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Lu Lacerda

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Jornalista apaixonada pelo Rio

Teatro, por Claudia Chaves: “Coyote”

O espetáculo aposta nas fricções e confia na inteligência do público

Por Daniela
23 jan 2026, 10h00 • Atualizado em 23 jan 2026, 10h48
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 (./Divulgação)
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  • Em cartaz no Teatro Poeirinha, “Coyote” — título adotado na montagem brasileira do texto originalmente escrito em inglês como “A Dog Barking” — confirma a força de uma dramaturgia interessada menos em respostas e mais em fricções.

    A peça é do premiado autor escocês Eric Coble, conhecido por tensionar o cotidiano até que ele revele suas camadas mais estranhas e, justamente por isso, mais humanas.

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    O texto parte de uma premissa simples e profundamente contemporânea: duas pessoas diferentes, solitárias e urbanas, que enxergam o mundo de maneira semelhante, ainda que organizem essa visão por metáforas distintas.

    Ele vive recluso, atento a qualquer possibilidade de captar sinal de redes — uma tentativa quase desesperada de manter contato com o mundo sem, de fato, enfrentá-lo. Ela, ao contrário, deseja transformar radicalmente sua forma de se relacionar com o exterior.

    O encontro entre esses dois rios paralelos cria um terceiro curso: um rio principal, onde os afluentes se misturam e se transformam em uma única corrente.

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    A tradução de Diego Teza é um dos grandes acertos da montagem. Ao optar por Coyote, desloca o eixo simbólico do “latido” para o animal — que nunca aparece em cena, apenas é referido — e o coloca no centro do desenvolvimento da ação e da transformação dos personagens. O coiote torna-se motor dramático, metáfora viva e instável.

    Os episódios de contato com essa presença improvável beiram a total improbabilidade realista, mas encontram plena lógica dentro da dramaturgia, que opera como um constante “aperto de parafuso”.

    A tradução ainda amplia sentidos ao evocar os coyotes da fronteira — atravessadores que tanto podem conduzir ao sucesso quanto à morte. Essa ambiguidade ecoa na peça: o que salva também ameaça; o que aproxima pode expor ao risco.

    Em cena, Rodrigo Pandolfo constrói um trabalho de forte caráter performativo. Mesmo nos momentos de humor, sua atuação evita o conforto da piada fácil. Há algo de deliberadamente simplório e patético — no melhor sentido teatral do termo — que reforça a fragilidade do personagem.

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    Karen Coelho, por sua vez, sustenta uma personagem de personalidade mais forte e decidida, acompanhando com precisão o arco de transformação proposto pela dramaturgia.

    A direção de movimento de Toni Rodrigues é outro elemento que adensa o sentido do espetáculo. O leve coxear do personagem de Rodrigo poderia ser apenas um detalhe, mas torna-se um definidor de personalidade: um traço físico que dialoga diretamente com sua condição emocional e existencial.

    “Coyote” é uma dessas peças que não se esgotam na primeira camada. Às vezes, tudo parece óbvio. Às vezes, é um completo mistério. Ao final, permanece a sensação rara de um espetáculo que confia na inteligência do público e oferece muito mais perguntas do que respostas.

    Em “Coyote”, há, definitivamente, muito no que pensar.

    Conversa com Rodrigo Pandolfo:

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    1-Você já fez musicais e até esteve no Rock in Rio sem cantar. O que te deu vontade de mudar de caminho?

    Eu sinto que os musicais são como uma viagem para outro continente dentro da minha jornada. O meu caminho sempre foi o teatro não musical. Sou um ator que canta, diferente de um ator voltado especificamente para o teatro musical. Embora O Despertar da Primavera – O Musical tenha sido um divisor de águas na minha carreira e aberto muitas portas, ali foi o encontro do ator com o personagem certo, na hora certa. Mas a verdade é que não sou um bom ator de musical, pois canto pouco — às vezes me aventuro só para dar um refresco. Então vamos deixar essa fatia para quem tem essa habilidade, não é?

    2- Quando surge um projeto novo, o que te faz dizer “sim”? Há algo que você procura logo de cara num texto ou numa ideia?

    Não costumo procurar nada em específico. Em princípio, é o trabalho que me escolhe. Só depois a minha intuição entra em campo: se o fogo interno apitar, tem algo ali para mim, como aconteceu em Coyote. Se não, agradeço e reconheço que o trabalho é para outra pessoa.

    3- Como nasce um trabalho seu?

    Depende muito. Se eu sou o criador ou idealizador, costuma nascer primeiro a ideia ou o texto. Nesse caso, tenho autonomia para escolher temas que estejam alinhados com o meu discurso atual, com o que eu quero, de fato, comunicar ao público naquele momento.

    4- Algo muda no seu olhar quando você atua também como diretor?

    Muda muito, sobretudo o entendimento do abismo que é estar dentro de um ator. Isso reforça a importância da comunhão e da confiança na relação ator-diretor, sempre de forma respeitosa e carinhosa. O autoritarismo de diretores mais antigos era um falso empoderamento vaidoso, muitas vezes agressivo. Hoje, esse cenário finalmente evoluiu.

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    5-Seus trabalhos costumam girar em torno de casais. O que te interessa tanto nessas relações?

    Não é uma escolha consciente. Talvez facilite a manutenção de uma produção teatral, por serem poucos atores. Mas sinto que meu foco não está exatamente nos casais, e sim no contraponto deles: a solidão, o vazio existencial, uma condição que nos afeta estando ou não ao lado de alguém.

    6-Essas relações ajudam a falar de questões maiores?

    Sim, porque dificilmente alguém se cura sozinho. As pessoas entram no nosso caminho para nos ensinar algo, para abrir os nossos olhos para alguma coisa.

    Serviço:

    📍 Teatro Poeirinha
    🗓 Quintas, sextas e sábados, às 20h
    🗓 Domingos, às 19h

    Claudia Chaves
    (Arquivo/Arquivo pessoal)

     

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