Prêmio UBC 2025 transforma o Centro do Rio no Bar do Zeca
Roda de samba, chope gelado e encontros musicais inéditos marcaram a homenagem histórica ao sambista na Casa UBC.
O Prêmio UBC 2025 — União Brasileira de Compositores — começou exatamente como deve começar uma homenagem a Zeca Pagodinho: com uma roda de samba comandada por Gabriel da Muda na porta do prédio, ao ar livre, em pleno Boulevard Olímpico.
Sob aquele calor carioca que já funciona como convocação para a alegria, o clima era totalmente à altura do sambista mais famoso do país: chope tirado nas torneiras instaladas na praça, petiscos circulando e uma animação que já valia como prévia da festa.
Enquanto isso, dentro da Casa UBC, o clima de bar do Zeca também se formava, aguardando os artistas que iriam subir ao palco para celebrar suas quatro décadas de carreira.
Uma homenagem histórica — e com espírito de festa
Pela primeira vez, o prêmio escolheu um sambista como grande homenageado. Mas, em vez de pompa, o que se viu foi afeto, música e uma sucessão de encontros que só Zeca seria capaz de reunir. Gilberto Gil abriu a noite com uma versão suave de “Deixa a Vida Me Levar”, quase uma bênção coletiva — daqueles momentos em que o Brasil parece mesmo possível.
O evento teve direção artística de Max Pierre e Victor Kelly, sob a batuta da diretoria da UBC, que inclui nomes queridos da música brasileira. E claro, vale registrar: Marcelo Castello Branco, diretor-executivo da UBC — que por acaso é o marido desta jornalista que vos escreve — conduz a associação com a mesma paixão de sempre.
Dividindo a liderança, estão também Wilson Simoninha e Fernanda Takai, completando um trio que leva a música brasileira a sério, mas nunca sem perder a leveza.
Atravessando gerações — com humor, frescor e improviso
No palco, artistas de universos e idades diferentes celebraram quatro décadas de obra. Gilsons e BK’ surpreenderam com “Vou Botar Teu Nome na Macumba”, colocando um groove irresistível na macumba mais famosa do samba-pop brasileiro.
Vanessa da Mata e João Gomes fizeram um “Bagaço da Laranja” tão inusitado quanto delicioso: ela com sua elegância suave, ele com sua espontaneidade nordestina — um encontro improvável que funcionou perfeitamente.
Também teve Zélia Duncan com Mariene de Castro, impecáveis em “Brincadeira Tem Hora”; Xande de Pilares com MC Hariel, que transformaram “Faixa Amarela” em explosão coletiva; além de Roberta Sá, Simoninha, Moacyr Luz, Hamilton de Holanda e Teresa Cristina, todos deixando suas digitais afetivas na obra de Zeca.
O momento do homenageado — e o coro que tomou a Casa UBC (a maior sociedade direitos autorais do Brasil).
A entrega do troféu pelos diretores da UBC foi emocionada, merecida e acompanhada de aplausos longos.
Mas o ápice veio depois: Zeca subiu ao palco, cercado por todos os artistas, para puxar “Camarão que Dorme a Onda Leva”. A Casa UBC, já em clima de bar, virou oficialmente o Bar do Zeca. Era coro, era sorriso, era chope, era samba — e era o Rio sendo o Rio na sua melhor versão.
O pós-festa — e a música que não queria acabar
Quando a cerimônia terminou, a noite ainda não tinha fim. Na acolhedora Casa UBC, artistas foram se reunindo em torno do piano. Um tocava, outro lembrava um clássico, outro puxava outro — e quando se viu, a música tinha tomado conta de novo, espontânea, generosa, verdadeira. Era exatamente o tipo de cena que Zeca inspiraria: ninguém queria ir embora.
O legado de uma unanimidade brasileira
Zeca soma 143 composições e mais de 1.100 gravações, atravessando gerações e formando afetos. Ele é uma rara unanimidade — dessas que o Brasil guarda com carinho porque sabe que não aparecem sempre.
Celebrar Zeca é celebrar um país possível. E naquela noite, no Centro do Rio, ele parecia mais perto do que nunca.
Renata Araújo é jornalista, editora do site You Must Go! e da página no Instagram @youmustgoblog





