A volta às aulas, a escola e a democracia
Em nosso país marcado por desigualdade social e desinformação, a escola reafirma, a cada início de ano, sua função democrática.
O retorno dos estudantes às escolas costuma ser tratado como um simples começo de ano letivo. No entanto, a volta às aulas é um acontecimento. Diz muito sobre o país que somos e sobre o projeto de sociedade que desejamos construir. Em nosso país marcado por desigualdade social e desinformação, a escola reafirma, a cada início de ano, sua função democrática.
As férias escolares suspendem o ritmo institucional cotidiano da escola e todos – crianças, jovens e adultos – experimentam o mundo com menos pressa. As crianças e jovens fazem aprendizagens fora do currículo formal nas conversas, nas leituras livres, experiências familiares e comunitárias.
Mas a escola vazia perde seu sentido. Ela existe para o encontro, para a algaravia das conversas entre os alunos, para o barulho do pensamento em formação, para o conflito produtivo das ideias, para o exercício da palavra, da escuta e do pensamento crítico.
A volta às aulas é muito mais do que a retomada de rotinas administrativas. É a reativação de um espaço coletivo onde a democracia pode ser aprendida na prática. Na escola, crianças e jovens tem contato com a diversidade social e cultural do país, aprendem a argumentar, a discordar sem violência, a construir regras comuns e a reconhecer direitos e deveres. Em sociedades tão desiguais como a brasileira, a escola tem uma função estruturante.
A escola pública brasileira enfrenta bravamente desigualdades históricas. Para muitos estudantes, ela é o principal — às vezes único — espaço de acesso sistemático ao conhecimento, à cultura escrita, às artes e à ciência. Desqualificar a escola pública, precarizar suas condições de funcionamento ou reduzir seu papel a resultados mensuráveis de curto prazo significa aprofundar as desigualdades e comprometer o futuro democrático do país.
O trabalho docente é essencial porque ensinar não é apenas transmitir conteúdos, mas dar condições para que os estudantes compreendam o mundo em que vivem e se reconheçam como sujeitos de direitos. Em tempos de circulação acelerada de informações, discursos de ódio e negacionismos diversos, a escola é espaço insubstituível de formação do pensamento crítico e da responsabilidade coletiva.
Infelizmente, a docência é socialmente desvalorizada. Exaltam-se lógicas de eficiência, competitividade e acumulação, mas não se reconhece a magnitude do trabalho árduo e complexo, cotidiano e profundamente humano de professores e professoras. Ensinar é um gesto radical de esperança. Nenhuma democracia se sustenta sem educação de qualidade e uma educação de qualidade existe com profissionais valorizados.
Celebrar a volta dos estudantes à escola é mais do que um gesto simbólico. É afirmar a importância do conhecimento, é reconhecer que a democracia se constrói desde cedo, no cotidiano das salas de aula, nos corredores e nos pátios escolares.
Aprender é um processo permanente. É o fio que liga o que fomos ao que ainda podemos ser.





