiras e descobre coisas que não descobriria de outro jeito. Então, na vida, eu tenho medo de ter medo. Não quero ser essa pessoa que deixa de fazer as coisas porque paralisou.

UM DEFEITO: Tenho vários, só estou  tentando escolher um. Mas o principal é a falta de paciência, porque tenho um ritmo muito acelerado e, quando percebo que as pessoas não estão acompanhando, isso me irrita. E não acho isso bonito. Ao mesmo tempo, isso me obriga a exercitar o outro lado, que é a compreensão, a compaixão. Sei que não parece, mas sou acelerado.

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UM DESPRAZER:  Fazer social com gente que eu não admiro, que não me importa. Isso não é só um desprazer — é uma tortura.

UM INSUCESSO: Sou formado em Direito e foi uma coisa que nada bem-sucedida. Queria ser diplomata e isso foi um insucesso total.

UM IMPULSO: Voltar pra casa, para os meus cachorros, meu canto. Voltar é um alento.”

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UMA PARANOIA: (depois de algum tempo…) Nenhuma. De verdade.

Giannechini como e Maria Casadeval como Antonieta
Gianecchini como e Maria Casadeval como Antonieta (./Divulgação)
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