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Pauta Verde

Por Luiza Maia, jornalista e vegana por amor Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Papos sobre vegetarianismo, veganismo e escolhas conscientes.

Caso Havaianas: o que justifica não consumir um produto

A marca de chinelos virou alvo de boicote da direita no fim de 2025. Há, porém, um boicote bem menos ruidoso que antecede o episódio

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21 jan 2026, 14h59 • Atualizado em 21 jan 2026, 15h09
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Fernanda Torres: comercial das Havaianas com a atriz virou motivo de ódio (Instagram/Reprodução)
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  • Às vésperas do Natal, a Havaianas — uma das marcas brasileiras mais conhecidas e fenômeno internacional com suas sandálias de borracha — virou alvo de um boicote puxado por políticos e apoiadores da direita. O estopim foi uma campanha publicitária estrelada pela premiada atriz Fernanda Torres, protagonista do longa Ainda Estou Aqui, em que a artista desejava que o consumidor não começasse 2026 “com o pé direito”, mas “com os dois pés”. A frase, uma brincadeira com o ditado popular associado à sorte, foi interpretada por apoiadores da extrema-direita como uma provocação política disfarçada, o que gerou um barulho intenso nas redes sociais e fora delas — com vídeos de pessoas jogando seus pares de chinelos no lixo e encenando o próprio boicote.

    O episódio teve consequências rápidas: queda nas ações da empresa, seguida de recuperação; aumento de seguidores da Havaianas entre quem apoiou a campanha; e crescimento das redes da concorrente Ipanema entre os que anunciaram que deixariam de consumir a marca. Alguns foram além: não apenas trocaram de fabricante, como descartaram os chinelos que já tinham. E enquanto há pessoas em situação de vulnerabilidade que pedem calçados para não andar descalças — ou economizam por semanas para comprar um par —, outros jogavam fora um produto ainda utilizável, justamente num período em que se reforça a importância da solidariedade e da compaixão com quem tem menos.

    Para além do boicote de cunho político, que se espalhou rapidamente com base em suposições sobre o tom e o posicionamento da marca, a Havaianas deixa de ser consumida há muito mais tempo por outro grupo de pessoas — que não se encaixa nas mesmas pautas da direita. Trata-se de consumidores que evitam produtos de origem animal. Os chinelos da marca não são veganos, o que leva esse público a buscar alternativas semelhantes oferecidas por empresas como Rider, Azaleia, Cartago e Mormaii, todas com linhas de sandálias veganas.

    Mas o que, afinal, faz um chinelo não ser vegano? No caso da Havaianas, o ponto central está no uso do ácido esteárico — um subproduto da indústria frigorífica — como auxiliar de processo na fabricação. Em declaração divulgada pela própria empresa em 2022, o componente representaria menos de 0,6% do produto final, e haveria interesse em substituí-lo por alternativas vegetais. Até o momento, porém, não há confirmação pública de que essa substituição tenha ocorrido. As informações foram levantadas pelo portal Vista-se, especializado em pautas veganas.

    É importante destacar que a Havaianas não realiza testes em animais, outro critério fundamental para muitos consumidores, sejam veganos ou não. Em julho de 2025, inclusive, foi sancionada pela Presidência da República uma lei que proíbe testes em animais para cosméticos, perfumes e produtos de higiene pessoal no Brasil — uma conquista que acompanha uma tendência internacional de combate a práticas consideradas cruéis e desnecessárias.

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    Métodos alternativos, como simulações computacionais e testes in vitro, vêm sendo adotados como substitutos mais éticos. Selos cruelty free, concedidos por organizações como PETA e Leaping Bunny, ajudam a identificar produtos que não são testados em animais em nenhuma etapa da produção. Os selos veganos, como os da The Vegan Society, Certified Vegan e da Sociedade Vegetariana Brasileira, vão além: eles asseguram também que o produto não contém ingredientes de origem animal — informação essencial para quem baseia suas escolhas em critérios éticos mais amplos.

    Quando o assunto é fazer escolhas de consumo mais conscientes, não bastam suposições. É necessário pesquisar, perguntar, ir atrás da composição dos produtos e dos processos envolvidos em sua fabricação. Por isso, adotar o veganismo vai muito além de não consumir carnes, ovos, leites, mel e derivados. Passa pelo vinho — muitas marcas usam substâncias de origem animal, como caseína, albumina e clara de ovo para clarificação —, pelos cosméticos, pelos produtos de limpeza e por uma série de itens do cotidiano.

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    Havaianas: chinelos usados e um convite à reflexão (./Arquivo pessoal)
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    Sou vegana há quase dez anos, sempre dentro do possível e do praticável, como costumo dizer. Dou preferência a produtos com selo vegano e cruelty free e não saio do mercado sem verificar rótulos e embalagens. Sempre gostei dos chinelos Havaianas e tenho um par comprado antes de saber que o produto não era totalmente vegano, usado em casa e, às vezes, na praia. Não pretendo jogá-lo fora nem substituí-lo agora, criando mais resíduos. Tampouco faço parte do grupo que enxergou a campanha da marca como motivo de cancelamento. Este texto também não é um convite ao boicote, mas uma reflexão sobre critérios de consumo que raramente entram no debate público.

    E acho que reforçar o cuidado com os ingredientes e processos por trás do que eu consumo é, para mim, um compromisso renovado — e a forma que encontro de começar 2026 não só com o pé direito, mas com os dois bem firmes no chão.

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