São Sebastião, padroeiro do Rio de cima e do Rio de baixo
O pedido ultrapassa a dimensão religiosa e expõe uma cidade cindida
São Sebastião, nosso padroeiro, cuida do Rio de cima e do Rio de baixo. O pedido ultrapassa a dimensão religiosa e expõe uma cidade cindida. O Rio de cima é o da Vieira Souto; o Rio de baixo é o das comunidades. O Rio de cima é o dos carros blindados; o Rio de baixo é o do transporte público lotado. O Rio de cima é o do asfalto seguro; o Rio de baixo é o das encostas instáveis. O Rio de cima tem plano de saúde; o Rio de baixo depende de filas intermináveis. O Rio de cima tem endereço; o Rio de baixo tem ponto de referência. O Rio de cima é visto; o Rio de baixo é contado nas estatísticas. E assim vai! Tem muito Rio de cima e Rio de baixo. Entre a fé e a urgência, pode soar como alerta e cobrança. Não, não, meu São Sebastião: proteja todos os cariocas — os de cima e os de baixo — porque, no fim, não existem dois Rios, a cidade mais bonita do mundo é uma só.
Não há melhor referência ao falar sobre o Rio de cima e o Rio de baixo como a Cruzada São Sebastião, o complexo habitacional com o nome do santo padroeiro, fundada em 1955 como uma espécie de plano piloto para acabar com as 150 favelas existentes na cidade naquela época. O conjunto tem dez prédios e 945 apartamentos, abrigando mais ou menos cinco mil moradores e sofre com a violência do tráfico de drogas.
Virou tema de documentário, “Crônica de uma cidade partida”, de Ricardo Nauenberg, lançado em 2023, que começou a ser gravado em 2017, mostrando uma realidade muito conhecida e pouco resolvida — habitação popular. “O filme tem a missão de provocar uma reflexão porque vivemos numa sociedade muito cega, achando que está tudo lindo aqui embaixo, e não entende que está todo mundo num barco só. As pessoas ficam impressionadas quando a violência desce, mas não entendem que, para solucionar a violência, tem que solucionar habitação popular e criar políticas públicas, levar hospitais, escolas etc”.
Antes de começar a filmar, Ricardo frequentou a Cruzada por seis meses, conhecendo os personagens. Só depois é que começou a gravar entrevistas por mais de um ano e meio, e escolheu nove, entre traficantes, policiais de elite, ativistas comunitários e professores esportivos: “Ali dentro acontecem todos os processos que estamos vivendo no Rio: a questão da segurança, da negligência da política de habitação popular, onde existem os desmandos do governo, da favelização da cidade. Tem o crime, e a cidade acaba se partindo em regiões onde o poder público não entra. Mas o que a gente vê ali tem aqui fora também – muitas práticas ilegais, só que lá é exagerado porque não tem supervisão do estado, que não se interessa por aquilo. Nos prédios de classe alta de Ipanema, tem muita gente transgredindo, uma sociedade avessa ao espírito de comunidade, uma sociedade que não respeita as leis. Mas isso é fácil de resolver simplesmente fazendo com que as leis sejam cumpridas. O que nós não podemos fazer aqui fora, eles não podem fazer lá dentro, mas, por outro lado, o estado não entra lá. Tem que determinar as regras básicas de que todos somos iguais, temos o mesmo direito, somos tratados da mesma maneira nas obrigações e vantagens. Como o estado não entra lá para determinar as normas, os caras fazem as deles, assim como nas favelas”.





