Por que mataram Orelha?
O assassinato do cachorro em Santa Catarina revoltou os brasileiros e provocou manifestações por todo o país; duas acontecem domingo no Rio.
Está difícil falar do caso Orelha. Cada vez que olho a foto dele com as tarjas das chamadas “Morto a pauladas”, “Cachorro morre após ser brutalmente assassinado”, “Morte de cachorro comunitário causa revolta” sinto mal-estar, uma onda de tristeza e desesperança. Mas aí me lembro que ele viveu por dez anos dormindo numa casinha e comendo bem graças a moradores, seus vizinhos, em Praia Brava (SC). Por que alguns humanos ainda veem os animais como objetos que podem ser descartados, usados como diversão ou meio de ganha-pão e outros criam laços de afetos com eles?
Os jovens agressivos que bateram em Orelha provavelmente eram turistas, não tinham ligação com ele e, espero, sejam incapazes de fazer o mesmo com os próprios cachorros. O que não ameniza a atrocidade que fizeram, talvez até o contrário, mostra que o diferente, o desconhecido, o outro que não faz parte da minha vida não tem valor. Vale para um ser vivo, como Orelha, um ser humano como uma menina que se maltrata na balada, um cidadão de outro estado, um brasileiro que vota em outro partido.
A verdade é que busco uma explicação para o ato covarde desses jovens porque a experiência me mostra que os cachorros são os seres mais inofensivos que existem, capazes do perdão absoluto sempre, não importa a casa – ou a rua, no caso dos moradores em situação de rua – em que moram, se têm roupinha ou não, se dormem num colchão confortável ou num lençol fino. Cachorros amam quem cuida deles. Tenho certeza que Orelha era apaixonado pela veterinária médica Fernanda Oliveira, que garantiu que apesar de não ter um tutor único, Orelha nunca ficou sem atendimento médico, recebendo vermifugação, vacinas e consultas sempre que necessário, com os custos divididos espontaneamente entre moradores. Em uma reportagem, ela falou que ele era extremamente dócil e tinha o hábito de se aproximar sempre que alguém demonstrava intenção de fazer carinho. Cachorros são assim.
Onde moro também criamos um grupo de protetores de cães. Se aparece algum perdido nas ruas da nossa região, quem o vê o resgata levando para uma clínica veterinária ou para casa, depois o grupo é acionado e começamos a vaquinha para pagar a hospedagem dele. O capítulo final é conseguir uma família porque é isso que todo cachorro quer e merece. Atualmente, temos quatro cachorros sob nossos cuidados: Chérie, Noel, Rudolf e Arthur. Parfa ajudá-los, clique aqui. Em Praia Brava, além de Orelha, os moradores cuidavam de Caramelo que quase morreu também vítima de tentativa de afogamento. Sobreviveu e foi adotado. Se cada comunidade cuidar de seus próximos, animais e humanos, e se cada um respeitar o bairro vizinho, a cidade vizinha, o país vizinho, aquele que não é igual a você, que pensa diferente, que é de outro sexo, outra raça, outra religião, que não é da sua tribo, acredito que mais da metade das barbaridades que vemos desaparecerá. É possível.
No domingo, duas manifestações pedindo justiça para o caso do assassinato de Orelha acontecem no Rio: às 10h com concentração no Aterro em frente ao Monumento aos Pracinhas e, às 14h, no Posto 2, em Copacabana.





