“A segurança está falida”, diz José Junior
À frente da Afroreggae Audiovisual, o fundador da renomada ONG leva a realidade com a qual lida há mais de três décadas para o universo da ficção
De forma inédita, as plataformas Globoplay e Disney+ vão se juntar em um projeto para o cinema. Trata-se do longa-metragem Na Linha de Fogo, que gira em torno da luta entre traficantes e forças policiais no Rio. Com lançamento para 2027, o primeiro filme da AfroReggae Audiovisual segue o objetivo da produtora, que acaba de completar a primeira década: apresentar — de forma fiel — uma realidade pouco vista pelo grande público.
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Entre os títulos de sucesso, estão quatro temporadas dos seriados A Divisão e Arcanjo Renegado, cujos novos episódios vão ao ar em novembro. À frente de todas as etapas de cada obra está José Junior, que deixou o posto de uma das figuras mais conhecidas do terceiro setor, como fundador da ONG AfroReggae, para se dedicar exclusivamente às criações. Em entrevista a VEJA RIO, da casa onde mora, em Camboinhas, Niterói, o showrunner revelou bastidores e avaliou o cenário da segurança do Rio, sua principal inspiração.
O audiovisual pode ser uma ferramenta de transformação? Sigo os valores da ONG que fundei há 33 anos. Todas as histórias que vivi foram levadas de alguma forma para a produtora, o que dá a elas uma dimensão gigantesca. As produções nacionais ainda são muito brancas. Tento priorizar o protagonismo negro. A quantidade de egressos do sistema e moradores da favela que temos com a gente também é um número relevante.
Trazer essas pessoas é um compromisso em se manter fel à realidade? A palavra “verossimilhança” está o tempo todo na minha boca. Em Arcanjo Renegado, gravei com mães que perderam os filhos, tenho vinte policiais do Bope que atuam nas folgas e boa parte de quem interpreta traficantes já esteve envolvida com isso. Tentamos usar locações reais e temos consultores nas salas de roteiro, na preparação do elenco e nos sets, como os ex-traficantes conhecidos como Mr. M e Polegar.
Um de seus consultores foi preso recentemente… O Ney (da Conceição, conhecido como Facão) foi um dos maiores traficantes da história e eu que o tirei do crime. Ele estava saindo de uma gravação quando foi preso e não fez o que o acusaram (homicídio de um sargento da PM). Para se ter uma ideia, quando tenho que deixar meus filhos sozinhos à noite, é ele quem chamo para me ajudar. Todos os egressos com quem trabalhamos já sofreram algum tipo de perseguição.
As escolhas conferem às obras um caráter documental? Às vezes, o melhor é registrar sem intervenção. Em Na Linha de Fogo, 80% das cenas foram dentro da Maré. Ao chegar a um local conhecido como Faixa de Gaza, encontrei tudo furado de bala e disse ao diretor de arte para não mexer em nada. Também gravamos uma perseguição para a série Delegacia de Homicídios, que estreia no ano que vem, durante um ensaio técnico no Sambódromo, com público de verdade. Eu poderia ter 100 milhões de reais de orçamento e não conseguiria reproduzir aquilo tão bem.
Encontra dificuldades para filmar nas favelas? Nenhuma. Durante 25 anos, atuei na mediação de conflitos em áreas dominadas pela violência. Fui tentar salvar vidas e nunca perdi ninguém. Entro em qualquer comunidade e, por isso, prefiro filmar em favelas que ainda não foram exploradas pelo audiovisual. Quando há cenas com tiros ou explosões, tudo é comunicado com antecedência.
Como explora os noticiários nas produções? Acham que sou visionário ou profético porque algumas situações que coloco nas obras acabam acontecendo. Na verdade, é porque eu sei o que está rolando antes que seja divulgado. Sou um cronista do mundo real. Há casos de corrupção que vieram à tona e eu já sabia por conversas com ex- -governadores, deputados e chefes de gabinetes. Criei há dois anos uma cena com drones para Arcanjo, e só agora esse assunto está nos jornais.
Há personagens inspirados em pessoas reais? Meu objetivo é inspirar. Em Arcanjo, a presidente da Alerj é uma mulher preta. Quais as chances disso acontecer nos próximos anos? Pensei no impacto que 24 Horas teve ao apresentar um presidente negro antes de Barack Obama chegar à Casa Branca. Com essa professora vinda da Baixada, que atinge um lugar de poder, quero fazer com que outras mulheres acreditem que isso seja possível.
De onde veio o seu envolvimento com o Carnaval? A aproximação com Gabriel David, presidente da Liesa, levou ao meu primeiro reality, A Voz do Carnaval, que escolheu o novo intérprete da Beija-Flor. Durante a produção, percebi que havia muito material sobre Neguinho, daí nasceu a série sobre ele. Fui noivo da Erika Januza quando ela era rainha de bateria e acabei abraçado por esse universo. A relação se intensificou e rendeu vários projetos: estou terminando A Doutrina, sobre o jogo do bicho; e também assino Tudo Acaba em Samba, sobre os bastidores do Carnaval.
Por que fazer um documentário sobre Alexandre Frota? Ele é um personagem único, com uma trajetória de arco do herói. Foi galã nos anos 1980, marcou o país com Casa dos Artistas, trabalhou como ator, enfrentou a dependência química, atuou em filmes pornôs e entrou para a política, mudando radicalmente de posição. A série termina com sua volta à dramaturgia, na 6ª temporada de Arcanjo.
De que forma cuida da saúde mental? Durante muito tempo achei que fazer análise era babaquice, mas voltei neste ano. Minha espiritualidade é o que me mantém equilibrado. Sou eclético e tenho referências de diferentes tradições. Minha casa parece um templo: tenho símbolos judeus, muçulmanos, cristãos… Inclusive, as referências estão nas produções, de forma sutil, mas quem é do babado sabe.
Em ano eleitoral, como avalia a segurança do Rio? Está totalmente falida. Acredito na atual gestão da Polícia Civil, mas o problema ultrapassa qualquer corporação ou poder público estadual. Ao espalhar lideranças criminosas do Rio e de São Paulo por outros estados, acabaram federalizando organizações e conflitos. Antes, elas tinham gestão sobre o crime de rua, e isso se perdeu completamente. O problema precisa ser enfrentado como uma questão nacional, mas o governo federal nunca puxou esse protagonismo como deveria.







