Amyr Klink relembra travessia do Atlântico que virou filme: “Eu sou medroso”
Radicado em Paraty, o velejador fala sobre o filme 100 Dias, que estreia nesta quinta (29), e reflete acerca da própria influência entre os jovens
Uma história de cinema
“Pela minha presença no set de 100 Dias, eu corria o grande risco de ser um desses autores chatos que questionam cada detalhe. Por isso, fiz questão de dar total liberdade para Saldanha fazer a adaptação para o cinema. Fiquei impressionado com o rigor e o preciosismo de toda a produção em transpor a história para a grande tela, exatamente como foi. O Felipe Bragança é um superator. Quando soube que ele tinha interpretado o Sidney Magal, pensei: ‘não vai funcionar esse negócio’. No entanto, quando eu vi o filme, percebi o quanto ele é bom. Vai ser muito emocionante, talvez mais do que o próprio livro.”
Veneza dos trópicos
“Paraty tem uma espécie de simbiose com o mar, como se fosse uma Veneza temporária, por conta das marés. Foi lá que me encantei pelo mundo dos barcos. É uma região com uma vocação náutica absolutamente única na América do Sul, além de ser quase uma cidade cenográfica. Vi toda sorte de experimentos cinematográficos na cidade, para o bem e para o mal. Já ganhei até dinheiro trabalhando para a produção de uma adaptação de Gabriela, estrelada pela Sônia Braga e dirigida pelo Bruno Barreto, nos anos 1980. A obra tinha recursos infinitos, mas não repetiu o sucesso de bilheteria de Dona Flor e Seus Dois Maridos, do mesmo diretor. Conversei muito sobre isso com o Carlos Saldanha, porque nem sempre uma boa história faz um bom filme.”
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O encanto do erro
“Eu sou medroso, mas o que mais me assusta é não conseguir pôr em prática um projeto. Por isso, faço barcos bem feitinhos. Quando li o livro do Gérard d’Aboville, que fez uma travessia no Atlântico Norte, me indignei porque, quando faltavam só 36 milhas para chegar na França, a família dele foi buscá-lo e a viagem foi interrompida. Estudei também os erros de todos que morreram tentando concluir o trajeto. As razões não eram tempestades ou tubarões, mas exaustão física e falhas de planejamento. Nunca tive a intenção de fazer uma travessia espetacular ou de entrar para o Livro dos Recordes, apenas fui me encantando pela solução de problemas que marcaram vários remadores. Gosto de ter certeza do que vai ter do outro lado. E essa é justamente uma das belezas de navegar: não saber como será o caminho, mas ter certeza sobre o ponto de chegada.”
Mentor severo
“Volta e meia, alguém lê Cem Dias Entre Céu e Mar e me procura: ‘quero fazer a sua viagem, já tenho preparador físico, assessor de imprensa, nutricionista e uma editora para publicar o meu livro’. Eu sempre pergunto se já fizeram o barco, porque eles acham que está cheio de gente querendo financiar maluco se atirando no mar. Tem pessoas que entram no ramo para conseguir likes, dinheiro e fama. No caso do Raphael Garcia, conversamos antes e gostei muito dele. É um cara low profile, extremamente prático e proativo. Lembro que, nos últimos dias de travessia, ele estava indo muito devagar. A mãe dele me ligou querendo buscá-lo e eu mandei um recado bem afiado: ‘se a senhora organizar um resgate, vai destruir a viagem e a vida do seu filho.’ No final, a chegada do Raphael foi muito bonita. Não tinha banda e essas palhaçadas. Estava eu, minha filha Laura e a família dele. Fiquei orgulhoso.”
Filhas de peixe
“Desde pequenininhas, minhas filhas ouvem que não vão receber herança. Nem dinheiro, nem barco, nem fazendas, nem empresas, nada. Sempre quis que as três fossem fluentes em vários idiomas. Quando a Tamara pediu o meu barco emprestado, eu disse: ‘se você não passar pelo processo, nunca vai aprender. Você vai ralar, desistir, ser enganada, chorar, abandonar o projeto, recomeçar… Só depois, eu tenho confiança de que você vai conseguir ir e voltar’. Então ela foi por conta própria. A sorte é que eu não vi a partir, porque o barquinho era muito precário e eu teria muito medo. Ela foi esperta e só comunicou o que estava fazendo no mar. Quando ela finalizou a Passagem de Noroeste, entre o Atlântico e o Pacífico, eu disse que emprestaria o meu barco, mas ela já não queria. Gostaria que a Tamara acalmasse um pouco agora, mas não sabemos os planos dela.”






