Amyr Klink relembra travessia do Atlântico que virou filme: “Eu sou medroso”

Radicado em Paraty, o velejador fala sobre o filme 100 Dias, que estreia nesta quinta (29), e reflete acerca da própria influência entre os jovens

Por Pedro Coutinho Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 out 2026, 06h27 | Atualizado em 23 out 2026, 12h36
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Amyr Klink: história contada em livro inspirou o novo filme de Carlos Saldanha, 100 Dias (Adriano Vizoni/Divulgação)
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Uma história de cinema

“Pela minha presença no set de 100 Dias, eu corria o grande risco de ser um desses autores chatos que questionam cada detalhe. Por isso, fiz questão de dar total liberdade para Saldanha fazer a adaptação para o cinema. Fiquei impressionado com o rigor e o preciosismo de toda a produção em transpor a história para a grande tela, exatamente como foi. O Felipe Bragança é um superator. Quando soube que ele tinha interpretado o Sidney Magal, pensei: ‘não vai funcionar esse negócio’. No entanto, quando eu vi o filme, percebi o quanto ele é bom. Vai ser muito emocionante, talvez mais do que o próprio livro.”

Veneza dos trópicos

“Paraty tem uma espécie de simbiose com o mar, como se fosse uma Veneza temporária, por conta das marés. Foi lá que me encantei pelo mundo dos barcos. É uma região com uma vocação náutica absolutamente única na América do Sul, além de ser quase uma cidade cenográfica. Vi toda sorte de experimentos cinematográficos na cidade, para o bem e para o mal. Já ganhei até dinheiro trabalhando para a produção de uma adaptação de Gabriela, estrelada pela Sônia Braga e dirigida pelo Bruno Barreto, nos anos 1980. A obra tinha recursos infinitos, mas não repetiu o sucesso de bilheteria de Dona Flor e Seus Dois Maridos, do mesmo diretor. Conversei muito sobre isso com o Carlos Saldanha, porque nem sempre uma boa história faz um bom filme.”

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O encanto do erro

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“Eu sou medroso, mas o que mais me assusta é não conseguir pôr em prática um projeto. Por isso, faço barcos bem feitinhos. Quando li o livro do Gérard d’Aboville, que fez uma travessia no Atlântico Norte, me indignei porque, quando faltavam só 36 milhas para chegar na França, a família dele foi buscá-lo e a viagem foi interrompida. Estudei também os erros de todos que morreram tentando concluir o trajeto. As razões não eram tempestades ou tubarões, mas exaustão física e falhas de planejamento. Nunca tive a intenção de fazer uma travessia espetacular ou de entrar para o Livro dos Recordes, apenas fui me encantando pela solução de problemas que marcaram vários remadores. Gosto de ter certeza do que vai ter do outro lado. E essa é justamente uma das belezas de navegar: não saber como será o caminho, mas ter certeza sobre o ponto de chegada.”

Mentor severo

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“Volta e meia, alguém lê Cem Dias Entre Céu e Mar e me procura: ‘quero fazer a sua viagem, já tenho preparador físico, assessor de imprensa, nutricionista e uma editora para publicar o meu livro’. Eu sempre pergunto se já fizeram o barco, porque eles acham que está cheio de gente querendo financiar maluco se atirando no mar. Tem pessoas que entram no ramo para conseguir likes, dinheiro e fama. No caso do Raphael Garcia, conversamos antes e gostei muito dele. É um cara low profile, extremamente prático e proativo. Lembro que, nos últimos dias de travessia, ele estava indo muito devagar. A mãe dele me ligou querendo buscá-lo e eu mandei um recado bem afiado: ‘se a senhora organizar um resgate, vai destruir a viagem e a vida do seu filho.’ No final, a chegada do Raphael foi muito bonita. Não tinha banda e essas palhaçadas. Estava eu, minha filha Laura e a família dele. Fiquei orgulhoso.”

Filhas de peixe

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“Desde pequenininhas, minhas filhas ouvem que não vão receber herança. Nem dinheiro, nem barco, nem fazendas, nem empresas, nada. Sempre quis que as três fossem fluentes em vários idiomas. Quando a Tamara pediu o meu barco emprestado, eu disse: ‘se você não passar pelo processo, nunca vai aprender. Você vai ralar, desistir, ser enganada, chorar, abandonar o projeto, recomeçar… Só depois, eu tenho confiança de que você vai conseguir ir e voltar’. Então ela foi por conta própria. A sorte é que eu não vi a partir, porque o barquinho era muito precário e eu teria muito medo. Ela foi esperta e só comunicou o que estava fazendo no mar. Quando ela finalizou a Passagem de Noroeste, entre o Atlântico e o Pacífico, eu disse que emprestaria o meu barco, mas ela já não queria. Gostaria que a Tamara acalmasse um pouco agora, mas não sabemos os planos dela.”

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